James Rodríguez, Colômbia
Futebol Copa América

Por que James Rodríguez não rende no São Paulo como na seleção?

A seleção colombiana chegou à final da Copa América, onde irá enfrentar a favorita Argentina em busca do título. O principal nome dessa equipe é bem conhecido dos brasileiros: James Rodríguez. O camisa 10 colombiano tem sido, discutivelmente, o melhor jogador da competição até agora, o que levanta algumas questões, principalmente dos torcedores do São Paulo.

James chegou com status de estrela no São Paulo na temporada passada e, após um começo promissor, não conseguiu render o esperado. Ele caiu de produção e perdeu espaço no elenco tricolor, chegando a ficar fora dos relacionados em alguns momentos. Embora muitos atribuam essa queda de rendimento à falta de comprometimento do colombiano, há questões muito mais profundas envolvidas.

Neste texto, vamos destrinchar todas essas questões, discutindo as diferenças no estilo de jogo de James na Colômbia e comparando com os clubes. Vamos traçar um paralelo com o São Paulo e analisar o que seria necessário para que ele conseguisse render da melhor forma.

A morte do “camisa 10 clássico”

A função de armador no futebol passou por muitas mudanças desde que foi criada. Quando a Hungria chocou o mundo ao bater a Inglaterra por 6 a 3 no Wembley em 1953, o futebol foi apresentado a um dos primeiros jogadores cerebrais da história: Ferenc Puskas. Naquela época, o camisa 10 húngaro era conhecido por seus dribles secos, habilidade de passes e chutes precisos. No entanto, existia um contexto.

Um dos trunfos daquela Hungria era o seu jogo de aproximação, que foi criticado pela “falta de objetividade” até o fatídico dia em Wembley. Esse estilo de jogo evoluiu para o Futebol Total holandês, que já tinha Johan Cruijff em uma função parecida com Puskas, mas focando nos passes e jogando de frente para o gol.

No final dos anos 90 e início dos anos 2000, o futebol evoluiu para um espaçamento maior do campo graças aos pontas mais agressivos e aos laterais mais avançados. O camisa 10 teve mais liberdade para ser o pensador. Surgiram craques como Rivaldo, Zinedine Zidane, Juan Román Riquelme, entre outros.

Esse é o camisa 10 clássico: um pensador que ocupa a faixa central do campo para acionar os seus companheiros de equipe com passes precisos, geralmente recebendo de costas para o gol. No entanto, esse tipo de meia começou a entrar em desuso por conta do meio de campo em “V”, muito difundido por Pep Guardiola em seus tempos de Barcelona, que tinha a aproximação de dois meias centrais voluntariosos, ocupando todo o campo.

Provavelmente, o ápice desse novo estilo de meia vem com Luka Modric, que personifica um jogador que ocupa todo o campo central. James se encontra no estilo de “camisa 10 clássico”, mas, diferente de quando esse tipo de jogador estava em moda, os padrões táticos modernos exigem muito sacrifício para que esses atletas alcancem o seu melhor rendimento. Abaixo, vamos entender como a Colômbia se adapta para ter James.

Como um camisa 10 moderno ocupa o espaço de forma diferente de um camisa 10 clássico:

Luka Modric James Rodriguez
Mapa de calor de Luka Modric em Croácia x Albânia
James Rodriguez
Mapa de calor de James Rodriguez em Colômbia x Panamá

A adaptação da Colômbia para ter James

Entendendo que James é um camisa 10 clássico e que esse estilo de jogador precisa de adaptações para jogar hoje em dia, é hora de passar para a prática: como a Colômbia joga em função de seu craque para que ele se sinta confortável em campo?

Escalando James como um 10, a Colômbia joga em um 4-4-2 losango, com Jefferson Lerma como primeiro volante, Richard Rios sustentando o meio de campo e Jhon Arias como um meia “motorzinho”, com mais liberdade para se aproximar dos atacantes. No ataque, Luís Diaz flutua como segundo homem de frente, enquanto Jhon Córdoba é um centroavante de muita movimentação.

Com a bola, James tem muita liberdade para ocupar a faixa central do campo, jogando de costas para o gol e acionando seus companheiros com passes rápidos, sem precisar carregar tanto a bola. Isso é possível graças à movimentação constante do time colombiano, impulsionado por um Arias que consegue ocupar muito espaço, um Daniel Muñoz (desfalque para a final) que ataca os espaços deixados por Richard Rios, além de Diaz e Córdoba, que sempre dão opções de velocidade.

Sem a bola, a adaptação é ainda maior. James ocupa a função de um “falso 9”, enquanto Diaz e Córdoba cobrem os espaços deixados por ele para pressionar a saída de bola dos adversários. Arias é crucial nesse estilo de jogo, pois é ele quem pressiona os volantes adversários, deixando James livre das funções defensivas.

Visto que essa adaptação é necessária para acomodar um jogador como James, vamos novamente comparar o estilo de jogo de Modric, que se dá muito bem jogando em um meio de campo em V por conta da ocupação de espaço. James, sendo um jogador menos adaptável, encontra dificuldades para realizar a mesma função dos meias modernos, o que atrapalha seu desempenho em clubes.

James no São Paulo

James RodriguezAgora que sabemos que o camisa 10 clássico não se adapta bem ao futebol moderno e que a Colômbia faz várias mudanças para que James renda o seu melhor, vamos entender os obstáculos disso no São Paulo. James não consegue jogar em outro lugar sem ser na faixa central de campo, e ele encontra alguns desafios no time de Luis Zubeldía.

O primeiro deles é a formação. Desde que chegou ao São Paulo, Zubeldía tem utilizado muito mais um esquema com apenas um atacante, deixando Luciano e Lucas Moura livres para ocupar a faixa central, com uma movimentação constante entre os dois para atacar o lado direito do campo e se aproximar de Jonathan Calleri. Com James, essa movimentação não aconteceria, e o treinador teria que “sacrificar” um dos dois principais jogadores da equipe. Quem sairia? Lucas ou Luciano?

Além disso, Calleri não faz a função de Córdoba. Ele joga mais de costas para a defesa, disputando fisicamente com os zagueiros e tentando jogar com quem se aproxima dele na área. Isso, junto com o fato de o São Paulo não ter um atleta como Arias, que ocupa os espaços deixados por um camisa 10 clássico, afeta James com a bola.

Sem a bola, seria preciso sacrificar ainda mais os principais jogadores do São Paulo nos últimos tempos. Calleri teria que ser mais voluntarioso defensivamente, o que parece ser um esforço desnecessário devido aos problemas físicos do atacante argentino. Além disso, Lucas ou Luciano teriam que pressionar mais a saída de bola. Para ter James, o São Paulo provavelmente precisaria abdicar de Calleri e apostar em Luciano como centroavante, além de ter Lucas fechando os espaços pela esquerda.

A dinâmica de jogo de James, hoje em dia, exige muita adaptação para funcionar. Um dos principais problemas é que o futebol de clubes é muito intenso e cada vez menos dependente de apenas um jogador. O aspecto “vontade” de se adaptar pode falar para o colombiano, mas está se tornando cada vez mais claro que ele não consegue fazer essa adaptação.