Interlagos GP de São Paulo
Automobilismo Fórmula 1

Interlagos até 2035: por que a Fórmula 1 ainda precisa de circuitos tradicionais que entregam grandes corridas

Interlagos continuará no calendário da Fórmula 1 até 2035. A renovação do contrato entre a categoria e a cidade de São Paulo, anunciada neste sábado (7), representa mais do que a garantia de uma etapa brasileira por mais nove temporadas: é também uma oportunidade de preservar um dos circuitos que melhor representam aquilo que o automobilismo deveria oferecer. Em uma época na qual a Fórmula 1 amplia sua presença em grandes centros urbanos, aposta em estruturas modernas e incorpora cada vez mais circuitos de rua ao calendário, a pista paulistana continua demonstrando que tradição e qualidade esportiva não precisam ser conceitos incompatíveis.

O novo acordo amplia em cinco anos o vínculo anterior, que terminaria em 2030. O anúncio foi feito pelo presidente e CEO da Fórmula 1, Stefano Domenicali, pelo prefeito Ricardo Nunes e pelo CEO do Grande Prêmio de São Paulo, Alan Adler. A renovação também prevê a continuidade dos investimentos municipais na infraestrutura do autódromo e na experiência dos espectadores.

A decisão é importante para o Brasil, mas também para a própria categoria. Interlagos oferece algo que não pode ser reproduzido simplesmente com a construção de uma estrutura moderna ou com a instalação de arquibancadas ao redor de um circuito urbano: uma pista com personalidade, características próprias e capacidade de proporcionar corridas imprevisíveis independentemente da geração de carros utilizada.

Em um calendário cada vez mais moderno, Interlagos preserva a essência da Fórmula 1

A expansão internacional da Fórmula 1 transformou o calendário nas últimas décadas. A categoria passou a explorar novos mercados, estabelecer parcerias comerciais com grandes cidades e investir em eventos que oferecem experiências muito além da corrida. Miami, Las Vegas e Jeddah representam essa nova fase, com circuitos de rua e estruturas desenvolvidas para integrar o automobilismo ao entretenimento urbano.

Não existe necessariamente um problema nessa estratégia. A Fórmula 1 precisa conquistar novos públicos, ampliar sua presença internacional e encontrar maneiras de tornar seus eventos comercialmente atrativos. O risco aparece quando a modernização passa a ser tratada como sinônimo de evolução esportiva, como se instalações luxuosas e cenários impressionantes fossem suficientes para garantir boas corridas.

É justamente nesse contexto que Interlagos se torna tão importante. O autódromo não precisa de uma paisagem artificialmente construída para impressionar, tampouco depende de uma estrutura urbana para criar identidade. Sua história, suas características e a maneira como os carros precisam se comportar ao longo da volta já oferecem elementos suficientes para transformar o fim de semana em um dos acontecimentos mais aguardados da temporada.

A pista possui 4,309 quilômetros, 15 curvas e uma combinação de setores bastante diferentes. O primeiro trecho exige precisão nas frenagens e oferece oportunidades de ultrapassagem, especialmente na chegada ao S do Senna. Depois, os pilotos enfrentam uma sequência técnica no miolo do circuito, antes de voltarem a acelerar na subida em direção à reta principal.

Essa configuração cria uma volta que exige diferentes qualidades do carro e do piloto. Não basta ter velocidade em linha reta ou eficiência aerodinâmica nas curvas rápidas: é necessário encontrar equilíbrio para enfrentar mudanças de elevação, curvas de características distintas e pontos de frenagem que favorecem disputas roda a roda.

Uma pista que não depende de uma geração específica de carros

Um dos maiores méritos de Interlagos é sua capacidade de continuar produzindo corridas interessantes mesmo quando a Fórmula 1 passa por mudanças profundas em seus regulamentos. Ao longo das décadas, os carros foram ficando maiores, mais pesados e mais dependentes de diferentes soluções aerodinâmicas. Em determinados períodos, as características dos monopostos dificultaram as ultrapassagens em diversos circuitos, mas a pista brasileira frequentemente encontrou maneiras de proporcionar disputas.

Isso acontece porque Interlagos oferece mais de uma possibilidade de ataque. O S do Senna é o ponto mais conhecido, mas a disputa não termina ali. A sequência até a Descida do Lago permite diferentes trajetórias, enquanto as retas e as zonas de frenagem seguintes criam oportunidades para pilotos que conseguem preparar uma aproximação. O traçado também exige comprometimento nas curvas, tornando possível construir uma ultrapassagem ao longo de mais de um trecho.

A combinação de setores técnicos e zonas de aceleração impede que a corrida fique completamente dependente de uma única característica dos carros. Mesmo quando a diferença de desempenho entre os competidores é pequena, o circuito oferece oportunidades para que estratégia, controle dos pneus e habilidade individual tenham influência sobre o resultado.

