Automobilismo Fórmula 1

Fórmula 1: Relembre as três últimas corridas inaugurais de novos regulamentos

Daqui a duas semanas, o GP da Austrália dará a largada para uma nova era da Fórmula 1. Será a estreia de um regulamento inovador e polêmico: novos motores, carros menores, menos downforce e um sistema revolucionário de aerodinâmica ativa nas asas dianteira e traseira. Mudanças profundas que naturalmente despertam desconfiança entre pilotos e torcedores — algo que, como a própria história da categoria mostra, está longe de ser novidade.

Ao longo de seus 76 anos, a Fórmula 1 passou por sucessivas revoluções técnicas, motivadas por segurança, desempenho, custos ou espetáculo. O regulamento anterior, por exemplo, ficou marcado pelas dores de cabeça (e de coluna) provocadas pelo porpoising, o efeito de “quiques” nas retas causado pela reintrodução do efeito solo e pela sensibilidade aerodinâmica dos carros.

Mas toda nova regra carrega também uma promessa: a de embaralhar forças e inaugurar capítulos inesperados. Relembrar como foram as corridas inaugurais de outras grandes viradas técnicas é uma forma de entender o que pode estar por vir. A seguir, revisitamos, em ordem cronológica, as aberturas das temporadas de 2022, 2017 e 2014 — anos que marcaram o início de diferentes eras na categoria.

GP do Bahrein de 2022 – dobradinha da Ferrari e desastre duplo da Red Bull

Charles Leclerc Carlos Sainz Fórmula 1
Foto: Reprodução / Fórmula 1

A Fórmula 1 chegou a 2022 ainda no embalo da épica e polêmica disputa entre Max Verstappen e Lewis Hamilton no ano anterior, que consagrou o primeiro título do holandês.

Enquanto a Red Bull tinha um início forte no novo regulamento, marcado pela volta do efeito solo e pela introdução de pneus maiores, a Mercedes sofria com as oscilações horizontais e, após a pré-temporada, parecia estar léguas atrás dos austríacos e da Ferrari, apontada como favorita a partir dos resultados dos testes.

Na qualificação, Charles Leclerc colocou a Ferrari na pole position, apenas um décimo mais rápido que Verstappen e seu companheiro Carlos Sainz Jr., que completaram o top 3.

O monegasco segurou a pressão do holandês e manteve a ponta. Ele seguiu intocável na liderança até a volta 17, quando o piloto da Red Bull partiu para o ataque. Os dois protagonizaram uma grande batalha ao longo da prova, com vantagem majoritária para Leclerc.

Na volta 54, após uma relargada de safety car, Verstappen começou a perder velocidade e deu brecha para Sainz assumir a segunda posição, concretizando a dobradinha da Ferrari. Antes de concluir o giro, o carro do holandês apagou de vez, e ele deu adeus à corrida com um problema de combustível.

Seu companheiro de equipe, Sergio Pérez, ocupava a terceira posição na abertura da volta final. Porém, logo na curva 1, sofreu um problema igual ao do parceiro e abandonou. O pesadelo da Red Bull estava concretizado.

Leclerc cruzou a linha de chegada em primeiro e assumiu a liderança do Mundial pela primeira vez na carreira, seguido por Sainz, em segundo, e George Russell, da Mercedes, em terceiro.

Fora da briga pela vitória, o destaque da prova foi Kevin Magnussen, que terminou em quinto logo em sua reestreia na Fórmula 1 pela Haas, após um ano sabático em 2021. O dinamarquês sequer estava contratado para disputar a temporada, mas o início dos conflitos entre Rússia e Ucrânia levou a sanções que forçaram o cancelamento do acordo de patrocínio da Uralkali, de propriedade do pai do russo Nikita Mazepin, demitido semanas antes da primeira corrida.

No fim das contas, a vitória de Leclerc o embalou para manter a ponta do campeonato por um tempo, mas a Red Bull se reergueu ao longo da temporada e, ao fim de 2022, Verstappen se sagrou bicampeão mundial.

GP da Austrália de 2017 – Vettel larga na frente na corrida pelo título

Sebastian Vettel Fórmula 1
Foto: SAEED KHAN/AFP via Getty Images

Para a temporada 2017, a Fórmula 1 preparou mudanças que deixaram os carros mais rápidos e mais largos em relação aos da geração anterior. O tamanho dos pneus foi uma das principais mudanças visuais, além de uma solução adotada por quase todos os times: a barbatana de tubarão, uma continuação da carenagem na parte mais alta do carro, que havia sido banida em 2012.

A força dominante da época era a Mercedes, responsável por títulos de Hamilton, em 2014 e 2015, e Rosberg, em 2016. Na pré-temporada, a Ferrari largou na frente e deu indícios de que retornaria às glórias da década anterior.

