O ataante Erling Haaland marcou 10 gols a mais na Premier League do que qualquer outro jogador do Manchester City nesta temporada — e o time disputou apenas nove partidas. O dado, por si só, já explica a preocupação de Pep Guardiola. O técnico não tem fugido do assunto e reconhece que a equipe tem enfrentado dificuldades para encontrar o caminho do gol em setores além do comandado pelo centroavante norueguês. Os Citizens chamaram atenção nesta temporada pela queda de produtividade ofensiva, especialmente após a saída de Kevin De Bruyne para o Napoli.
Desde então, Haaland tem sido praticamente o único ponto de referência no ataque do Manchester City. E, segundo o técnico Pep Guardiola, isso precisa mudar: “Os outros jogadores precisam dar um passo à frente”, declarou o treinador após a derrota para o Aston Villa. “Precisamos marcar mais gols. Se não criarmos chances, é uma coisa. Mas quando criamos, temos que converter. Eles sabem disso. Nos treinos, finalizam bem — agora precisam fazer o mesmo nos jogos”.
Enquanto essa transformação não acontece, o Manchester City segue extremamente dependente de seu camisa 9. Os números escancaram essa realidade: os 11 gols de Erling Haaland nesta edição da Premier League representam 64,7% dos 17 marcados pelos Citzens em 2025/26 Caso mantivesse essa média ao longo da temporada, o norueguês superaria com folga o recorde histórico de James Beattie, que foi responsável por 53,5% dos gols do Southampton (23 de 43) em 2002/03.
A dominância de Erling Haaland também aparece nos números de gols esperados (xG): 8,9 dos 15,78 totais da equipe (56,5%). Desde 2012/13, nenhum jogador dos Citzens teve uma proporção tão alta em relação ao desempenho ofensivo coletivo. Ainda há tempo para uma redistribuição desses números, mas o cenário reforça uma preocupação concreta — até agora, nenhum outro jogador do Manchester City marcou mais de um gol na Premier League, onde ocupa atualmente a quinta colocação, com 16 pontos
Curiosamente, o segundo “maior artilheiro” do clube na competição é o zagueiro do Burnley, Maxime Estève, com dois gols contra. Embora seja evidente que confiar em Haaland no Manchester City é um privilégio, não há sinais de que essa dependência faça parte de uma estratégia planejada. O debate sobre equipes que centralizam demais sua produção ofensiva em um só nome não é novo — e o técnico Pep Guardiola não é o único treinador da Premier League a lidar com esse dilema recentemente.
Contudo, a ideia de dependência nem sempre é negativa. Pode ser deliberada e até eficaz, se o sistema for construído ao redor de um jogador de elite. O atacante Erling Haaland tem sido devastador e eficiente, o que poderia ser visto como uma prova de que o Manchester City está maximizando seu potencial ofensivo. Mas, conhecendo o histórico do comando de Pep Guardiola nos Citzens e sua filosofia coletiva, é difícil imaginar que essa seja uma opção intencional.
Durante os anos de domínio do Manchester City, uma das marcas registradas do time foi justamente a diversidade de finalizadores. Na campanha do título da Premier League, oito jogadores diferentes marcaram ao menos cinco gols — marca repetida no ano seguinte. Em 2020/21, sete atletas alcançaram esse patamar, e em 2021/22 o número voltou a subir para oito. Tudo isso antes mesmo da chegada de Haaland, em 2022/23, temporada em que o City conquistou a Tríplice Coroa: Premier League, Champions League e Copa da Inglaterra.
Nas duas temporadas anteriores, o Manchester City venceu a competição sem um centroavante fixo. O brasileiro Gabriel Jesus era o nome mais próximo da função, mas sem a característica de goleador nato e atualmente no Arsenal, um dos principais postulantes ao título da Premier League em 2024/25 . Naquele período, era comum ouvir que os Citzens “precisavam” de um artilheiro de ofício. Quando Haaland foi contratado junto ao Borussia Dortmund, parecia a solução ideal — e, de fato, foi.
O norueguês teve impacto imediato e se tornou peça-chave da conquista da Tríplice Coroa na temporada 2022/23 com o o Manchester City. Mas a discussão sobre uma “dependência excessiva” de Erling Haaland ressurgiu desde a última temporada e agora ganha contornos mais nítidos. No futebol moderno, há um paradoxo inevitável: se um jogador concentra boa parte dos gols, o time é acusado de ser previsível; se ninguém se destaca, falta eficiência.

