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Haaland sente o peso da temporada e o Manchester City paga a conta!

Erling Haaland construiu a própria imagem como algo além do humano. Um atacante automático, previsível apenas no final da história: quando balança as redes. Por isso, quando a bola para de entrar, o estranhamento é geral, sendo o espaço para apontar os culpados ou as questões que andam atrapalhando. O norueguês segue empilhando números expressivos na temporada, mas o momento recente acende um alerta que não dá para ignorar, especialmente em um Manchester City que também caiu de produção.

São 39 gols em 36 jogos por clube e seleção, um desempenho que, isoladamente, colocaria Haaland acima de qualquer suspeita ou dúvida sobre seu nível recente. O problema é o recorte. Nos últimos oito jogos, ele marcou apenas uma vez, e de pênalti. Em jogadas de bola rolando, nada tem ocorrido. É a maior sequência sem marcar desse tipo desde os tempos de Borussia Dortmund, algo raríssimo para um atacante que se acostumou a desafiar a lógica.

Se tornou comum considerá-lo um robô, um cometa, ao completamente diferente do que consideramos humano.

Haaland deu tilt?

A cena no Círculo Polar Ártico resume bem a fase. Contra o Bodo/Glimt, em uma noite fria e hostil, o City precisava de alguém para puxar a reação após sair perdendo por 2 a 0. A chance caiu no pé certo: Haaland, a poucos metros do gol, de frente, ainda no primeiro tempo. O chute de primeira saiu torto e passou ao lado da trave. Um erro que, meses atrás, parecia impossível.

Algo difícil até de entender, mesmo depois de ter assistido. Porque realmente, está longe de ser o usual, o comum para o camisa nove dos Sky Blues. No final das contas, Haaland passou em branco mais uma vez, contando com mais uma derrota do Manchester City nesta temporada, pelo placar de 3 a 1, num confronto que era esperado um retorno interessante do clube inglês.

Após o jogo, o norueguês não se escondeu, muito menos se omitiu. Assumiu a responsabilidade, pediu desculpas aos torcedores e colocou em palavras algo que muitos jogadores pensam, mas poucos dizem com tanta clareza: o calendário está pesado demais. “Jogamos uma quantidade ridícula de jogos”, resumiu.

Números em queda e um calendário sufocante

Os dados confirmam o que o olho percebe. Desde o último gol com bola rolando, contra o West Ham, Haaland passou a finalizar menos por 90 minutos, tocar menos vezes na área adversária e receber menos grandes chances. Seu xG caiu de 0,98 para 0,42. As grandes oportunidades despencaram de quase duas por jogo para menos de uma. O abastecimento diminuiu, e a eficiência também.

O desgaste ajuda a explicar. Haaland já ultrapassou os 2.500 minutos em campo na temporada e figura entre os jogadores mais utilizados da Premier League. Entre atacantes das cinco principais ligas da Europa, apenas um atuou mais. E o calendário promete ser ainda mais cruel: Premier League, Champions League, FA Cup, Carabao Cup e compromissos pela seleção da Noruega. No cenário mais extremo, ele pode fechar a temporada com algo próximo de 70 jogos antes da Copa do Mundo.

Para um jogador cujo jogo depende de explosão, arrancada e repetição, isso cobra um preço, a conta chega. O corpo sente. O tempo de reação diminui. O detalhe, que sempre fez diferença, começa a escapar. Dá para levar em conta o fato dos atacantes terem perdido espaço na Premier League mesmo, mas neste caso, seria generalizar Haaland, que está longe de ser um peça semelhante aos outros.

Guardiola, escolhas e um City que já não joga igual

O momento de Haaland não pode ser analisado isoladamente, é claro. O Manchester City também mudou neste meio tempo. No início da temporada, o time de Pep Guardiola era mais vertical, mais direto e muito mais agressivo em transições. Pontas velozes atacando espaço, passes em profundidade e ataques rápidos criavam o cenário perfeito para o camisa 9 fazer o que mais sabe: correr em direção ao gol e finalizar.

Com o passar das semanas, Guardiola puxou o freio. O City passou a priorizar mais controle, mais posse e menos risco. Em teoria, isso reduz contra-ataques, ou pelo menos deveria, mostrando que a situação não está no melhor dos conformes. Na prática, expõe Haaland a defesas cada vez mais fechadas, com marcação dupla constante e pouco espaço para atacar em velocidade.

As lesões agravaram o problema também. A ausência de defensores como Gvardiol, fundamentais para quebrar linhas com passes e conduções, reduziu a velocidade com que o City chega ao ataque. Rodri ainda busca o melhor ritmo após longo período fora. Phil Foden atravessa uma fase apagada, sem gols ou assistências recentes. Doku já não empurra defesas como no início da temporada. Até as bolas cruzadas diminuíram, e isso pesa para um atacante de 1,94m que ataca o segundo pau como poucos.

Decisões pontuais também entram no debate. A utilização de Haaland em jogos praticamente resolvidos, como a goleada histórica na FA Cup, levanta dúvidas sobre controle de carga. Guardiola já pagou caro no passado por rodar demais o elenco, mas talvez tenha ido longe demais no sentido oposto agora.

Fase passa, contexto explica e o perigo continua

Assim como Neymar tem tatuado no pescoço: “tudo passa”. Haaland segue sendo o principal foco defensivo de qualquer adversário do City. Atrai dois marcadores, abre espaços para companheiros e ainda assim continua aparecendo para finalizar. Quando o contexto coletivo melhorar, seja com mais verticalidade, seja com pontas empurrando defesas para trás, com o retorno das peças lesionados, as chances voltarão a surgir em maior volume.

E aí está o maior aviso para os rivais. Questionar Haaland é natural, simplesmente do jogo. Escrevê-lo fora da história, não. O “robô” pode até ter dado tilt em meio a um calendário insano e a um City em transformação, mas basta um pequeno ajuste para o sistema reiniciar.

Quando isso acontece, a conta costuma chegar rápido. E quase sempre sobra para alguém pagar.

Foto: Getty Images Sport