Há um momento, no esporte como na vida, em que o tempo para apenas para permitir que as lembranças cheguem todas de uma vez. Em Bérgamo, isso acontece sempre que Gian Piero Gasperini cruza novamente o limite da cidade. Mas hoje é diferente. Hoje, pela primeira vez depois de nove anos, Gasperini não volta para casa: volta como adversário.
Noventa anos de história da Atalanta conheceram treinadores, temporadas boas e outras de mera sobrevivência, mas nada se compara ao que aconteceu a partir de 2016. Gasperini e a Atalanta foi uma coincidência rara de visão, paciência e coragem. Um amor que parecia destinado a durar para sempre, tanto que em Bérgamo passaram a chamá-lo de “Gasperson”, como se fosse um sobrenome gravado no registro civil nerazzurro. Mas, como todas as grandes histórias, esta também teve um fim.
O começo da história que mudou a Atalanta
Quando chegou no verão de 2016, a Atalanta era um time acostumado a olhar para trás, a contar pontos pela permanência e a agradecer ao calendário. As primeiras semanas pareceram confirmar os temores: quatro derrotas nos primeiros cinco jogos, com a sombra da demissão já pronta para cair.
Então chegou aquele domingo de outubro contra o Napoli, e Gasperini fez sua escolha. Caldara, Conti, Gagliardini, Petagna: garotos da base, o all-in de um treinador que já enxergava aquilo que os outros ainda não conseguiam imaginar. O gol de Petagna foi apenas mais um no placar, mas na história da Atalanta representou uma fissura irreversível no muro da mediocridade.
A partir dali, Bérgamo aprendeu a voar. Primeiro timidamente, depois sem medo algum. Voltar às competições europeias depois de quase dez mil noites não foi apenas uma conquista esportiva, mas uma reparação emocional para uma cidade que sempre amou o futebol sem exigir nada em troca. Cada viagem era uma festa popular, cada partida um ato de orgulho provincial. E quando a Champions League se tornou realidade, em 2019, a Atalanta deixou definitivamente de ser um conto de fadas para se transformar em um projeto.
A consolidação de um projeto histórico
Gasperini ensinou Bérgamo a não se contentar. Transformou um time em uma máquina de gols, mas, acima de tudo, em um símbolo. No ano mais sombrio, o da Covid, a Atalanta se tornou um refúgio coletivo, uma forma de acreditar que até uma cidade ferida poderia se reerguer. As noites europeias, os duelos contra os gigantes, o PSG quase derrotado em Lisboa, o Manchester City colocado contra as cordas: eram jogos de futebol, sim, mas também atos de resistência emocional.
Depois veio o troféu. A Europa League de 2024, erguida em Dublin, não foi um ponto final. Não para Gasperini. Para ele, foi a confirmação de que o Paraíso existia de verdade e que a Atalanta ainda poderia se aproximar dele. No mesmo ano, a equipe chegou até a pronunciar uma palavra proibida: scudetto. Em Bérgamo, desde 1907, ninguém jamais ousara fazê-lo seriamente.
E enquanto o campo oferecia sonhos, os números contavam outra revolução. Mais de 450 milhões de euros em arrecadação, jogadores contratados, transformados e devolvidos ao futebol europeu como obras concluídas. Højlund, Koopmeiners, Romero, Kulusevski: nomes que hoje valem cifras impensáveis sem o trabalho obsessivo e personalizado de Gasperini. A Atalanta tornou-se um destino, não mais uma etapa de passagem.
Depois, como acontece em todo ciclo, algo se quebrou. Os reforços que não chegam, os pontos que escapam, o chamado de Roma. Em 30 de maio de 2025, enquanto Bérgamo tentava ir às ruas para convencê-lo a ficar, Gasperini se despedia. Desta vez, para valer.
E, ainda assim, certos amores nunca acabam de fato. Permanecem nos murais, nas frases escritas do lado de fora do estádio, nos cânticos entoados mesmo quando o protagonista ocupa outro banco. Permanecem nas crianças que agora torcem pela Atalanta sem concessões, nos turistas que vêm de longe para ver onde tudo aconteceu.
Hoje, quando Gasperini entrar na New Balance Arena como treinador da Roma, Bérgamo saberá fazer apenas uma coisa: levantar-se. Porque algumas histórias não pedem explicações, apenas gratidão. E porque, como diz aquela frase que já se tornou eterna, um dia se contará que aquela cidade viveu no tempo de Gasperini.
(Foto: Getty Images)

