Antes de Viktor Gyokeres, o Brighton normalmente não deixava a desejar quando apostava em jovens jogadores. Afinal, o quinteto composto por Moisés Caicedo, Marc Cucurella, João Pedro, Ben White e Alexis Mac Allister acumulou cerca de 300 milhões de libras em vendas nos últimos quatro anos. Porém, os Seagulls tinham o sueco em seu elenco e o negociaram por apenas 1 milhão de libras para o Coventry City em 2021. Desde então, o atacante se transformou numa joia de 20 milhões de libras no Sporting para depois se tornar uma contratação de peso para o Arsenal por cerca de 63,5 milhões de libras conforme a cotação atual.
E agora, Gyokeres é o vencedor do Troféu Gerd Müller, depois de marcar mais gols do que qualquer outro jogador em 2025. O atacante sueco parecia uma contratação típica do Brighton — vindo do anonimato e com enorme potencial. Mas ele deixou o clube com apenas oito partidas pelo time principal, nenhuma delas na elite do futebol inglês, e apenas um gol marcado. Ele também integrou o bem-sucedido time sub-23 dos Seagulls, que foi promovido à primeira divisão da Premier League 2 em 2018.
Da mesma forma, o goleiro do Chelsea, Robert Sánchez, fazia parte desse time, enquanto seu atual companheiro no Arsenal, Ben White, dividia as responsabilidades da equipe juvenil do Brighton com Gyokeres. A primeira grande observação sobre a passagem do sueco no sul da Inglaterra é que ele não atuava como centroavante. Isso significava que suas quatro primeiras aparições pelos Seagulls foram como ponta-esquerda. Mas só porque agora parece que o escandinavo estava jogando fora de sua posição original, isso não quer dizer que ele não pudesse exibir qualidade.
Essa posição alterada afetou sua trajetória — muitos de seus gols hoje surgem de corridas pelo canal esquerdo. Isso virou clássico em sua passagem pelo Sporting — e até mesmo seu primeiro gol pelo Arsenal, contra o Leeds United, veio justamente de uma arrancada pela esquerda. A função de ponta-esquerda também ajudou o sueco a se tornar um jogador mais completo. Isso faz sentido atualmente, considerando seu papel no Arsenal, que procurava um centroavante ideal, após as lesões de Kai Havertz e Gabriel Jesus, que atuavam mais improvisados como “número 9”.
Durante uma fase de sete jogos sem marcar, o técnico do Arsenal, Mikel Arteta, e os companheiros de equipe de Gyokeres destacaram o trabalho altruísta que o atacante trouxe ao time. No Brighton, ele chegou a atuar como centroavante do time principal, fazendo três partidas na Copa da Liga Inglesa na temporada 2020/21 sob o comando de Graham Potter, que agora é seu treinador na seleção sueca. Fez um gol e deu uma assistência na vitória sobre o Portsmouth na segunda rodada, e até foi titular na derrota para o Manchester United na quarta rodada, com seus futuros companheiros de equipe dos Gunners, como Ben White e Leandro Trossard, também envolvidos.
Mas esse seria seu último jogo pelo Brighton. As oportunidades no time principal diminuíram drasticamente. Gyokeres não foi o único que não conseguiu decolar — o mesmo destino parecia ter o seu colega de idade, Joel Kerr, que hoje, com a mesma idade do sueco, trabalha como agente da CAA Base, tendo se aposentado prematuramente por lesão. Empréstimos para o Swansea e Coventry deram ao atacante mais experiência no futebol profissional. No País de Gales, jogou mais como ponta-esquerda, e quando ambas as transferências não mudaram radicalmente o rumo da carreira, os dois (Brighton e Gyokeres) acabaram separando caminhos.
A venda por 1 milhão de libras que o Coventry pagou ao Brighton acabou sendo um divisor de águas para o jogador. A confiança que ele acumulou como centroavante dos Coventry City na Championship provocou uma virada importante. A potência física de Gyokeres melhorou no verão em que se transferiu em definitivo. E os gols começaram a “voar”. Sua comemoração icônica nasceu no oeste da Inglaterra, com o próprio atacante admitindo nesta temporada que a criação da “máscara” coincidiu com a melhora em seu retrospecto de gols.
Por fim, Gyokeres ainda guarda boas recordações do Brighton. Isso ficou evidente quando Joel Kerr — então na Eslovênia, a trabalhar como agente, em setembro passado — viu a Suécia disputar uma partida das eliminatórias da Copa do Mundo enquanto ele estava lá. Ele enviou uma mensagem ao sueco — com quem havia dividido quarto em um torneio juvenil em Hong Kong — pedindo ingresso, e o atacante atendeu imediatamente. E apesar de o Brighton ter deixado o atleta escapar, vê-lo agora se tornar uma das emergentes potências da Premier League é algo que o clube lida com certa ironia.

