A seleção da França segue impressionando na Copa do Mundo de 2026. Com mais uma atuação dominante, desta vez diante da Suécia, a equipe comandada por Didier Deschamps venceu por 3 a 0, avançou às oitavas de final e reforçou a impressão de que pode ser a principal candidata ao título. Os franceses alcançaram um feito inédito ao se tornarem a primeira seleção da história a marcar três ou mais gols em cinco partidas consecutivas de uma Copa do Mundo, além de contarem com um Kylian Mbappé vivendo mais um torneio de nível extraordinário.
Apesar dos números impressionantes, uma dúvida continua acompanhando a campanha francesa. Afinal, o futebol apresentado é realmente suficiente para colocá-la acima de todas as outras seleções ou o desempenho precisa ser analisado com cautela por conta do nível dos adversários enfrentados até aqui? Essa discussão passa a ganhar ainda mais força conforme o mata-mata avança.
Domínio absoluto dentro de campo e números que impressionam

Poucas seleções conseguem transmitir tanta segurança quanto a França neste Mundial. Contra a Suécia, o placar de 3 a 0 refletiu exatamente o que aconteceu durante os 90 minutos. Os franceses controlaram mais de 60% da posse de bola, finalizaram 12 vezes contra apenas três dos suecos e praticamente não permitiram que o adversário criasse situações de perigo.
O grande protagonista voltou a ser Kylian Mbappé. O atacante marcou dois gols, chegou à incrível marca de 18 gols em 18 partidas de Copa do Mundo e tornou-se o maior artilheiro da história das fases eliminatórias do torneio, com dez gols, superando nomes históricos como Ronaldo e Leônidas da Silva.
Mais do que os gols, chama atenção a maneira como a França constrói suas jogadas. A equipe não depende apenas da velocidade de Mbappé. O sistema ofensivo de Didier Deschamps privilegia a movimentação constante dos atacantes, que trocam de posição durante toda a partida. Bradley Barcola, Ousmane Dembélé e os demais jogadores de frente participam da construção das jogadas, abrem espaços e dificultam qualquer tipo de marcação individual.
Essa movimentação faz com que as defesas rivais precisem se reorganizar praticamente a cada ataque. Quando um defensor acompanha Mbappé, outro espaço automaticamente aparece para um companheiro explorar. O resultado é uma equipe extremamente fluida, que consegue criar oportunidades por dentro, pelos lados e em transições rápidas.
Outro aspecto importante é o preparo físico. Mesmo com as pausas para hidratação adotadas nesta Copa do Mundo, a intensidade francesa continua elevada do início ao fim das partidas. A pressão na saída de bola e a velocidade nas transições acabam desgastando os adversários, que normalmente passam a cometer erros na reta final dos jogos.
O nível dos adversários ainda gera questionamentos

Se por um lado os números colocam a França como favorita ao título, por outro existe um fator que ainda impede uma avaliação definitiva: o nível dos adversários enfrentados.
Até agora, os franceses construíram sua campanha diante de seleções que não figuram entre as principais forças do futebol mundial. Senegal, Iraque, uma Noruega que utilizou uma equipe alternativa e a própria Suécia chegaram ao torneio sem o mesmo peso técnico das grandes candidatas ao título. Além disso, a seleção sueca ainda atravessava problemas de organização antes do início da competição.
Esse contexto faz com que muitos analistas defendam cautela antes de colocar a França em um patamar isolado.
O futebol apresentado é extremamente convincente, mas ainda não foi colocado à prova contra um rival de elite.
Mesmo assim, os sinais positivos são muitos. A equipe demonstra organização defensiva, criatividade ofensiva, controle emocional e enorme capacidade de adaptação durante as partidas. Não se trata apenas de vencer adversários mais fracos, mas de fazê-lo com autoridade e sem correr riscos.
O técnico sueco Graham Potter resumiu bem essa sensação após a derrota. Segundo ele, sua equipe precisava ser perfeita para competir contra a França e, ainda assim, talvez isso não fosse suficiente. Para Potter, naquele momento do torneio, não existia uma seleção jogando melhor.
Curiosamente, quem faz questão de diminuir qualquer clima de euforia é o próprio Didier Deschamps. Após a classificação, o treinador reconheceu que o caminho até as oitavas foi relativamente tranquilo, mas evitou qualquer tipo de comemoração exagerada.
Ao ser questionado sobre o crescimento da confiança entre torcedores e jornalistas franceses, respondeu de maneira direta: “Calma, por favor. Ainda existem problemas. Sempre há espaço para melhorar.”
Essa postura ajuda a explicar parte do sucesso francês nos últimos anos. Mesmo colecionando resultados expressivos, a comissão técnica mantém o discurso de evolução constante, evitando qualquer sensação de missão cumprida antes da hora.
Agora, o próximo desafio será contra o Paraguai, seleção que surpreendeu o mundo ao eliminar a Alemanha nos pênaltis. Embora os paraguaios também não estejam entre os favoritos ao título, chegam embalados por uma atuação defensiva praticamente impecável diante dos alemães e podem representar o primeiro teste realmente diferente para a poderosa equipe francesa.
Se a França conseguir manter o mesmo nível de desempenho diante de um adversário organizado e que chega em alta confiança, o discurso sobre a qualidade dos rivais provavelmente perderá força. Até lá, permanece uma discussão legítima: a seleção francesa realmente é a melhor equipe desta Copa do Mundo ou apenas ainda não enfrentou um desafio à altura? Independentemente da resposta, uma coisa parece clara. Poucas equipes conseguem combinar tanto talento individual, organização coletiva e eficiência ofensiva como os franceses vêm demonstrando até aqui, características que os colocam, com méritos, entre os principais candidatos ao título mundial.
(Foto de capa: Buda Mendes/Getty Images)