Durante muito tempo, grandes campanhas de seleções africanas em Copas do Mundo foram tratadas como acontecimentos extraordinários, quase impossíveis de repetir. Superavam adversários tradicionais, quebravam barreiras históricas e, quatro anos depois, precisava começar novamente a luta pelo reconhecimento.
O Marrocos parece disposto a encerrar essa lógica.
Depois de alcançar as semifinais em 2022, a seleção marroquina está novamente entre as oito melhores do mundo. Desta vez, existe uma diferença importante na forma como sua campanha é observada. O sucesso já não causa a mesma surpresa. A classificação deixou de ser vista apenas como uma história emocionante e passou a ser analisada como consequência do crescimento de uma seleção que aprendeu a competir em alto nível.
A vitória por 3 a 0 sobre o Canadá, nas oitavas de final, não foi uma demonstração de futebol dominante durante os 90 minutos. Pelo contrário. Houve dificuldades, um início abaixo do esperado e momentos em que a equipe precisou aceitar a pressão adversária. Ainda assim, o resultado foi amplo.
Talvez seja justamente isso que torne a atual campanha tão significativa.
O Marrocos já mostrou que consegue jogar bem. Agora, também mostra que pode vencer quando está distante de seu melhor nível. Em uma competição curta e eliminatória como a Copa do Mundo, essa capacidade costuma separar as boas equipes das verdadeiras candidatas ao título.
Uma vitória histórica mesmo sem uma grande atuação

O placar de 3 a 0 sobre o Canadá pode sugerir uma partida tranquila, mas os números mostram um cenário diferente.
O Marrocos terminou o confronto com apenas cinco finalizações. Nunca uma equipe havia vencido uma partida eliminatória de Copa do Mundo com tão poucos chutes desde o início dos registros.
O primeiro tempo também produziu outro dado curioso. Pela primeira vez na história do Mundial, uma etapa terminou com mais cartões amarelos do que finalizações.
O início marroquino foi preocupante.
Durante os primeiros 15 minutos, a equipe sequer tocou na bola dentro da área canadense. Era a segunda partida consecutiva em que isso acontecia. Do outro lado, o Canadá criou duas oportunidades e obrigou Bono a trabalhar em finalizações de Jonathan David e Tani Oluwaseyi.
O Marrocos parecia lento e desconfortável.
A diferença é que não entrou em desespero.
Depois do período inicial, a equipe conseguiu se reorganizar, reduziu os espaços e assumiu progressivamente o controle da partida. A definição do técnico canadense Jesse Marsch resumiu bem o que aconteceu: o Marrocos se curvou, mas não quebrou.
Essa capacidade de resistir também ajuda a explicar a sequência impressionante da seleção.
O Marrocos está há 34 partidas sem perder somando todas as competições. Existe uma ressalva no número porque a sequência inclui a final da Copa Africana de Nações de 2026 contra o Senegal, cujo resultado foi concedido posteriormente aos marroquinos e ainda é contestado judicialmente.
Mesmo considerando essa situação, o período sem derrotas mostra uma regularidade extraordinária.
A última vez que a seleção marroquina perdeu dentro de campo foi em agosto de 2025, por 1 a 0 contra o Quênia, pelo Campeonato Africano das Nações, competição disputada apenas por jogadores que atuam nas ligas nacionais do continente.
Desde então, ninguém conseguiu derrotá-la.
O Marrocos aprendeu a vencer de diferentes maneiras

A campanha atual mostra uma equipe capaz de sobreviver a diferentes tipos de partida.
Na estreia, o Marrocos enfrentou o Brasil e conseguiu um empate que mostrou novamente sua capacidade de competir contra uma das maiores potências do futebol mundial.
Depois, vieram vitórias de características completamente diferentes.
Contra a Escócia, a equipe precisou administrar uma partida dura depois de marcar nos dois primeiros minutos. Diante do Haiti, o cenário foi oposto. Em um confronto aberto e movimentado, venceu por 4 a 2.
Nas 16 avos de final, contra a Holanda, o Marrocos foi a melhor equipe, mas esteve muito perto da eliminação e precisou de um gol de cabeça nos acréscimos para continuar vivo.
Contra o Canadá, novamente encontrou dificuldades antes de construir uma vitória por três gols de diferença.
Não existe um único roteiro para os resultados marroquinos.
A equipe já precisou defender, controlar, contra atacar e sobreviver. Essa variedade é importante porque uma campanha longa em Copa do Mundo dificilmente permite que uma seleção vença todas as partidas da mesma maneira.
A classificação para as quartas também ampliou um domínio histórico do Marrocos dentro do futebol africano.
A seleção agora possui quatro vitórias em jogos eliminatórios de Copa do Mundo. Duas aconteceram em 2022 e outras duas em 2026.
O número é impressionante porque iguala a soma de todas as outras seleções africanas na história do torneio.
Com apenas mais uma vitória, o Marrocos repetirá oficialmente a campanha de 2022 e alcançará novamente as semifinais.
Quatro anos atrás, chegar tão longe significou quebrar uma barreira que nenhuma seleção africana havia superado. Agora, repetir o feito já não parece impossível.
Hakimi e Brahim Díaz representam a qualidade de uma geração especial