Viktor Gyokeres e o desafio não aproveitado no Brighton
Quando o atacante sueco Viktor Gyokeres chegou à academia do Brighton, o clube já tinha reputação de desenvolver jovens talentos e depois vendê-los por valores altos. E, à primeira vista, sua transferência parecia promissora: ele havia sido identificado como “talento puro” nas categorias de base. No entanto, mesmo integrando o grupo principal do Brighton, Gyokeres jamais conseguiu se consolidar na equipe. Foram apenas oito aparições pelo time principal — nenhuma delas na Premier League — e apenas um gol marcado.
Fatores que impediram a afirmação
Um dos fatores apontados é a posição em que Gyokeres era escalado. Em vez de atuar como centroavante — função que mais tarde se mostraria ser sua vocação — ele foi frequentemente utilizado como ponta-esquerda nas categorias de base e nos primeiros jogos profissionais. Essa mudança de papel pode ter limitado a expressão de suas características — velocidade, poder físico e inclinação para finalizar em diagonais a partir da esquerda.
Além disso, o momento vivido pelo Brighton também contribuiu. Naquele período, o clube vivia uma fase em que o foco era a “sobrevivência” no futebol inglês e o desenvolvimento de jovens talentos ficava restrito diante da urgência competitiva. Gyokeres chegou a iniciar uma temporada com oportunidades — três jogos em copas na temporada 2020/21 — mas logo voltou a ser emprestado e, depois, transferido em definitivo.
Por fim, há uma questão de ritmo de crescimento. O próprio Gyokeres reconheceu que precisava de minutos, de responsabilidades e de atuar em um ambiente que lhe desse confiança para assumir o papel de referência no ataque — algo que só viria mais adiante, em outros clubes.
Conclusão: um “fracasso” oportuno?
Sob o olhar do clube, o CEO do Brighton, Paul Barber, prefere não usar o termo erro: “depende se dizemos que ele passou pelas nossas malhas ou progrediu através de nós”. O fato é que Gyokeres saiu do clube jovem, pouco aproveitado, por cerca de 1 milhão de libras para o Coventry — e dali deu um salto para se tornar, anos depois, um dos atacantes mais valorizados da Europa.
Assim, a história de Gyokeres no Brighton abre a reflexão inevitável: nem sempre o encaixe imediato significa sucesso — às vezes o ambiente, a função e o momento “não batem”. No seu caso, os ingredientes se alinharam depois, e o Brighton, apesar de não o ter aproveitado, agora vê-lo brilhar.

Gyokeres mira a “lei do ex” contra o Brighton, agora como artilheiro do Arsenal
O atacante Viktor Gyokeres terá, na fase de mata-mata da Carabao Cup, um reencontro carregado de simbolismo. Hoje peça-chave do Arsenal de Mikel Arteta, enfrentará o Brighton & Hove Albion — clube que o revelou no futebol inglês, mas onde nunca conseguiu se firmar
Gyokeres chegou ao Brighton em 2018, ainda como promessa do IF Brommapojkarna, e passou boa parte do tempo entre o time sub-23 e em empréstimos. Foram apenas oito aparições pela equipe principal, nenhuma na Premier League. O sueco acabou vendido ao Coventry por cerca de 1 milhão de libras em 2021: negócio que, na época, parecia modesto, mas hoje é visto como uma das maiores oportunidades perdidas do clube.
Desde então, o atacante transformou sua carreira. Após brilhar no Coventry e explodir no Sporting — onde marcou mais de 40 gols em uma temporada — Gyokeres chegou ao Arsenal como uma das grandes contratações de 2025. Sob o comando de Arteta, tornou-se referência ofensiva, unindo potência física e instinto goleador a um estilo coletivo refinado.
O duelo contra o Brighton, porém, vai além de mais uma partida da Premier League. Para Gyokeres, representa a chance de mostrar que o talento que não foi plenamente aproveitado em sua antiga casa amadureceu e se estabeleceu no mais alto nível. “Ele quer demonstrar o quanto evoluiu”, afirmou uma fonte próxima ao clube ao Sky Sports. “Não há ressentimento, mas sim motivação. Ele sabe que esse jogo é especial”.
Por outro lado, o Brighton reconhece a ironia do destino. O técnico Fabian Hurzeler elogiou o sueco dizendo que “Gyokeres se tornou o atacante completo que todos imaginavam”. Ainda assim, o treinador espera impedir que o sueco escreva o roteiro clássico da “lei do ex” — aquele jogador que marca contra o time que o formou.
Vivendo o melhor momento da carreira e com muita moral entre os torcedores do Arsenal, Gyokeres chega ao confronto com a confiança em alta. E, se depender de sua ânsia por gols, o reencontro no Emirates promete ser mais uma noite em que o sueco pode transformar o passado em combustível — e, quem sabe, em gol.
(Foto: Getty Images)