O clima também participa dessa equação. A localização de Interlagos e a época do ano em que o Grande Prêmio costuma ser realizado fazem com que mudanças repentinas de temperatura e chuva sejam elementos recorrentes. Uma pista que começa com condições aparentemente estáveis pode apresentar um cenário completamente diferente poucos minutos depois, obrigando equipes e pilotos a tomar decisões rapidamente.

A chuva, naturalmente, não garante uma boa corrida por si só. Entretanto, quando combinada com um traçado que já oferece oportunidades de ultrapassagem e exige diferentes estilos de pilotagem, pode ampliar ainda mais as possibilidades de acontecimentos inesperados. Interlagos não precisa depender de um acidente ou de uma intervenção do safety car para criar entretenimento, mas suas características permitem que fatores externos tenham um impacto significativo sobre a disputa.

A história de Interlagos também é construída por corridas inesquecíveis

Desde sua estreia no calendário da Fórmula 1, em 1973, Interlagos acumulou momentos que ajudam a explicar sua importância. Emerson Fittipaldi venceu a primeira edição e voltou a triunfar no ano seguinte, enquanto José Carlos Pace conquistou a vitória em 1975. O autódromo recebeu grandes momentos de Ayrton Senna, incluindo a emocionante vitória de 1991, quando o brasileiro superou dificuldades com o câmbio para vencer diante de sua torcida.

A pista também foi palco de decisões importantes de campeonato. Em 2007, Kimi Räikkönen conquistou o título mundial pela Ferrari em uma temporada marcada pela disputa entre três pilotos. Um ano depois, Lewis Hamilton garantiu seu primeiro campeonato na última volta da corrida, em uma das decisões mais dramáticas da história da categoria. Felipe Massa cruzou a linha de chegada como vencedor e chegou a comemorar o título, mas a ultrapassagem de Hamilton sobre Timo Glock mudou o destino da temporada nos metros finais.

Esses episódios não são importantes apenas pela nostalgia. Eles mostram que Interlagos oferece condições para que o esporte produza histórias capazes de ultrapassar o resultado de uma corrida. O circuito permite que diferentes elementos se encontrem: estratégia, clima, disputas, erros, ultrapassagens e decisões que podem permanecer indefinidas até os últimos momentos.

A etapa brasileira também possui uma atmosfera particular. A proximidade das arquibancadas com a pista, a tradição do público e a importância histórica do automobilismo no país ajudam a construir uma experiência que não depende exclusivamente das atrações fora do asfalto. Em 2025, o Grande Prêmio de São Paulo recebeu 303.627 espectadores durante o fim de semana e movimentou aproximadamente R$ 2,3 bilhões na economia da cidade, segundo números divulgados pela organização.

Renovação até 2035 é uma vitória para o automobilismo brasileiro

A permanência de Interlagos também tem um significado que ultrapassa a discussão sobre qualidade das corridas. O Brasil é atualmente a única etapa sul-americana do campeonato, o que torna o evento ainda mais relevante para a presença da Fórmula 1 na região. Em um calendário cada vez mais disputado por cidades interessadas em receber a categoria, garantir um contrato até 2035 oferece estabilidade e permite que a organização planeje investimentos de longo prazo.

A renovação também representa um reconhecimento da capacidade de São Paulo de manter um evento internacional de grande porte. A estrutura do autódromo precisa continuar evoluindo, especialmente em aspectos relacionados à mobilidade, ao conforto e à experiência do público. Preservar a tradição não significa ignorar a necessidade de melhorias, mas encontrar um equilíbrio entre modernização e identidade.

Esse é justamente o ponto central da importância de Interlagos. A Fórmula 1 pode e deve explorar novos mercados, experimentar formatos diferentes e construir eventos em lugares que antes pareciam distantes do automobilismo. Mas isso não deveria acontecer às custas dos circuitos que ajudaram a construir a história da categoria e que continuam oferecendo aquilo que os torcedores mais esperam: boas corridas.

Interlagos não precisa competir com Las Vegas em termos de iluminação, hotéis ou entretenimento ao redor da pista. Sua principal contribuição está no asfalto. É um circuito que exige dos pilotos, oferece alternativas para ultrapassagens e consegue criar situações imprevisíveis mesmo quando os carros passam por mudanças profundas de conceito.

A renovação até 2035, portanto, deve ser celebrada como uma vitória esportiva. Em um momento no qual a Fórmula 1 procura novas formas de se apresentar ao mundo, manter uma pista como Interlagos no calendário é uma maneira de preservar aquilo que tornou a categoria tão popular. Porque, no fim, o espetáculo não depende apenas de onde os carros correm ou de como os eventos são organizados, mas principalmente da qualidade das disputas que acontecem quando as luzes se apagam.

(Foto: Getty Images)