Ryan Garcia
Lutas Boxe

Ryan Garcia e Conor Benn são provas vivas do ‘marketing do vilão’ no boxe

Ryan Garcia e Conor Benn lutarão pelo título mundial dos meio-médios do WBC, em Las Vegas, carregando todos os ingredientes que normalmente fazem uma grande luta de boxe. Há um campeão, um desafiante, duas personalidades fortes, provocações, dinheiro, uma promotora poderosa e o investimento de Turki Alalshikh. Há também a expectativa de descobrir quem é o melhor entre dois nomes que passaram os últimos anos tentando reconstruir suas carreiras. Mas existe uma parte dessa história que dificilmente aparecerá com a mesma frequência nas entrevistas, nas coletivas e nas chamadas promocionais: clomifeno e ostarina.

São os nomes das substâncias pelas quais Benn e Garcia tiveram testes positivos em momentos diferentes de suas carreiras. O britânico foi flagrado com clomifeno em 2022, enquanto Garcia teve resultado positivo para ostarina em 2024, depois da luta contra Devin Haney. Os dois casos tiveram consequências distintas, mas produziram algo em comum: durante determinado período, as carreiras dos dois passaram a ser definidas não apenas pelo que faziam dentro do ringue, mas também pela controvérsia fora dele.

O mais curioso é que o tempo não apagou exatamente essas marcas. Ele fez algo mais complexo: transformou a controvérsia em parte da narrativa comercial dos dois.

A mancha que deveria encerrar carreiras

O caso de Benn foi especialmente traumático porque aconteceu quando sua carreira começava a atingir um novo patamar. O britânico estava prestes a enfrentar Chris Eubank Jr. em uma das maiores rivalidades possíveis para o boxe britânico, carregada pelo confronto histórico entre seus pais, Nigel Benn e Chris Eubank. A luta foi cancelada após o caso envolvendo a clomifeno, e Benn ficou 525 dias afastado dos ringues.

Durante esse período, o boxeador passou a lutar não apenas para voltar a competir, mas para recuperar o controle da própria identidade. Antes, era principalmente o filho de Nigel Benn. Depois, tornou-se também o boxeador associado à substância, à suspensão, à polêmica e às intermináveis piadas envolvendo ovos, uma referência à tentativa de explicar a origem do resultado positivo.

O episódio alterou completamente a percepção pública sobre ele. E, por algum tempo, parecia razoável imaginar que a mancha acompanharia Benn pelo resto da carreira. Mesmo que voltasse a vencer, haveria sempre um “mas” depois de seu nome. O problema é que o boxe profissional raramente funciona de maneira tão linear.

Benn voltou. Venceu lutas. Reencontrou Eubank. Perdeu a primeira. Venceu a revanche. E, em vez de a controvérsia desaparecer, ela foi incorporada à história que cercava o confronto. O que deveria ser apenas um obstáculo passou a ser também um elemento de promoção.

Ryan Garcia experimentou algo parecido, mas de uma maneira completamente diferente. Quando seus testes positivos para ostarina vieram a público, em 2024, Garcia já era uma das maiores personalidades do boxe nas redes sociais. Sua personalidade extravagante, comportamento imprevisível e enorme audiência digital haviam criado uma relação peculiar com o público: era difícil separar o boxeador do personagem.

O problema aconteceu justamente depois de sua atuação contra Devin Haney, quando Garcia surpreendeu o mundo ao derrotar o rival em uma das performances mais impressionantes de sua carreira. A vitória parecia confirmar a teoria de que toda a controvérsia em torno do lutador fazia parte de uma estratégia psicológica. Quando os resultados antidoping vieram à tona, entretanto, a narrativa mudou.

A vitória foi posteriormente transformada em no-contest, Garcia recebeu uma multa de US$ 1,1 milhão e foi suspenso por um ano. Mais uma vez, a lógica parecia indicar que a carreira sofreria um golpe definitivo. Mas Garcia tinha algo que o boxe moderno valoriza quase tanto quanto títulos: atenção.

Mesmo depois da suspensão, continuou sendo um dos nomes mais reconhecíveis do esporte. Voltou contra Rolando “Rolly” Romero, perdeu por decisão e, ainda assim, menos de nove meses depois recebeu outra oportunidade de disputar um cinturão, dessa vez contra Mario Barrios.Garcia venceu e conquistou o título dos meio-médios do WBC.

A trajetória mostra algo interessante. No boxe, uma derrota ou uma controvérsia não necessariamente elimina um lutador quando existe demanda suficiente para vê-lo novamente.

O boxe descobriu que polêmica também vende

A lógica seria simples: uma infração antidoping produz punição e uma mancha na carreira. Mas o boxe adiciona uma variável que muda completamente essa equação: valor comercial.

Se o público quer assistir, existe dinheiro a ganhar. Benn descobriu isso quando conseguiu voltar rapidamente à órbita de grandes eventos. Garcia descobriu de maneira ainda mais evidente porque sua capacidade de gerar atenção nunca desapareceu completamente.

A rivalidade entre Benn e Eubank é o melhor exemplo. A controvérsia não impediu a realização da luta. Em determinados momentos, ela tornou o confronto ainda mais interessante. A provocação, a hostilidade e as referências ao passado foram incorporadas ao espetáculo.

O caso mostra como o boxe consegue transformar praticamente qualquer elemento em narrativa. A rivalidade familiar já existia. A suspensão acrescentou conflito. As provocações acrescentaram personalidade. A redenção acrescentou emoção. E o dinheiro juntou tudo.

