Quando Gianni Infantino assumiu a presidência da FIFA, em 2016, o cenário era de terra arrasada. A entidade enfrentava uma crise institucional profunda após escândalos de corrupção que culminaram na saída de Sepp Blatter. Havia um rombo estimado em 550 milhões de dólares, patrocinadores deixando o barco e uma credibilidade seriamente abalada.
A missão de Infantino era simples no papel e gigantesca na prática, sem contar nas dificuldades, era fácil de entender o que queriam: reconstruir a imagem da FIFA e reorganizar suas finanças. Dez anos depois, o dirigente suíço pode dizer que estabilizou e até fortaleceu o caixa da entidade. A instituição projeta arrecadar 13 bilhões de dólares no ciclo financeiro atual, um recorde histórico.
Mas quando o assunto é o italiano, números nunca vêm sozinhos. Eles sempre caminham ao lado de debates, críticas e polêmicas.
De dirigente discreto a protagonista global
É fácil esquecer que Gianni Infantino não era o nome mais forte para assumir a FIFA em 2016. O favorito era Michel Platini, então presidente da UEFA. Com Platini envolvido nas investigações que também atingiram Blatter (ambos posteriormente inocentados na esfera criminal), a UEFA lançou Infantino como alternativa.
Até então, o mesmo era conhecido por organizar sorteios da Champions League. Pouco carisma midiático, pouca exposição pública, parecido com o Gru de Meu Malvado Favorito, esse fator acabava sendo o único ponto chamativo nele. A eleição foi apertada, decidida voto a voto, mas marcou o início de uma gestão que mudaria o perfil da entidade.
Desde o primeiro discurso, Infantino prometeu ampliar os recursos destinados às federações e expandir a Copa do Mundo. A competição, que inicialmente poderia crescer para 40 seleções, acabou aprovada com 48. A ideia era clara: aumentar receitas para distribuir mais dinheiro ao redor do planeta.
Catar 2022 e o momento mais marcante de Gianni Infantino
A Copa do Mundo de 2022 no Catar representou um divisor de águas na imagem pública de Gianni Infantino. Pressionada por críticas relacionadas a direitos humanos e condições de trabalho, a FIFA esteve sob intenso escrutínio internacional.
Foi nesse contexto que Gianni Infantino fez um dos discursos mais comentados da história recente do futebol, afirmando sentir-se “catariano, árabe, africano, gay, deficiente e trabalhador migrante” naquele dia. A declaração ganhou repercussão mundial e consolidou o presidente como figura central do evento para o bem e para o mal.
A partir dali, o italiano deixou de ser apenas um administrador nos bastidores. Tornou-se personagem ativo do espetáculo global.
Expansões ambiciosas e novas controvérsias
A ampliação das competições é uma das marcas da gestão dele. O novo Mundial de Clubes, confirmado para 2025 nos Estados Unidos, será o maior da história. A decisão, no entanto, gerou críticas de sindicatos de jogadores, preocupados com o calendário cada vez mais apertado.
Outro ponto delicado foi a definição das Copas de 2030 e 2034. A edição de 2030 será realizada em três continentes, praticamente abrindo caminho para que 2034 fosse destinada à Arábia Saudita. A decisão reacendeu debates sobre critérios políticos e direitos humanos.
No campo financeiro, Gianni Infantino também esteve sob os holofotes ao receber aumento salarial após sua reeleição. A FIFA defende que os vencimentos seguem critérios transparentes e são definidos por comitê independente, mas o tema alimentou críticas.
Relação com Donald Trump e tensão com a UEFA
Outro capítulo importante da presidência de Gianni Infantino foi sua proximidade com o presidente dos Estados Unidos Donald Trump. A relação gerou desconforto dentro da UEFA, especialmente após compromissos diplomáticos que levaram o dirigente a se atrasar para compromissos oficiais da Fifa.
Na preparação para a Copa nos Estados Unidos, Trump recebeu um prêmio simbólico da entidade, o que reforçou a percepção de que Gianni Infantino ampliou o diálogo político da Fifa além do tradicional ambiente esportivo.
Ao mesmo tempo, os preços elevados dos ingressos para o próximo Mundial, especialmente para a final, também provocaram debates. O argumento da gestão é que a demanda global justifica os valores e que a receita retorna ao futebol via investimentos estruturais.
Por que Gianni Infantino permanece praticamente sem oposição?
Apesar das críticas mais fortes vindas da Europa, Infantino mantém apoio sólido no colégio eleitoral da Fifa. O programa Fifa Forward distribuiu bilhões de dólares às 211 associações nacionais, financiando projetos de infraestrutura, base e desenvolvimento técnico.
Para federações da África e da Ásia, que representam parcela significativa dos votos, a gestão dele trouxe ganhos concretos. Em eleições da Fifa, cada país tem direito a um voto, independentemente do tamanho ou tradição futebolística.
Reeleito sem adversários em 2019 e 2023, o italiano poderá concorrer novamente em 2027. Uma decisão interna determinou que seu primeiro mandato reduzido não conta no limite formal de três períodos.
O legado de Gianni Infantino no futebol mundial
Ao completar dez anos à frente da Fifa, Gianni Infantino consolidou uma gestão marcada por crescimento financeiro, ampliação de torneios e redistribuição de recursos. Ao mesmo tempo, acumulou episódios controversos e críticas sobre centralização de poder e aproximação política.
É possível discordar do estilo. Questionar decisões. Debater prioridades.
Mas é difícil ignorar o impacto de Gianni Infantino no futebol global. Para muitos países fora do eixo europeu tradicional, ele é o presidente que fortaleceu financeiramente suas federações. Para críticos, é o dirigente que transformou a Fifa em uma máquina ainda mais comercial e midiática.
No tabuleiro político do futebol mundial, porém, o resultado é claro: dez anos depois, Gianni Infantino continua no centro do jogo e com amplo controle da partida.