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Efeito Igor Tudor: o “bombeiro” da Serie A pode salvar o Tottenham do caos?

O nome de Igor Tudor já havia sido citado junto ao Tottenham, mas era visto como uma realidade deixada para trás, muito por conta de ser vinculada com Fábio Paratici, ex-diretor-superintendente do time londrino. Entretanto, mesmo depois da saída do italiano para a Fiorentina, os Spurs foram atrás do treinador, que é conhecido pelos seus trabalhos à curto prazo, com a capacidade de tirar o atual campeão da Europa League da lama onde se encontra.

O Tottenham está flertando perigosamente com a zona de rebaixamento na Premier League, ocupa a 16ª posição e vive sua primeira ameaça real de queda na era moderna. Depois da demissão de Thomas Frank, a diretoria resolveu ligar para um especialista em apagar fogo: se tratando neste caso, de Igor Tudor.

Para muita gente na Inglaterra, o nome soou estranho. Sem histórico como jogador ou treinador na Premier League, sem aquele selo “nome conhecido” que acalma torcida, não se trata de um profissional identicado com o time inglês, como foi o caso de outras equipes do campeonato. Mas na Itália, Tudor construiu uma reputação muito clara: ele entra no meio da temporada, organiza a bagunça e melhora os resultados. Simples assim.

A pergunta agora é direta: esse histórico é suficiente para salvar um Tottenham machucado, pressionado e sem rumo?

O histórico de Igor Tudor anima os Spurs

Se existe algo que pesa a favor de Igor Tudor é o impacto imediato que ele costuma causar. Em cinco trabalhos assumidos no meio da temporada na Serie A, ele melhorou a média de pontos por jogo em todos eles.

Em números:

  • Udinese 2017-18: de 0,97 para 1,75 pontos por jogo

  • Udinese 2018-19: de 0,93 para 1,64

  • Hellas Verona 2021-22: de 0,00 para 1,51 (sim, saiu do zero absoluto)

  • Lazio 2023-24: de 1,48 para 2,00

  • Juventus 2024-25: de 1,79 para 2,00

No Verona, o caso foi quase cinematográfico. Assumiu o time na lanterna, sem pontos, e terminou a temporada na metade superior da tabela. Na Lazio e na Juventus, a missão já era mais ambiciosa: recolocar clubes grandes em rota europeia. E ele conseguiu, mesmo que tenha enfrentado alguns problemas, foi capaz de conquistar resultados interessantíssimos, tirando leite de pedra em certas situações.

Agora, no Tottenham, a missão mistura as duas coisas: apagar o incêndio e, se possível, reconstruir alguma esperança.

Um clube que se perdeu no próprio roteiro

Desde 2019, o Tottenham já demitiu Mauricio Pochettino, José Mourinho, Nuno Espírito Santo, Antonio Conte e agora Thomas Frank no meio da temporada. É uma dança das cadeiras que mistura estilos completamente diferentes. Pressão alta, bloco baixo, posse de bola, transição… tudo já foi testado, e até então, não foi encontrado algo que faça a equipe londrina se identificar.

O problema é que, desta vez, o buraco é mais embaixo. Frank deixou o time apenas cinco pontos acima da zona de rebaixamento após uma sequência de oito jogos sem vitória, a pior desde 2008. O elenco está devastado por lesões e o ambiente é de tensão total, havia a aversão a ideia do treinador, ao mesmo tempo que os atletas andam frustrados com a forma que a diretoria tem trabalhado e se omitido.

A escolha por Tudor representa mais uma guinada de estilo. Se Frank, por opção ou limitação, montou um time reativo e pouco produtivo ofensivamente (apenas 27,4 de xG na Premier League, terceiro pior da liga), Tudor promete algo bem diferente.

“Gosto de futebol ofensivo”, afirmou o croata na apresentação.

Pressão alta, intensidade e quilometragem

Se tem uma marca registrada de Igor Tudor é intensidade. Seus times pressionam alto, forçam erro e recuperam a bola perto da área adversária. Na Juventus, antes de sair, sua equipe era a segunda da Serie A em recuperações no terço final do campo: 7,3 por jogo. No Marseille, em 2022-23, ficou em terceiro na Ligue 1 com 9,1 recuperações altas por partida.