A força coletiva é fundamental, mas o Marrocos também possui jogadores capazes de decidir no mais alto nível.
Achraf Hakimi é o principal exemplo.
Capitão da seleção e considerado um dos melhores laterais direitos do mundo, ele voltou a mostrar sua importância contra o Canadá. Sua influência não está apenas nas ações ofensivas. Hakimi participa da construção, acelera pelos lados, pressiona e transmite a agressividade competitiva que se tornou uma das marcas da equipe.
Brahim Díaz também teve papel decisivo.
O meia deu duas assistências contra os canadenses e chegou a quatro passes para gol em Copas do Mundo. Nenhum jogador africano conseguiu mais assistências na história da competição.
Enquanto isso, o sistema defensivo conseguiu tirar do jogo duas das principais referências do Canadá.
Stephen Eustaquio teve sua capacidade de distribuição limitada, enquanto Jonathan David encontrou enormes dificuldades para participar ofensivamente.
É esse equilíbrio entre talento e organização que fortalece a candidatura marroquina.
O time possui jogadores técnicos, mas não depende apenas deles. Possui força defensiva, mas não precisa atuar permanentemente recuado. Consegue pressionar, mas também sabe esperar. Quando encontra espaço, pode ser devastador nos contra ataques.
Ainda existem dúvidas.
O Marrocos não apresentou seu melhor futebol durante toda a partida contra o Canadá, e adversários mais fortes podem punir um início tão lento. Chris Sutton, comentarista da BBC, destacou justamente esse ponto ao afirmar que uma atuação semelhante contra a França poderia gerar consequências muito mais graves.
O alerta é válido.
A seleção ainda precisa mostrar que consegue manter seu nível diante das maiores potências durante uma partida inteira. O empate contra o Brasil foi um sinal importante, mas os próximos desafios exigirão ainda mais.
O sucesso começou muito antes desta Copa
O sucesso começou muito antes desta Copa
Essa seleção não surgiu de forma inesperada.
O crescimento é resultado de um projeto construído durante anos, apoiado por investimentos de longo prazo no futebol do país.
Uma academia foi inaugurada em 2009. Dez anos depois, em 2019, foi aberto um centro de treinamento avaliado em 65 milhões de dólares. As estruturas receberam o nome do rei Mohammed VI, que apoiou diretamente o desenvolvimento esportivo nacional.
Os efeitos apareceram com o tempo.
Entre 1986 e 1998, o Marrocos disputou três de quatro Copas do Mundo. Depois, passou 20 anos sem conseguir voltar ao torneio.
O investimento mudou esse cenário.
Além da formação interna, o país desenvolveu uma estratégia eficiente para aproximar jogadores da diáspora. Hakimi e Brahim Díaz, por exemplo, nasceram na Espanha, mas escolheram defender a seleção marroquina.
O resultado é uma equipe que mistura formação, estrutura e talento espalhado pelo futebol europeu.
A semifinal de 2022 foi a primeira grande confirmação de que o projeto havia alcançado outro nível. A campanha atual mostra que aquilo não foi um acontecimento isolado.
O próprio técnico Mohamed Ouahbi resumiu a mudança de percepção ao afirmar que o Marrocos já não é mais uma surpresa.
Os números sustentam essa declaração.
São 34 partidas sem derrota, duas quartas de final consecutivas, quatro vitórias em mata matas de Copa e uma geração que já mostrou ser capaz de enfrentar algumas das melhores seleções do planeta.
Em 2022, o mundo assistiu ao Marrocos avançar com uma sensação constante de incredulidade.
Quatro anos depois, o sentimento é diferente.
A seleção ainda pode ser eliminada e ainda terá desafios maiores pela frente. Mas ninguém mais pode tratar uma vitória marroquina como um acontecimento improvável.
O Marrocos não está vivendo um novo conto de fadas. Está colhendo os resultados de um projeto que transformou uma surpresa histórica em uma verdadeira candidata ao título mundial.
(Foto de capa: Kevin C. Cox/Getty Images)