A Inglaterra encerrou a fase de grupos da Copa do Mundo deixando uma sensação curiosa. A seleção confirmou o favoritismo dentro do Grupo L, mas também mostrou que ainda possui ajustes importantes antes do mata-mata. Ao longo dos três primeiros jogos, surgiram sinais positivos e negativos para Thomas Tuchel, enquanto Harry Kane reforçou sua condição de principal nome inglês na busca pelo título mundial.
Mesmo sem encantar em todos os momentos, a Inglaterra conseguiu avançar com certa segurança. Isso, em uma Copa do Mundo, nunca deve ser ignorado. A competição costuma punir seleções que demoram para entender o próprio caminho, e os ingleses, pelo menos até aqui, conseguiram evitar um tropeço maior. Ainda assim, a fase de grupos também deixou claro que o time não pode depender apenas do talento individual para seguir vivo.
Agora, nos 16 avos de final, o cenário muda completamente. A margem para erro desaparece, os adversários passam a estudar cada detalhe com mais atenção e qualquer dificuldade ofensiva pode custar muito caro. Neste cenário, o desempenho inglês na primeira fase precisa ser analisado com cuidado. Não apenas pelo resultado final, mas principalmente pelos sinais deixados dentro de campo.
Os pontos positivos da Inglaterra na fase de grupos
O primeiro ponto positivo é bastante simples: a Inglaterra passou pela fase de grupos sem transformar a própria campanha em um drama. Em uma Copa do Mundo, isso é muito importante. Outras seleções chegaram ao torneio com grandes expectativas e encontraram dificuldades maiores. A equipe de Thomas Tuchel, por outro lado, conseguiu se manter no controle do grupo e avançou sem precisar de uma última rodada desesperadora.
Além disso, a Inglaterra mostrou que possui alternativas interessantes no elenco. O duelo contra o Panamá serviu para Tuchel observar peças diferentes e testar novas combinações. Marcus Rashford e Bukayo Saka apareceram pelos lados do campo, enquanto Jude Bellingham ganhou uma função mais centralizada quando a equipe tinha a bola. Nem tudo funcionou de maneira perfeita, mas esse tipo de teste pode ser importante para o mata-mata.
Neste cenário, Bellingham talvez tenha sido uma das melhores notícias da primeira fase. Depois de uma temporada complicada no Real Madrid, marcada por lesões e oscilações, o meio-campista voltou a mostrar protagonismo com a camisa da seleção. Contra o Panamá, o jogador atuou como um verdadeiro camisa 10, participou mais da criação, encontrou bons passes e apareceu em zonas decisivas do campo.
A atuação ganha ainda mais importância porque a Inglaterra teve dificuldades quando os adversários fecharam os lados. Se os pontas não conseguem receber em vantagem, o time precisa encontrar soluções pelo centro. Bellingham mostrou que pode ser esse jogador. Não apenas por marcar o gol que abriu o placar, mas também por construir a jogada que terminou no gol de Harry Kane.
E, claro, é impossível falar dos pontos positivos da Inglaterra sem citar Kane. O atacante continua sendo a grande segurança da seleção. Mesmo quando o time não joga tão bem, ele encontra uma forma de aparecer. Contra o Panamá, marcou de cabeça e chegou a uma marca histórica, se tornando o maior artilheiro inglês em Copas do Mundo, superando Gary Lineker.
Kane já era o maior goleador da história da seleção inglesa, mas a marca em Copas reforça ainda mais seu peso. Em uma competição de mata-mata, ter um jogador desse nível muda muita coisa. Ele não precisa participar o tempo inteiro para ser decisivo. Às vezes, basta uma bola na área, um movimento certo ou um pequeno espaço entre os zagueiros.
Esse talvez seja o maior trunfo da Inglaterra. O time ainda procura sua melhor versão, mas tem um centroavante que já sabe exatamente como decidir jogos grandes. Em torneios curtos, isso pode separar uma campanha comum de uma caminhada histórica.
Os sinais de alerta da Inglaterra para o mata-mata
Apesar dos pontos positivos, a Inglaterra também deixou preocupações claras. A principal delas está na dificuldade para criar chances contra seleções mais fechadas. Gana e Panamá mostraram um caminho que outros adversários podem tentar repetir no mata-mata: bloquear os lados do campo, reforçar a marcação com muitos jogadores e obrigar os ingleses a buscar soluções em espaços curtos.
Esse é um problema importante porque a Inglaterra depende bastante da força pelos corredores. Quando os pontas ficam encaixotados e recebem sempre pressionados, o time perde velocidade e passa a circular a bola sem muita profundidade. Contra adversários mais fortes, esse tipo de dificuldade pode ser ainda mais perigoso.
Thomas Tuchel até reconheceu que enfrentar equipes físicas e bem fechadas exige muita paciência. No entanto, a Inglaterra precisa encontrar maneiras de tornar esse domínio mais produtivo. Ter a bola não basta. A equipe precisa transformar posse em chances reais, principalmente agora que cada partida pode definir a permanência ou a eliminação no torneio.
Outro ponto de atenção está justamente nas escolhas ofensivas. Rashford mostrou disposição e tentou acelerar o jogo, mas também perdeu muitas posses. Saka é uma peça importante, mas ainda precisa encontrar o melhor encaixe dentro da equipe. Já Anthony Gordon e Noni Madueke sofreram quando enfrentaram marcações mais dobradas. Ou seja, Tuchel ainda parece buscar a melhor composição para o ataque. Mas, isso não significa que a Inglaterra esteja perdida. Pelo contrário.
O elenco é forte e oferece muitas possibilidades. Porém, a fase de grupos mostrou que quantidade de opções não resolve tudo sozinha. Em algum momento, o treinador terá que definir quais jogadores oferecem mais equilíbrio e quais combinações realmente aumentam o nível da equipe.
Também existe uma pressão natural que sempre acompanha a Inglaterra em Copas do Mundo. A seleção busca seu segundo título mundial e o primeiro desde 1966. Sendo assim, qualquer atuação menos convincente rapidamente gera dúvidas. Essa cobrança faz parte da história recente inglesa no torneio e tende a crescer ainda mais no mata-mata. A vitória sobre o Panamá trouxe alívio, mas não eliminou todas as perguntas. A Inglaterra avançou e tem jogadores capazes de decidir. Ainda assim, precisará evoluir para não transformar cada partida eliminatória em um sofrimento maior do que o necessário.
Agora, diante da República Democrática do Congo, a seleção inicia uma nova competição dentro da própria Copa do Mundo. A fase de grupos serviu para testar, ajustar e entender problemas. Daqui para frente, não haverá tanto espaço para experiências. A Inglaterra precisa confirmar em campo que é uma candidata real ao título.
Se Bellingham conseguir manter o protagonismo no meio e Kane continuar sendo decisivo, o time de Thomas Tuchel terá motivos para acreditar. Mas, para sonhar com a taça, a Inglaterra precisará ser mais do que isso. Os ingleses precisam transformar seus sinais positivos em força real e corrigir rapidamente os alertas deixados pela primeira fase.
Créditos da foto de capa: Getty Images.