Guardiola Manchester City
Futebol Premier League

Guardiola foi além dos títulos e mudou a forma como o futebol pensa

Falar sobre Pep Guardiola apenas pelos números já seria suficiente para colocá-lo entre os maiores treinadores da história. Em 17 anos de carreira, o espanhol acumulou mais de 40 títulos, conquistou ligas nacionais em três países diferentes e transformou o Manchester City em uma das equipes mais dominantes da era moderna. Mas os números contam apenas uma parte da história.

O futebol sempre teve treinadores vencedores. Sir Alex Ferguson dominou a Inglaterra durante décadas. Carlo Ancelotti conquistou títulos em vários países. José Mourinho revolucionou a gestão de grupos e a competitividade em torneios eliminatórios. Todos marcaram épocas.

O que diferencia Guardiola não parece estar apenas na quantidade de troféus conquistados, mas principalmente no impacto causado dentro do esporte. O treinador espanhol não apenas venceu jogos e campeonatos. Ele alterou conceitos que durante décadas pareciam intocáveis no futebol.

Quando Guardiola assumiu o comando do Barcelona em 2008, sua experiência profissional como treinador era extremamente limitada. Seu único trabalho relevante havia sido na equipe B do clube catalão, disputando divisões inferiores do futebol espanhol. Ainda assim, aquela aposta mudou a história recente do esporte.

O Barcelona passou a dominar a Europa, conquistando títulos e impondo uma maneira diferente de jogar. Mais do que resultados, o time passou a criar um modelo que posteriormente seria copiado em diversos países.

Guardiola não criou apenas equipes vencedoras

Existe uma diferença importante entre montar um grande time e criar uma ideia de futebol.

Muitos treinadores vencedores construíram equipes fortes em determinados períodos, mas poucas dessas ideias sobreviveram ao tempo. Com Guardiola aconteceu algo diferente.

No Barcelona, a equipe baseada em posse de bola atingiu números impressionantes. Durante a temporada 2010/11, considerada por muitos analistas uma das melhores equipes da história, o time ultrapassava frequentemente os 65% de posse de bola por partida. Jogadores como Xavi Hernández, Andrés Iniesta e Lionel Messi participavam de sistemas de circulação de bola quase inéditos para a época.

Posteriormente, no Bayern Munich, Guardiola aprofundou ainda mais conceitos relacionados ao jogo posicional. A ideia era controlar espaços antes mesmo de controlar a bola. Não bastava ter posse. Era preciso posicionar jogadores em locais específicos do campo para gerar superioridade numérica e facilitar a criação das jogadas.

Quando chegou à Inglaterra, surgiram dúvidas reais sobre sua adaptação. O futebol inglês carregava uma tradição diferente. Historicamente, a intensidade física, os cruzamentos e as transições rápidas eram características muito presentes na Premier League.

Muitos acreditavam que Guardiola fracassaria.

A resposta veio rapidamente.

Entre 2017 e 2019, o Manchester City conquistou títulos nacionais apresentando números extremamente dominantes. Na temporada 2017/18, o clube chegou aos 100 pontos na Premier League, algo inédito até então. Marcou 106 gols naquela edição e registrou uma campanha que redefiniu padrões do campeonato.

Mas talvez o ponto mais impressionante seja outro.

Guardiola venceu de formas diferentes.

Seu primeiro City encantava pela estética e pela posse de bola. O segundo encontrou soluções mais físicas, utilizando até quatro zagueiros simultaneamente na defesa e incorporando um centroavante como Erling Haaland, que quebrou recordes de gols logo em sua primeira temporada.

Poucos treinadores conseguem vencer. Menos ainda conseguem vencer mudando constantemente.

A maior herança está fora das quatro linhas

Manchester City - Pep Guardiola e Enzo Maresca
Foto: Jason Cairnduff/Action Images/Reuters

Talvez a prova mais forte da influência de Guardiola esteja justamente em seus “discípulos”.

Treinadores como Mikel Arteta, Vincent Kompany, Enzo Maresca e Roberto De Zerbi carregam ideias muito próximas das desenvolvidas por Guardiola.

O interessante é que muitos deles não apenas aprenderam com ele, mas passaram a enfrentá lo diretamente.

Historicamente isso é raro. Ferguson teve adversários. Outros grandes treinadores também tiveram. Guardiola passou a disputar títulos contra profissionais que absorveram conceitos criados por ele próprio.

E mesmo diante disso continuou evoluindo.

Existe também um ponto que aparece como crítica válida dentro desse debate. Apesar de toda a dominância doméstica, Guardiola conquistou apenas uma UEFA Champions League em dez temporadas no Manchester City.

Isso não reduz seu impacto, mas mostra como o futebol continua sendo imprevisível. Competições eliminatórias muitas vezes dependem de detalhes, lesões, sorteios e momentos específicos.

Mesmo assim, talvez o maior legado de Guardiola nem esteja relacionado aos títulos conquistados.

Ele mudou a maneira como treinadores analisam partidas. Mudou como jogadores ocupam espaços. Mudou a forma como analistas observam o jogo.

Antes, muitos enxergavam posse de bola apenas como estatística. Depois de Guardiola, ela passou a ser entendida também como ferramenta de controle.

Por isso o debate talvez não seja mais sobre Guardiola ser ou não o maior treinador da história.

A discussão pode ser mais profunda.

A verdadeira pergunta talvez seja quantos treinadores conseguiram mudar o futebol depois que chegaram.

E nessa lista, os nomes parecem muito poucos. Guardiola certamente está entre eles.

(Foto de capa: Getty Images)

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Kaique