Haaland: solução de elite e dilema tático para Guardiola no Manchester City
O astro Erling Haaland continua sendo um fenômeno de eficiência no Manchester City. Desde sua chegada, o atacante redefiniu o padrão ofensivo do time de Pep Guardiola — e, simultaneamente, criou um novo tipo de desafio tático para o treinador. Com números impressionantes e presença imponente na área, o norueguês representa tanto a solução de elite quanto um obstáculo à fluidez coletiva que consagrou o modelo de jogo do treinador espanhol
Segundo dados do The Analyst, Haaland é responsável por mais da metade dos gols do City nesta Premier League: 11 dos 17, o equivalente a 64,7% do total. A estatística se repete nos gols esperados (xG): 8,9 de 15,78 (56,5%). O peso ofensivo do atacante mostra sua importância, mas também denuncia o quanto o City se tornou previsível nas ações decisivas.
Guardiola sempre construiu equipes em que o gol poderia surgir de qualquer jogador. Agora, vive um dilema inédito. Haaland garante poder de fogo e eficácia raramente vistos, mas o sistema coletivo que fez do City uma engrenagem imprevisível começa a girar em torno de um único eixo. Isso colide com o princípio de amplitude e rotação que marca o estilo do técnico espanhol.
O próprio Guardiola já expressou publicamente sua preocupação, cobrando que outros atletas “assumam mais responsabilidades” no ataque. A mensagem é direta: o City precisa voltar a ser um time em que todos são ameaça — não apenas o centroavante.
Historicamente, o principal artilheiro de um campeão da Premier League responde, em média, por 25% dos gols da equipe. A marca de Haaland mais do que dobra esse número, revelando tanto o seu impacto quanto o risco envolvido. Quando o norueguês é neutralizado, o desempenho ofensivo do City cai drasticamente.
No fim das contas, o Manchester City enfrenta um dilema que poucos clubes do mundo conhecem: possuir uma das maiores forças goleadoras da era moderna — e, ao mesmo tempo, precisar reduzir sua influência para seguir evoluindo. Haaland é a solução que todos desejam ter, mas para Guardiola, é também um enigma tático que precisa ser resolvido para manter o City no topo.

Após a saída de De Bruyne, Haaland se torna ainda mais indispensável ao Manchester City
A transferência de Kevin De Bruyne para o Napoli encerrou um dos ciclos mais brilhantes da história recente do Manchester City. O belga, cérebro criativo do meio-campo, foi durante anos o elo entre a construção e a finalização no esquema de Pep Guardiola. Agora, sem seu maestro, a responsabilidade por decidir passou quase integralmente aos pés de Erling Haaland.
Desde que chegou ao Etihad Stadium, o norueguês sempre foi o ponto focal do ataque, mas a ausência de De Bruyne ampliou essa dependência. De acordo com o The Analyst, Haaland responde por mais de 60% dos gols do City na Premier League — um número que escancara o quanto o time se tornou centrado nele.
Antes, o protagonismo era dividido: De Bruyne criava, Haaland concluía. Agora, o centroavante precisa não só finalizar, mas se adaptar a um jogo menos abastecido. Sem as assistências e os passes verticais do ex-camisa 17, Guardiola busca soluções internas. Phil Foden, Julián Álvarez e Bernardo Silva revezam na função criativa, mas nenhum deles reproduz a mesma precisão cirúrgica do belga.
A nova configuração exige ajustes de todos. Haaland tem sido orientado a se movimentar mais fora da área, participar de triangulações e criar espaços para infiltrações — algo que demanda entrosamento e adaptação do restante da equipe.
Essa transição também evidencia o dilema do treinador. Guardiola construiu sua filosofia em torno do equilíbrio e da coletividade, mas agora vê seu time girar em torno de um só jogador. De um lado, Haaland é a arma definitiva, capaz de decidir qualquer partida. De outro, a dependência extrema dele pode se tornar uma vulnerabilidade em jogos grandes ou contra defesas fechadas.
Ainda assim, é inegável que o atacante tem a capacidade de sustentar o City nesse novo contexto. Sua força física, leitura de espaço e instinto goleador continuam sendo diferenciais únicos. A questão é fazer a engrenagem funcionar de modo que ele receba as bolas certas, nos momentos certos — mesmo sem De Bruyne.
Enquanto Guardiola tenta reinventar a dinâmica ofensiva, uma certeza se impõe: a temporada do Manchester City passa diretamente pelos pés — e, sobretudo, pelos gols — de Erling Haaland.
(Foto: Getty Images)