gigantes adormecidos clubes
Futebol La Liga Ligue 1 Serie A

Gigantes adormecidos: cinco clubes históricos da Europa que buscam recuperar seu lugar entre a elite

Mesmo longe das principais competições, algumas dessas equipes ainda carregam uma tradição que poucos clubes conseguem construir. Seus estádios continuam sendo símbolos de épocas vitoriosas, suas torcidas mantêm viva a identidade construída ao longo de gerações e suas conquistas permanecem presentes na memória do futebol. O desafio, porém, é transformar esse legado em um projeto esportivo capaz de devolver esses clubes à elite.

A distância entre o passado e o presente ajuda a explicar o conceito de gigantes adormecidos. São equipes que já disputaram títulos nacionais, chegaram a decisões europeias e ocuparam posições de destaque, mas que agora precisam superar obstáculos para recuperar sua relevância. Em alguns casos, a queda foi provocada por problemas financeiros; em outros, a falta de regularidade esportiva afastou os clubes dos principais palcos do continente.

A tradição francesa enfrenta o desafio da reconstrução

zidane Bordeaux
Foto: Getty Images

Entre os exemplos mais emblemáticos está um antigo campeão francês que chegou a revelar jogadores históricos e a receber partidas de uma grande competição internacional em seu estádio. Depois de anos entre os principais clubes do país, a equipe passou a enfrentar dificuldades financeiras que provocaram uma sequência de rebaixamentos. A queda foi tão acentuada que o clube, campeão nacional em seis oportunidades, chegou à sexta divisão regional.

Trata-se do Bordeaux, que conquistou seu último Campeonato Francês na temporada 2008/09. Ao longo de sua história, a equipe contou com nomes como Jean Tigana e Zinedine Zidane, além de jogadores que posteriormente alcançaram destaque na seleção francesa, como Aurelien Tchouameni e Jules Koundé.

A dimensão do clube continua evidente no Stade Atlantique, com capacidade para 42.115 espectadores e sede de partidas da Euro 2016. Uma estrutura desse porte representa um patrimônio importante para qualquer projeto de recuperação, mas não resolve, por si só, os problemas que levaram o Bordeaux a perder espaço no futebol nacional.

Após o rebaixamento da Ligue 1 em 2022, as dificuldades administrativas e financeiras provocaram novas quedas. A aquisição do clube pelo fundo de investimentos norte-americano Park Bench, abriu uma possibilidade de reorganização. A recuperação, entretanto, depende de uma administração sustentável, do controle das despesas e da capacidade de montar equipes competitivas sem repetir os erros do passado.

Outro representante histórico do futebol francês também tenta reencontrar seu caminho. Dono de dez títulos nacionais, o Saint-Étienne construiu uma das trajetórias mais vitoriosas do país, especialmente entre as décadas de 1950 e 1980. Seu último campeonato foi conquistado em 1980/81, mas a equipe também alcançou a final da Copa dos Campeões Europeus em 1976, quando perdeu para o Bayern.

O clube continua contando com uma torcida apaixonada e com um estádio que representa sua identidade. O Geoffroy-Guichard, conhecido como “caldeirão”, tem capacidade para 41.965 pessoas e permanece como um dos símbolos tradicionais do futebol francês.

Apesar da instabilidade recente, o Saint-Étienne ainda demonstra capacidade de formar jogadores de alto nível. William Saliba e Wesley Fofana passaram pelo clube antes de se consolidarem no cenário internacional. O desafio é transformar essa tradição na formação de atletas em uma base para voltar à primeira divisão e, posteriormente, competir de maneira consistente.

Final europeia, títulos nacionais e uma queda que mudou tudo

barcelona x sampdoria
Foto: getty Images

A história da Sampdoria mostra como um clube pode sair do protagonismo continental e passar a lutar para recuperar sua posição no próprio país. Durante a era de ouro do futebol italiano, a equipe de Gênova viveu um período de enorme sucesso, conquistando títulos nacionais e enfrentando alguns dos maiores clubes da Europa.

O momento mais importante aconteceu na temporada 1990/91, quando a Sampdoria conquistou o Campeonato Italiano. A equipe contava com jogadores como Gianluca Vialli, Roberto Mancini e Gianluca Pagliuca, nomes que ajudaram a transformar o clube em uma potência daquele período.

A trajetória internacional também foi marcante. Em 1990, a Sampdoria venceu a Recopa Europeia e, em 1992, chegou à final da Copa dos Campeões Europeus. Na decisão disputada em Wembley, perdeu para o Barcelona na prorrogação. Entre 1985 e 1994, o clube ainda conquistou quatro edições da Copa da Itália, reforçando a dimensão de sua fase mais vitoriosa.

