França x Inglaterra pode não valer uma vaga na final da Copa do Mundo, mas ainda assim promete atrair milhões de espectadores ao redor do planeta. Enquanto muitos enxergam a disputa pelo terceiro lugar apenas como um compromisso sem importância, existe um argumento cada vez mais interessante a favor desse tipo de partida: talvez outros esportes também devessem adotar esse formato.
A decisão entre Argentina e Espanha naturalmente rouba todos os holofotes, mas o duelo entre França e Inglaterra oferece algo que poucos eventos esportivos conseguem entregar após uma eliminação dolorosa: uma última oportunidade de terminar o torneio com dignidade. Em vez de simplesmente voltar para casa depois da semifinal, França e Inglaterra ainda têm um objetivo esportivo, financeiro e até histórico para disputar.
Embora o debate esteja longe de ser unanimidade, a existência da disputa pelo terceiro lugar levanta uma pergunta curiosa: será que ligas como NFL e o futebol universitário dos Estados Unidos poderiam se beneficiar de algo semelhante?
A partida que muitos criticam, mas milhões continuam assistindo
Todo ciclo de Copa do Mundo traz exatamente a mesma discussão. Há quem considere a disputa de terceiro lugar completamente desnecessária. Os argumentos aparecem rapidamente.
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Os jogadores normalmente chegam desgastados física e emocionalmente após perderem a semifinal. Muitos atletas sonhavam apenas com a final e encaram o novo compromisso quase como uma obrigação. Parte da torcida também já perdeu o entusiasmo depois da eliminação, enquanto alguns enxergam a partida apenas como mais uma oportunidade para a FIFA aumentar receitas com ingressos, patrocinadores e direitos de transmissão.
Mesmo assim, os números mostram que o interesse continua enorme. Afinal, continua sendo um confronto entre duas seleções de elite, recheado de estrelas e disputado dentro do maior torneio do futebol mundial.
No caso desta edição da Copa do Mundo, França e Inglaterra entram em campo tentando encerrar campanhas competitivas de maneira positiva, algo que pode influenciar até o ambiente para o próximo ciclo rumo a 2030.
O terceiro lugar vale mais do que apenas uma medalha
É fácil imaginar que terminar em terceiro ou quarto não faz diferença, Inglaterra e França estavam focados em ser campeões do mundo. Na prática, porém, existem vários motivos para levar essa partida a sério.
Além da premiação financeira oferecida pela FIFA, a vitória também gera pontos importantes para o ranking da entidade. Todas as estatísticas oficiais entram para a história do torneio, incluindo gols, assistências, minutos disputados e recordes individuais.
Para atletas que brigam pela artilharia ou por premiações individuais como é o caso de Mbappé pela França e Harry Kane pela Inglaterra, esse jogo pode ser decisivo. Para jogadores jovens, representa uma oportunidade rara de ganhar experiência em partidas de altíssimo nível sem a pressão extrema de uma decisão pelo título.
Do ponto de vista psicológico, terminar a Copa do Mundo vencendo também muda bastante a percepção sobre uma campanha. Ninguém troca um terceiro lugar por uma final, obviamente, mas encerrar o torneio comemorando costuma deixar um gosto muito menos amargo. Para França e Inglaterra, por exemplo, uma vitória também representa a chance de fechar a campanha de maneira mais positiva diante de seus torcedores.
A NFL já teve algo parecido e pouca gente lembra disso
Quem pensa que os esportes americanos jamais cogitaram uma disputa de terceiro lugar talvez se surpreenda ao olhar para a história.
Entre 1961 e 1970, a NFL realizou o chamado Playoff Bowl, torneio que colocava frente a frente os derrotados das finais de conferência da liga. A partida era disputada em Miami e servia justamente para definir quem encerraria a temporada na terceira colocação.
O formato nunca conquistou grande prestígio. Pelo contrário.
O lendário técnico Vince Lombardi, um dos maiores nomes da história do futebol americano, chegou a apelidar o confronto de “S*** Bowl”, deixando claro que não via qualquer glamour naquela partida. Para ele, era um jogo sem relevância esportiva.
Ainda assim, nem todos compartilhavam dessa visão. Alguns atletas enxergavam o duelo como uma recompensa por uma temporada consistente, além da oportunidade de enfrentar outra equipe de alto nível antes das férias.
Com a fusão entre NFL e AFL e a expansão dos playoffs, o torneio acabou desaparecendo. O interesse comercial diminuiu, e o calendário passou a oferecer desafios maiores para acomodar mais partidas decisivas.
O futebol universitário mostra que jogos sem título também funcionam
Existe outro exemplo bastante interessante dentro do esporte americano: os tradicionais bowl games do futebol universitário.
Durante décadas, essas partidas movimentaram cidades inteiras mesmo sem definir o campeão nacional. Em muitos casos, reuniam universidades que jamais se enfrentariam durante a temporada regular, criando confrontos inéditos e bastante atrativos para torcedores.
Além do espetáculo, havia outro benefício importante.
Treinadores utilizavam esse período extra para desenvolver jogadores mais jovens, testar formações diferentes e iniciar o planejamento da temporada seguinte. Técnicos históricos, como Bear Bryant, valorizavam justamente esse tempo adicional de preparação.
É exatamente esse raciocínio que poderia ser aplicado às seleções nacionais.
Depois de uma eliminação na semifinal, por que não aproveitar a disputa de terceiro lugar para dar minutos a jovens promessas? Em vez de simplesmente abandonar o torneio, técnicos de França e Inglaterra poderiam acelerar o processo de renovação sem abrir mão da competitividade.
O futebol ganha mais uma grande partida
Mesmo que muitos atletas preferissem encerrar imediatamente sua participação após a semifinal, é difícil negar o valor esportivo de colocar duas potências frente a frente mais uma vez.
França e Inglaterra possuem elencos capazes de transformar uma partida considerada “secundária” em um espetáculo de alto nível. Além disso, o confronto oferece aos torcedores uma última oportunidade de acompanhar alguns dos melhores jogadores do planeta antes do fim da Copa do Mundo.
Para quem acompanha apenas grandes competições internacionais, isso representa um bônus importante antes do longo intervalo até os próximos torneios de seleções. A rivalidade entre França e Inglaterra ainda adiciona um ingrediente extra para um duelo que, mesmo sem valer o título, desperta enorme interesse.
O dinheiro também faz parte da discussão
É claro que existe um componente comercial impossível de ignorar.
Mais uma partida significa mais audiência, mais publicidade, mais ingressos vendidos e mais receitas para organizadores, patrocinadores e emissoras. Esse sempre foi um dos principais argumentos dos críticos da disputa de terceiro lugar.
Ao mesmo tempo, o sucesso de audiência costuma mostrar que existe demanda pelo produto. Se milhões de pessoas continuam assistindo, fica difícil argumentar que o jogo não possui qualquer valor para o público.
Talvez justamente por isso a ideia de criar disputas semelhantes em outros esportes nunca desapareça completamente. Ainda parece improvável imaginar NFL ou futebol universitário adotando esse formato novamente, mas a discussão certamente ganha força sempre que a Copa do Mundo entrega um confronto tão atrativo quanto França x Inglaterra.
No fim das contas, talvez a disputa pelo terceiro lugar nunca tenha o peso emocional de uma final. Ainda assim, ela continua oferecendo algo que o esporte sempre valoriza: mais uma oportunidade de competir, buscar uma vitória importante e encerrar uma grande campanha com uma última boa lembrança. Para França e Inglaterra, o duelo também representa a chance de terminar a Copa do Mundo deixando uma última impressão positiva para seus torcedores.
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