A pole foi conquistada por Hamilton, com Sebastian Vettel completando a primeira fila. Na largada, o britânico manteve a ponta, enquanto o alemão sofreu pressão inicial de Valtteri Bottas, recém-chegado à Mercedes após a surpreendente aposentadoria de Rosberg.

Hamilton sofreu com a aderência dos pneus e não conseguiu abrir uma vantagem considerável sobre Vettel. Ele fez seu pit stop antes do piloto da Ferrari, que teve ar limpo à frente enquanto o rival batalhava com os demais que ainda não haviam parado. Quando chegou sua vez de trocar os pneus, na volta 24, Vettel saiu na frente e colocou um carro adversário entre os dois.

Fora da briga pela vitória, o herói local Daniel Ricciardo abandonou na volta 29 com problemas mecânicos. O fim de semana do australiano já havia começado com o pé esquerdo, tendo que largar dos boxes.

Sem sofrer qualquer ameaça a partir do momento em que assumiu o primeiro lugar, Vettel cruzou a linha de chegada para vencer na abertura da temporada, seguido por Hamilton e Bottas, respectivamente.

A prova marcou também o “retorno” de Felipe Massa, que anunciou que 2016 seria sua última temporada na Fórmula 1. A aposentadoria durou pouco, e o brasileiro foi chamado de volta após a contratação de Bottas pela Mercedes. O piloto do nº 19 completou a corrida em sexto.

Apesar de começar o ano na frente, Vettel não teve fôlego para segurar Hamilton, que conquistou seu quarto campeonato mundial ao fim daquele ano.

GP da Austrália de 2014 – o início da Era Mercedes na Fórmula 1 e o último suspiro da McLaren

Nico Rosberg Fórmula 1
Foto: Mark Thompson/Getty Images

Após quatro temporadas dominadas por Vettel e Red Bull, a temporada 2014 decretou o início da polêmica e impopular “era híbrida” da Fórmula 1. Os barulhentos motores V8 aspirados deram lugar aos V6 híbridos, mais silenciosos e complexos, que combinavam combustão com recuperação de energia graças aos sistemas MGU-K e MGU-H.

Visualmente, o começo do novo período técnico foi marcado por alguns carros com bicos alongados em um formato incomum, que visavam cumprir o tamanho máximo do nariz do carro. Ironicamente, nenhuma das equipes que adotou a solução extravagante se deu bem naquele ano.

Caterham asa dianteira 2014
Foto: XPBCC

A Mercedes chegou a Melbourne como favorita, mas o público não imaginava quão dominante o W05 seria. Na qualificação, Hamilton conquistou a pole sob chuva, que começou a cair no Q2 e se intensificou no Q3, seguido por Rosberg e Ricciardo, que estreava pela Red Bull após a aposentadoria de Mark Webber.

Destaque para Kevin Magnussen, que estreava pela McLaren na categoria e se qualificou em uma surpreendente quarta posição. O time britânico vinha de um ano sem brilho em 2013, justamente o primeiro após a saída de Hamilton.

Na volta de formação, o carro de Jules Bianchi — que sofreu, naquela temporada, o último acidente fatal registrado na Fórmula 1 — ficou parado no grid e precisou ser recolhido pelos mecânicos para largar dos boxes.

Rosberg pulou para a frente na curva 1, tomando a liderança de Hamilton. Mais atrás, Kamui Kobayashi (Caterham) abalroou a Williams de Felipe Massa, e ambos deram adeus à prova.

Hamilton abandonou com problemas de motor após somente quatro voltas, e o mesmo aconteceria com Vettel no giro seguinte. A nova unidade de potência ainda seria, mais tarde naquele GP, responsável pela saída da dupla da Lotus-Renault, Pastor Maldonado e Romain Grosjean.

Com muita folga — 26 segundos —, Rosberg cruzou a linha de chegada em primeiro, seguido por Ricciardo e Magnussen, nessa ordem. Porém, após a corrida, o piloto da casa foi desclassificado por irregularidades relacionadas à quantidade de combustível em sua Red Bull.

Com isso, o dinamarquês foi promovido ao segundo lugar e repetiu o feito de Hamilton, que, pela mesma McLaren, estreou na Fórmula 1 com um pódio em 2007. Jenson Button completou o top 3. Aquela foi a última vez que a McLaren sentiu o sabor do champanhe até a prova de Interlagos, em 2019, pois os anos seguintes relegaram o time de Woking ao fundo do pelotão.

A vitória de Rosberg deu início àquele que seria apenas o primeiro capítulo de sua rivalidade com Hamilton. Ao fim de 2014, o inglês foi bicampeão mundial, sete anos após o primeiro título de sua carreira na Fórmula 1.

(Foto principal: Reprodução)