BAR Fórmula 1 1999
Automobilismo Fórmula 1

Assim como Cadillac, BAR estreou na Fórmula 1 com pintura assimétrica e alto investimento em 1999

Estreante em 2026 na Fórmula 1, a Cadillac investiu pesado no lançamento de seu carro, com direito a comercial no Super Bowl e telões na Times Square. A pintura chamou atenção pela assimetria, retomando um conceito adotado pela equipe BAR em 1999, sua temporada de estreia. O plano do time britânico, à época, era ainda mais ousado: correr com uma identidade visual diferente em cada carro.

A BAR, sigla para British American Racing, nasceu da compra da Tyrrell Racing pelo grupo tabagista British American Tobacco. A companhia já estava (e segue) envolvida na categoria por meio de acordos de patrocínio, em uma época em que marcas de cigarro podiam ser exibidas sem restrições da FIA (Federação Internacional de Automobilismo). Com a estrutura da nova equipe, o objetivo era dar exposição à Lucky Strike e à 555, dois de seus principais produtos.

A estreia da BAR pode ser comparada à da Cadillac em diversos aspectos. Ambas representam grandes marcas — uma ligada ao setor de tabaco, a outra à indústria automobilística —, contaram com nomes de peso logo de cara e fizeram alto investimento já na temporada de estreia. Assim como a equipe britânica fez em 1999, espera-se que o time americano ocupe o fundo do pelotão em 2026.

Projeto ousou com contratação de campeão da Fórmula 1

Se a Cadillac reuniu dois pilotos consolidados, Sergio Pérez e Valtteri Bottas, que juntos somam 16 vitórias na Fórmula 1 e três vice-campeonatos, a BAR foi além. A dupla escolhida para o primeiro ano do projeto já contava com um dos maiores nomes da época: Jacques Villeneuve, campeão mundial dois anos antes, que recusou a McLaren para aceitar o desafio com a equipe novata. O canadense, à época com 28 anos, se juntou ao estreante brasileiro Ricardo Zonta, campeão da Fórmula 3000 em 1997.

Inicialmente, a equipe pretendia alinhar dois carros com esquemas distintos. Villeneuve usaria as cores branca e vermelha da Lucky Strike, enquanto Zonta correria com o azul escuro com detalhes amarelos da 555. Os modelos chegaram a ser apresentados em cerimônia oficial, com pilotos, integrantes do time e fotógrafos presentes.

Apresentação BAR-01 Fórmula 1
Foto: Reprodução / Marca

A prática é comum em categorias americanas, como a Fórmula Indy — onde a Reynard, fornecedora do chassi, atuava — e a NASCAR, mas não na Fórmula 1. A FIA prontamente barrou a ideia, forçando a BAR a encontrar uma solução para que as duas marcas aparecessem em proporções iguais em um mesmo carro.

Uma das raras exceções que a entidade abriu ocorreu em 2008, quando David Coulthard fazia sua despedida da Fórmula 1 no GP do Brasil. Na ocasião, sua equipe, a Red Bull, pediu uma autorização especial às demais equipes e à FIA. A pintura toda branca do australiano também visava promover um projeto social: a “Wings for Life”, projeto da patrocinadora voltado ao tratamento de lesões medulares.

A saída encontrada pela BAR foi manter o conceito original e unificar os dois esquemas, separados por um zíper desenhado ao centro. Do lado direito, o branco e vermelho, e do esquerdo, o azul e amarelo. Apenas no bico, onde o zíper estava “aberto”, apareciam detalhes mais neutros em cinza e preto.

Há quem ame e quem odeie a pintura de 1999 da BAR, mas fato é que se trata de uma das mais icônicas e únicas da história da Fórmula 1. Entretanto, a inventividade só foi vista na hora de pintar o chassi BAR 01, pois na pista o cenário foi para lá de decepcionante.

BAR Fórmula 1 1999
Foto: Reprodução / Kanon Beltran via Facebook

O otimismo nos bastidores era grande, mas virou frustração quando a temporada começou. O investimento de cerca de 100 milhões de dólares — cifra alta para a categoria naquele período — na preparação para o primeiro campeonato não trouxe resultado imediato algum.

O conjunto até tinha velocidade, mas contava com motores pouquíssimo confiáveis da Supertech. Villeneuve abandonou as 11 primeiras provas que disputou. O melhor desempenho veio com Mika Salo, que substituiu Zonta após uma fratura no tornozelo e terminou em sétimo no GP de San Marino. À época, apenas os seis primeiros pontuavam, e o time britânico fechou o Mundial de Construtores na 11ª e última posição, zerado.

A bizarra aposta de Villeneuve e Zonta na Bélgica

A temporada de 1999 da BAR também ficou marcada por um momento inimaginável até para a Fórmula 1 da época: uma aposta entre os dois pilotos da equipe envolvendo uma das curvas mais rápidas e perigosas do calendário.

Ao chegar a Spa-Francorchamps, palco do GP da Bélgica, as expectativas estavam longe das melhores para Villeneuve e Zonta. O carro do canadense chegou a quebrar a suspensão em plena Reta Kemmel durante os treinos livres.

Na classificação, ele propôs ao brasileiro um desafio ousado e perigoso: fazer o trecho Eau Rouge-Radillon sem aliviar o acelerador, de pé embaixo. Poucos carros do grid de 1999 eram capazes disso, mas Zonta topou.

O treino seguiu, e as duas BAR foram para a pista. Com cerca de trinta minutos para o fim, Villeneuve tentou contornar a sequência sem tirar o pé do pedal e sofreu uma batida fortíssima, praticamente idêntica ao acidente que sofrera no ano anterior.

Após a bandeira vermelha para reconstrução das barreiras de pneus, foi a vez de Zonta. Diferentemente do companheiro, ele não acertou as proteções da parte externa, mas as da parte interna do trecho, com direito a capotagem.

Ricardo Zonta sofre acidente em Spa 1999
Foto: Reprodução / @PFF1 via X

Os dois saíram ilesos, mas comprometeram a classificação da equipe. No domingo, Villeneuve terminou em 15º depois de largar em 11º, enquanto Zonta abandonou com problemas na caixa de câmbio, após partir da 14ª posição.

O projeto ainda seguiria na Fórmula 1 por mais seis anos. Com a parceria firmada com a Honda, a estrutura ganhou competitividade. O ápice veio com o vice-campeonato de construtores em 2004, com Jenson Button e Takuma Sato, responsáveis por 11 pódios e uma pole position. A dúvida paira sobre se a Cadillac conseguirá replicar ou superar o sucesso da BAR, ou se será mais um daqueles projetos com grande potencial que nunca se concretizou, como tantas outras na história do esporte.

Pode-se dizer que a BAR segue viva no paddock. Em 2006, a Honda assumiu a operação por completo, e a base deu origem à Brawn GP, campeã mundial em 2009 ao explorar uma brecha no regulamento. Na sequência, a Mercedes adquiriu o controle e permanece como uma das potências da Fórmula 1.

(Foto principal: Clive Rose)