Nas décadas seguintes, porém, a equipe perdeu força. Apesar de algumas participações europeias, os problemas financeiros se agravaram até culminarem no rebaixamento da Serie A em 2023, quando terminou o campeonato na última posição. A situação chegou a ameaçar sua permanência na segunda divisão.

A reconstrução exige estabilidade financeira e planejamento esportivo. Recuperar o acesso é importante, mas a Sampdoria também precisa estabelecer uma estrutura que permita competir na elite sem voltar a enfrentar dificuldades semelhantes. Sua história e sua torcida continuam sendo elementos fundamentais para sustentar esse objetivo.

Na Espanha, outro antigo protagonista também tenta reencontrar o caminho para os principais campeonatos. O Real Zaragoza conquistou seis Copas do Rei e venceu a Recopa Europeia em 1994/95, em uma final histórica contra o Arsenal. O gol de longa distância marcado por Nayim nos minutos finais da prorrogação transformou aquela decisão em um dos momentos mais lembrados da competição.

O clube também contou com jogadores de destaque, como Pablo Aimar, Diego Milito e David Villa. Apesar desse passado, o Zaragoza chegou à terceira divisão espanhola, ficando distante das disputas mais importantes do futebol nacional.

A construção de um novo estádio, com capacidade projetada para aproximadamente 43 mil espectadores e relacionada à preparação para a Copa do Mundo de 2030, representa uma oportunidade de modernização. Entretanto, a infraestrutura precisará ser acompanhada por resultados em campo e por uma administração capaz de sustentar o crescimento. Sem isso, a modernização do estádio não será suficiente para recuperar o prestígio perdido.

Estádios imponentes e grandes torcidas não garantem o retorno à elite

hertha bsc
Foto: IMAGO/Jan Huebner

O Hertha BSC representa outro caso de clube com potencial estrutural para recuperar espaço no futebol europeu. Localizado em Berlim, uma das maiores cidades da Alemanha, o time possui acesso a um mercado expressivo e a uma base de torcedores numerosa. Embora sua história de títulos seja menos extensa que a de outros gigantes tradicionais, o clube já disputou competições europeias importantes e venceu o Chelsea na Champions League em 1999.

Seu principal patrimônio é o Olympiastadion, estádio com capacidade para 74.475 espectadores. Mesmo fora da primeira divisão, o Hertha continua atraindo grandes públicos, demonstrando que ainda existe interesse em torno de sua história e de sua identidade.

A permanência na segunda divisão, contudo, evidencia que uma estrutura grandiosa não garante sucesso esportivo. O clube precisa transformar suas vantagens em um projeto consistente, com planejamento de elenco, controle financeiro e capacidade de competir regularmente pelo acesso. A localização privilegiada e o estádio oferecem oportunidades, mas não substituem uma gestão eficiente.

Outros clubes europeus também vivem situações semelhantes. O Kaiserslautern, tetracampeão alemão, protagonizou um feito histórico ao conquistar a Bundesliga em 1997/98 logo após subir de divisão. Atualmente, tenta consolidar sua recuperação na segunda divisão. O Dynamo Dresden, dono de oito títulos da Alemanha Oriental, também busca manter sua trajetória de retorno depois de anos nas divisões inferiores.

O Nürnberg, com nove títulos nacionais, preserva uma tradição importante no futebol alemão, enquanto o Sheffield Wednesday tenta se recuperar após chegar à terceira divisão inglesa. Na Turquia, o Bursaspor, campeão nacional em 2009/10, também enfrenta o desafio de reconstruir sua trajetória depois de cair até a quarta divisão em 2024.

Esses exemplos mostram que o futebol europeu não é formado apenas pelos clubes que dominam as competições atualmente. Há equipes com histórias relevantes, torcidas numerosas e estádios capazes de receber grandes públicos que ainda procuram uma maneira de voltar ao primeiro escalão.

A recuperação depende de decisões tomadas no presente. Uma administração responsável, contratações eficientes, investimento na formação de jogadores e planejamento de longo prazo são fundamentais para transformar tradição em resultados. O passado pode oferecer identidade e motivação, mas não garante conquistas futuras.

Para esses clubes, o objetivo não deve ser apenas conquistar o acesso, mas construir uma estrutura capaz de evitar novas quedas e permitir uma presença mais duradoura na elite. Suas histórias demonstram que a grandeza pode permanecer adormecida durante anos, mas o retorno ao protagonismo depende da capacidade de transformar a memória das antigas conquistas em um projeto sólido para o futuro.

author
Kaique