Logo oficial da IFAB. Foto: Reprodução/Directv Sports.
Futebol

IFAB pode acabar com a cera e proteger o tempo de bola rolando; Confira

A International Football Association Board (IFAB), órgão responsável por definir e atualizar as Leis do Jogo, se reúne ao menos uma vez por ano para discutir possíveis alterações. O encontro mais recente, a reunião anual de negócios, ocorreu em Londres e teve como foco central temas ligados à perda deliberada de tempo e ao ritmo das partidas.

Desde o aumento no número de substituições permitidas, a introdução das substituições por concussão, a implementação do VAR e as iniciativas contra a cera, o futebol passou por uma transformação profunda nos últimos anos — e não há sinais de desaceleração nesse processo de mudança.

Embora propostas como ampliação do escopo do VAR e ajustes na regra do impedimento também estejam em debate, o que mais chama atenção são as mudanças relacionadas à cera em laterais, tiros de meta e substituições — especialmente porque os dados fornecidos pela Opta ajudam a dimensionar o impacto real dessas interrupções no jogo.

Laterais, tiros de meta e a nova ofensiva contra a cera

Foto: Reprodução/IFAB
Foto: Reprodução/IFAB

 

Em outubro, os painéis Técnico e Consultivo da IFAB passaram a discutir formalmente propostas para combater a perda de tempo em arremessos laterais e tiros de meta — dois lances que, segundo a entidade, estão demorando mais do que o necessário e contribuindo de forma significativa para os atrasos no jogo.

O debate ganhou força sobretudo por causa da popularização dos laterais longos, especialmente na Premier League. Na temporada passada, 20 gols nasceram desse tipo de jogada; em 2025-26, já são 26, mesmo com mais de um terço do campeonato ainda por disputar. Ao mesmo tempo, aumentaram as críticas à demora nas cobranças, com equipes transformando o lateral em uma verdadeira bola parada: jogadores atravessam o campo, secam a bola, organizam a área e só então executam a jogada.

Nos tiros de meta, a lógica é semelhante. A cera intencional, sobretudo nos minutos finais das partidas, tornou-se prática recorrente. Em março do ano passado, a IFAB já havia determinado que o goleiro deve ser punido com tiro livre indireto se segurar a bola por mais de oito segundos — decisão que abriu caminho para a adoção de contagens regressivas também em laterais e tiros de meta.

Os números ajudam a explicar a preocupação. Segundo a Opta, em 2025-26, os jogos da Premier League perdem, em média, 10 minutos e 50 segundos antes da cobrança de laterais. O tempo médio por cobrança chegou a 17,9 segundos — o maior desde 2016-17. Nos tiros de meta, os atrasos médios por partida são de 7 minutos e 42 segundos, com tempo médio de 30,1 segundos por reposição, o maior da última década.

Mesmo assim, há um paradoxo: regras rígidas podem alterar profundamente a lógica do jogo. Se um limite hipotético de 15 segundos fosse adotado, por exemplo, 23 dos 26 gols oriundos de laterais em 2025-26 simplesmente deixariam de existir. Muitas jogadas ofensivas desapareceriam junto com o tempo extra que hoje as constrói.

Substituições cronometradas e o dilema do “bom senso”

Gianni Infantino discursa na simpósio da IFAB. Foto: Reprodução/SpazioNapoli
Gianni Infantino discursa na simpósio da IFAB. Foto: Reprodução/SpazioNapoli

 

Outro ponto central da reunião foi a adoção das substituições cronometradas, modelo já utilizado na Major League Soccer (MLS): o jogador tem 10 segundos para sair de campo; caso contrário, o substituto precisa aguardar 60 segundos para entrar.

Na prática, o sistema tem funcionado bem nos Estados Unidos, com pouquíssimas violações registradas. A diferença média de tempo por substituição entre MLS e Premier League é pequena por jogo, mas, ao longo de uma temporada inteira, representa mais de duas horas de bola não rolando apenas nesse tipo de interrupção.

O problema é que essas pausas não existem no vácuo. Elas fazem parte da evolução tática, da gestão de jogo — especialmente relevante para clubes menores — e da própria recuperação física dos atletas. Limites rígidos e contagens regressivas podem, silenciosamente, criar novos conflitos: árbitros sob maior pressão, decisões subjetivas mais frequentes e a difícil tarefa de diferenciar atraso intencional de pausa funcional.

A busca da IFAB por proteger — ou ampliar — o tempo de bola rolando é legítima, e os dados sustentam essa preocupação. Mas futebol não é apenas cronômetro.

Nem toda interrupção é, necessariamente, “tempo perdido”. Às vezes, é apenas o jogo sendo jogado. E, nesse equilíbrio delicado, o bom senso ainda precisa ser a principal regra.

Créditos da foto de capa: Reprodução/Directv Sports