E o Tottenham atual? Bem, digamos que não é exatamente uma máquina de pressão. O time ocupa apenas a 11ª posição na Premier League em recuperações altas (6,3 por jogo) e é apenas o 13º em pressões no terço final.

Além disso, Tudor deixou uma frase curiosa na entrevista oficial:

“Se você pode correr 115 km como time, é melhor do que 105.”

Só quatro equipes correram menos que o Tottenham nesta temporada (108,6 km por jogo). E o detalhe: em 89 partidas da Premier League nesta temporada, algum time superou os 115 km. Os Spurs não aparecem em nenhuma delas. Ou seja, a cobrança física vai aumentar. A dúvida é como fazer isso sem ampliar ainda mais a lista de lesionados.

Tática flexível, identidade inegociável

Tudor quase sempre usa o 3-4-2-1, se apresenta como uma formação de segurança do profissional. Em 120 dos 124 jogos que comandou nas cinco principais ligas da Europa, começou com linha de três zagueiros. Mas ele já sinalizou que pode adaptar o sistema à realidade atual do elenco.

“Precisamos encontrar o melhor sistema para os jogadores disponíveis no momento.”

A estrutura pode mudar. O estilo, não. Ele quer agressividade, bola no campo de ataque, intensidade nas transições e protagonismo. É uma ruptura clara com o que vinha sendo feito. O Tottenham vai precisar reaprender a jogar e rápido.

Um ponto interessante dessa história entre Igor Tudor e Tottenham, é o fato de Randal Kolo Muani já ter trabalhado com o croata na Juventus. Ainda se espera mais do francês, e talvez, esse novo treinador possa ser capaz de colocá-lo para entregar ainda mais dentro das quatro linhas.

O teste de fogo: derby contra o Arsenal

Como se não bastasse o cenário dramático, a estreia é contra o Arsenal no clássico do norte de Londres, e sinceramente, a realidade quando bate de frente com os Gunners é complicadíssima na maioria delas, para não dizer em todas. Um time que abriu distância técnica e estrutural nos últimos anos. Os Spurs perderam os últimos três jogos em casa contra o rival.

Se existe um jogo que pode conquistar a torcida imediatamente, é esse. E há um detalhe curioso: Igor Tudor venceu o primeiro jogo em cada um de seus últimos cinco trabalhos (Hajduk Split, Verona, Marseille, Lazio e Juventus).

A lógica diz que domingo é um “free hit”, como gostam de dizer na Inglaterra. A obrigação real começa depois, contra o Fulham. Mas clássico é clássico. Um bom desempenho pode mudar o clima, então, se não forem amassados como se não fossem nada, dá para dizer que é mais fácil sair com um saldo positivo, do que ver o pior cenário neste caso. Logo, sem pressão para Igor Tudor.

Missão: resultado acima de tudo

A longo prazo, o Tottenham quer voltar a disputar a Champions League, competir por títulos e ter estabilidade, era esperado que conseguissem dar um passo maior depois de terem sido campeões da Europa League, só que a música não está tocando desta forma. Agora o foco é muito mais simples: somar pontos e se afastar da zona da degola.

Igor Tudor não é o nome glamouroso que empolga pelo currículo midiático. Ele é o cara chamado quando a casa está pegando fogo. E, até aqui, sempre conseguiu apagar as chamas. O problema é que a Premier League não perdoa. O ritmo é outro, a pressão é outra, o calendário é brutal.

Se o “efeito Igor Tudor” funcionar como na Itália, o Tottenham respira. Se não funcionar, a temporada pode entrar para a história pelos motivos errados. E convenhamos: depois de tanta troca de treinador, talvez o que o Spurs mais precise não seja apenas um bombeiro. Seja alguém que consiga finalmente construir algo sem que a sirene toque de novo em seis meses.

Foto: Reprodução/Opta