Brown esquecido?
Basquete NBA

Jaylen Brown está no caminho para alcançar marca histórica na NBA

A derrota para o Portland Trail Blazers no domingo à noite não foi suficiente para apagar o simbolismo do que Jaylen Brown está fazendo na NBA em 2025-26. Em meio a um cenário adverso, com Jayson Tatum fora por tempo indeterminado após uma ruptura no tendão de Aquiles, um elenco remodelado e expectativas naturalmente mais baixas, Brown assumiu o protagonismo absoluto em Boston e está construindo, jogo após jogo, uma das maiores temporadas ofensivas da história da franquia.

O lance que selou esse momento histórico veio de forma emblemática: um arremesso de três pontos após o corta-luz de Neemias Queta, contato duro de Donovan Clingan e três lances livres decisivos. Com o primeiro convertido, Brown chegou aos 30 pontos pela nona partida consecutiva, igualando Larry Bird no recorde de jogos seguidos com pelo menos 30 pontos vestindo a camisa dos Celtics. É o tipo de companhia que, em Boston, nunca é trivial.

Mais do que a sequência, os números sustentam a dimensão do feito. Brown encerrou a noite com 37 pontos, sete rebotes e quatro assistências, convertendo 14 de 23 arremessos. Foi seu 19º jogo com 30 pontos na temporada — só Shai Gilgeous-Alexander tem mais em toda a NBA. Em um time que perdeu seu principal astro, Brown não apenas aumentou o volume: ele elevou a eficiência, algo raro quando a carga ofensiva cresce tanto.

Brown prova que é uma estrela que pode entrar para a história da NBA

Com médias de 29,7 pontos, 6,3 rebotes e 4,8 assistências, Brown vive o auge estatístico da carreira. Ele arremessa 50,6% de quadra, 37% de três e quase 78% nos lances livres, liderando o time em pontuação em 24 dos 29 jogos que disputou. Não é exagero dizer que ele tem sido o principal responsável por evitar que os Celtics entrem em um “ano de transição”. Mesmo com campanha inferior à da temporada passada, Boston segue competitivo, em terceiro lugar no Leste, sustentado quase exclusivamente pelo talento de seu camisa 7.

O impacto histórico dessa produção aparece quando o comparativo se volta para os grandes nomes da franquia. Apenas quatro jogadores dos Celtics haviam terminado uma temporada com média superior a 27 pontos: Larry Bird, John Havlicek, Isaiah Thomas e o próprio Tatum. Brown está prestes a se tornar o quinto, e, se mantiver o ritmo, pode terminar com a terceira maior média de pontos em uma única temporada da história do time, atrás apenas de Tatum (30,1 em 2022-23) e Bird (29,9 em 1987-88).

Mas pontuar muito nunca foi suficiente para definir grandeza em Boston. O contexto importa. E talvez seja aí que a temporada de Brown ganhe ainda mais peso. Sem outro pontuador consistente ao seu lado, já que ninguém além dele passa dos 20 pontos por jogo, Brown responde por quase 24% de todos os pontos do time na temporada. Em termos históricos, isso o coloca abaixo de Paul Pierce no início dos anos 2000, mas a comparação direta é enganosa. A NBA atual pontua muito mais. O volume ofensivo da liga dilui percentuais individuais, o que torna ainda mais impressionante a centralidade de Brown no ataque atual.

Outro fator decisivo é a eficiência. Brown combina uso da posse, sua taxa de uso passa dos 36%, a mais alta entre todas as grandes temporadas de pontuação dos Celtics, com aproveitamentos raramente vistos nesse nível de protagonismo. Entre as temporadas da franquia com pelo menos 27 pontos por jogo, a dele figura entre as melhores em aproveitamento de arremessos e arremessos reais ajustados. Não é um jogador “forçando” pontos; é alguém encontrando soluções mesmo quando toda a defesa adversária gira em sua direção.

Os jogos de alta pontuação também reforçam essa narrativa. Brown já soma 19 partidas com 30 pontos e três com 40, com projeção clara para quebrar seus próprios recordes pessoais. Ele ainda está distante das 42 partidas de 30 pontos de Tatum em 2022-23 ou das 11 partidas de 40 pontos de Bird e Tatum, mas o ritmo sugere que ele entrará nesse grupo seleto. O teto, inclusive, ainda não foi testado: seu recorde pessoal de 50 pontos permanece intacto nesta temporada.

Quando a comparação se estende ao resto da liga, o feito ganha outra camada. Brown é o sexto maior pontuador da NBA. Historicamente, poucos jogadores dos Celtics terminaram uma temporada tão alto nesse ranking, e nenhum jamais liderou a liga. Mesmo assim, Bird, Havlicek e Pierce terminaram anos específicos no top-3, algo que Brown pode repetir se mantiver o desempenho atual.

Comparar eras, evidentemente, é um exercício imperfeito. Cousy pontuava menos em uma liga diferente. Havlicek e Bird jogaram sem o mesmo peso da linha de três pontos. Pierce foi moldado pelo “dead-ball era” e por elencos estrelados. Isaiah Thomas realizou um feito quase mitológico para alguém de 1,75m. Brown, por sua vez, atua em uma NBA acelerada, espaçada e estatisticamente inflada, mas também mais preparada defensivamente do que nunca.

FOTO: Winslow Townson/Imagn Images