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Inglaterra precisa responder pergunta incômoda após novo fracasso na Copa do Mundo

A Inglaterra voltou para casa sem a sonhada taça da Copa do Mundo, mas o que mais chamou atenção depois da eliminação não foi apenas o resultado. Enquanto boa parte da torcida esperava uma análise profunda sobre os erros da campanha, a Federação Inglesa (FA) preferiu transmitir tranquilidade e reafirmar confiança em Thomas Tuchel. A postura, no entanto, levanta uma questão muito maior do que a simples permanência do treinador: afinal, qual é a identidade da seleção inglesa?

Depois de mais uma campanha que terminou sem título, a sensação é de que a Inglaterra continua esbarrando no mesmo problema de diferentes gerações. Há talento de sobra, elencos recheados de estrelas e investimentos milionários, mas falta algo que as maiores seleções do planeta parecem ter encontrado há muito tempo: uma ideia clara de futebol.

FA mantém confiança em Thomas Tuchel apesar da eliminação

A eliminação na Copa do Mundo poderia provocar uma verdadeira revolução nos bastidores da seleção inglesa. Porém, isso está longe de acontecer.

A Federação Inglesa deixou claro que Thomas Tuchel continua sendo o homem escolhido para liderar o projeto até a Eurocopa de 2028, torneio que será disputado em casa. A avaliação interna é de que o técnico segue sendo a melhor opção para finalmente colocar fim ao jejum de títulos iniciado após a Copa de 1966.

O problema é que a atuação da equipe no Mundial tornou essa confiança difícil de explicar para parte da torcida e da imprensa.

Tuchel foi contratado justamente por carregar a fama de estrategista capaz de vencer jogos decisivos. Campeão da Champions League pelo Chelsea e acostumado à elite do futebol europeu, ele chegou cercado pela expectativa de ser o treinador que faria a Inglaterra dar o último passo.

Na prática, porém, a equipe apresentou um futebol extremamente conservador, pouco criativo e incapaz de controlar partidas contra adversários de maior nível técnico.

Muito dinheiro, mas pouca identidade

Existe uma discussão que vai muito além do treinador. Nos últimos anos, o futebol inglês investiu bilhões na formação de atletas. O “Elite Player Performance Plan” revolucionou categorias de base, centros de treinamento e desenvolvimento de talentos.

O resultado aparece dentro de campo.

A Inglaterra produz atacantes, pontas, defensores e goleiros em quantidade praticamente inesgotável. Não por acaso, a Premier League reúne alguns dos melhores jovens do mundo e abastece constantemente a seleção principal.

Só que produzir jogadores não significa, necessariamente, construir uma seleção.

Esse talvez seja o principal ponto levantado após mais uma decepção na Copa do Mundo.

Enquanto outras potências desenvolvem atletas dentro de uma filosofia nacional relativamente bem definida, a Inglaterra parece depender apenas da qualidade individual dos seus jogadores.

A promessa de um “estilo Premier League” nunca apareceu

Quando assumiu o cargo, Tuchel prometeu implantar uma equipe que jogasse com intensidade, pressão alta e ritmo semelhante ao da Premier League.

Era um discurso que fazia sentido. A liga inglesa é conhecida justamente pela velocidade, intensidade física e transições rápidas, características que poderiam formar uma identidade bastante reconhecível para a seleção.

Só que essa promessa nunca saiu do papel.

Salvo alguns minutos positivos em momentos isolados da campanha, a Inglaterra apresentou exatamente o contrário: posse de bola lenta, dificuldades para controlar o meio-campo e pouca capacidade de criar oportunidades contra adversários organizados.

Na prática, o “estilo Premier League” virou apenas um discurso.

Comprar soluções nem sempre funciona no futebol de seleções

A contratação de Thomas Tuchel também simbolizou uma lógica muito comum no futebol de clubes. Quando existe um problema, busca-se o treinador mais valorizado do mercado. É um modelo que faz sentido em equipes bilionárias, mas talvez não seja suficiente em seleções nacionais.

A Copa do Mundo mostrou novamente que dinheiro não compra identidade.

Mesmo podendo contratar um dos técnicos mais caros disponíveis, a Federação Inglesa descobriu que existe algo impossível de adquirir no mercado: uma cultura de jogo consolidada.

É justamente isso que diferencia algumas das principais seleções do planeta.

Espanha mostra caminho completamente diferente

A comparação com a Espanha ajuda a entender essa diferença. Nos últimos anos, espanhóis e ingleses se encontraram diversas vezes em decisões importantes, tanto no futebol masculino quanto no feminino.

Independentemente do resultado, o roteiro costuma ser parecido.

A Espanha controla a posse de bola, domina territorialmente as partidas e dita o ritmo do jogo. Já a Inglaterra normalmente reage, tenta explorar transições rápidas e passa boa parte do tempo correndo atrás da bola.

Essa diferença não nasce apenas do talento individual.

Ela é consequência de décadas de desenvolvimento de uma filosofia que atravessa categorias de base, treinadores e seleção principal.

Lionel Scaloni e Luis de la Fuente representam outro modelo

Outro aspecto interessante está nos treinadores que eliminaram a Inglaterra nas competições mais recentes.

Tanto Lionel Scaloni quanto Luis de la Fuente representam um perfil que dificilmente seria considerado pela Federação Inglesa.

Nenhum dos dois chegou ao cargo carregando currículo recheado de títulos na Champions League ou passagens pelos maiores clubes do planeta.

O diferencial deles era outro.

Os dois conheciam profundamente a estrutura das respectivas federações, trabalharam durante anos nas categorias de base e participaram diretamente da formação de boa parte dos jogadores que hoje defendem Argentina e Espanha.

Mais do que excelentes treinadores, eram profissionais que entendiam perfeitamente a cultura futebolística de seus países.

Lee Carsley surge como alternativa esquecida

Dentro da própria Inglaterra existe um exemplo parecido.

Lee Carsley trabalhou nas categorias inferiores da seleção e, durante o período em que comandou a equipe interinamente, conseguiu apresentar momentos de futebol mais organizados do que aqueles vistos sob o comando de Tuchel.

Ainda assim, seu nome jamais recebeu o mesmo prestígio de técnicos consagrados internacionalmente.

A impressão é que a Federação Inglesa continua procurando soluções fora, quando talvez algumas respostas estejam dentro de casa.

A grande pergunta continua sem resposta

É importante destacar que essa discussão não passa pela nacionalidade de Thomas Tuchel. O problema não é o fato de ele ser alemão. A verdadeira questão é muito mais profunda. A Inglaterra ainda não conseguiu definir exatamente qual seleção deseja ser.

Quer jogar com intensidade? Valorizar posse de bola? Apostar em transições? Desenvolver um modelo semelhante ao da Premier League ou criar uma identidade própria?

Enquanto essas perguntas permanecerem sem resposta, dificilmente qualquer treinador, por mais vencedor que seja, conseguirá quebrar um jejum que já ultrapassa seis décadas.

A Copa do Mundo deixou uma lição importante para o futebol inglês. Talento, investimento e grandes nomes continuam sendo fundamentais. Mas, no cenário atual do futebol internacional, isso já não basta. Para a Inglaterra conquistar títulos, é preciso algo muito mais difícil de construir: uma identidade que sobreviva às trocas de treinadores, às mudanças de geração e às inevitáveis derrotas no caminho. Só então a Inglaterra poderá deixar de viver apenas da esperança e finalmente transformar seu enorme potencial em conquistas.

Foto: Getty Images