Existe uma certa hipocrisia inevitável nesse modelo. Ao mesmo tempo em que o boxe insiste, corretamente, na importância de regras antidoping e pune atletas que violam essas regras, o próprio mercado rapidamente procura maneiras de reinserir os mesmos atletas em grandes eventos quando percebe que eles continuam capazes de vender ingressos, pay-per-views e audiência.

Isso não significa ignorar as punições ou afirmar que Garcia e Benn continuam dopados. Eles foram punidos e estão autorizados a competir. A questão é outra: o esporte não tratou a controvérsia como algo que deveria necessariamente afastá-los de sua elite competitiva. Tratou-a como um obstáculo que poderia ser administrado. E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.

O boxe não possui uma estrutura única de liga que determine quem merece ou não disputar uma oportunidade. Cinturões, rankings, promotores, emissoras, investidores e interesse do público participam simultaneamente da construção dos grandes combates.

Nesse ambiente, ser controverso pode ser ruim para a reputação, mas não necessariamente para o negócio.

Garcia e Benn também são produtos da era das redes sociais

A comparação entre os dois também ajuda a entender uma transformação no próprio perfil do boxeador moderno. Benn não possui a mesma persona digital de Garcia, mas tornou-se uma figura de enorme relevância online justamente por causa da controvérsia. Garcia, por outro lado, praticamente construiu parte de sua carreira em torno da capacidade de produzir conteúdo, provocar adversários e gerar discussões fora do ringue.

Isso cria uma realidade em que o boxeador não precisa ser apenas um atleta. Precisa ser reconhecido mesmo por pessoas que talvez não acompanhem regularmente o esporte.

Garcia entende isso perfeitamente. Ele próprio reconheceu que, no boxe atual, é necessário evoluir em diferentes áreas, desde o desempenho esportivo até a capacidade de entretenimento e criação de conteúdo.

É uma declaração importante porque explica por que determinados lutadores conseguem permanecer relevantes mesmo quando atravessam períodos de desempenho irregular. A atenção funciona como uma espécie de seguro de carreira.

Por isso, Ryan Garcia x Conor Benn é uma luta particularmente interessante. Depois de anos em que suas histórias foram dominadas por suspensões, rivalidades, redes sociais, derrotas, retornos e controvérsias, os dois finalmente chegam a uma luta em que existe uma pergunta esportiva impossível de ignorar: qual deles ainda é capaz de se afirmar como um dos melhores da categoria?

Garcia chega como campeão do WBC depois de vencer Barrios. Benn chega como desafiante e depois de reconstruir sua trajetória, inclusive com a vitória sobre Eubank Jr. na revanche. Os dois possuem argumentos para acreditar que pertencem novamente ao topo.

Mas também chegam com dúvidas. Garcia tem demonstrado lampejos do talento que o transformou em fenômeno, mas sua carreira recente é marcada por irregularidade.

Benn, por sua vez, passou parte significativa de sua trajetória recente lutando fora dos meio-médios e precisa mostrar que pode competir nesse peso contra um adversário de elite.

É isso que torna o combate mais interessante do que simplesmente uma disputa entre dois nomes famosos. É uma tentativa de ambos de transformar relevância em legitimidade esportiva.

Existe, porém, uma tentação de simplesmente esquecer tudo o que aconteceu. À medida que a luta se aproxima, as palavras “campeão”, “desafiante”, “Las Vegas” e “legado” são muito mais convenientes para vender o evento do que “clomifeno” e “ostarina”. Só que a história completa da luta exige as duas coisas.

Reconhecer os casos não significa afirmar que os dois continuam utilizando substâncias proibidas. Também não significa negar o direito de ambos de voltar a lutar depois de cumprirem as respectivas punições. Significa apenas reconhecer que esses episódios fazem parte da trajetória que levou os dois até Las Vegas.

O público pode assistir à luta e separar o espetáculo das controvérsias. Mas a imprensa e o próprio esporte não deveriam fazer de conta que elas nunca existiram. Porque existe uma diferença entre permitir que um atleta reconstrua sua carreira e apagar a história que tornou essa reconstrução necessária.

No fim, a luta é sobre mais do que um cinturão

No final, os dois querem respeito. Os dois querem provar que suas carreiras são maiores do que os episódios que as marcaram. Os dois continuam sendo grandes nomes porque aprenderam a sobreviver à controvérsia. E o boxe, por sua vez, continua colocando os dois em grandes palcos porque descobriu que suas histórias ainda valem dinheiro.

No sábado, no entanto, não haverá espaço para redes sociais, entrevistas ou narrativas cuidadosamente construídas. Haverá um ringue.

Garcia terá a oportunidade de mostrar que o campeão que derrotou Barrios é o verdadeiro lutador que existe por trás do personagem. Benn terá a chance de mostrar que a carreira que quase foi interrompida em 2022 conseguiu sobreviver não apenas à controvérsia, mas também ao peso de uma expectativa enorme.

E o boxe terá sua própria prova para realizar. Porque, se a indústria aprendeu a transformar controvérsia em espetáculo, agora precisa descobrir se ainda consegue transformar espetáculo em esporte.

Garcia e Benn podem ter aprendido a conviver com as manchas de suas carreiras. O que acontece em Las Vegas dirá se eles finalmente conseguirão colocar o boxe novamente acima delas.