Lutas UFC

Josh Hokit não é um bom lutador, e o UFC tem culpa em promover suas ações

A empolgação em torno de Josh Hokit após a vitória sobre Curtis Blaydes no UFC 327 é compreensível. Foi uma luta movimentada, com alto volume de golpes e um resultado que, à primeira vista, sugere a chegada de um novo nome relevante na divisão dos pesados. Mas uma análise mais fria revela problemas claros no jogo de Hokit que não podem ser ignorados.

Além disso, seu estilo provocador beira o desrespeito com um companheiro de profissão, além do público no geral. No entanto, pela forma que o UFC age com essas situações, é entendível saber os motivos que ele faz o que faz.

Hokit mostra brechas e um estilo de luta falho

Apesar da vitória, Hokit mostrou uma quantidade preocupante de brechas defensivas. Em diversos momentos, avançou de forma desorganizada, com a guarda baixa e sem preocupação real com contra-ataques. Esse tipo de abordagem pode funcionar contra determinados adversários, especialmente em lutas caóticas, mas dificilmente se sustenta em alto nível.

E aqui entra o contexto do adversário. Blaydes, historicamente, nunca foi um striker refinado. Seu jogo sempre esteve baseado no wrestling e no controle posicional. Quando essa ferramenta não funciona, ele tende a se tornar previsível em pé. E foi exatamente isso que aconteceu. Sem conseguir impor quedas de forma consistente, Blaydes acabou entrando em um tipo de luta que não favorece suas características.

Ou seja, Hokit venceu, mas dentro de um cenário específico. Ele enfrentou um oponente que não é conhecido pela trocação de elite e que, naquela noite, também não conseguiu executar seu plano principal. Isso levanta uma questão importante: o quanto dessa vitória foi mérito absoluto de Hokit e o quanto foi circunstancial?

Porque, tecnicamente, as falhas continuam lá. A defesa de golpes é porosa, o posicionamento é irregular e há uma dependência clara de volume e agressividade para compensar essas limitações. Esse estilo, embora empolgante para o público, costuma ter prazo de validade curto quando confrontado com lutadores mais completos.

E é aí que entra o próximo teste. A possibilidade de enfrentar Derrick Lewis no UFC Casa Branca representa um choque de realidade potencial. Lewis pode não ser o lutador mais técnico da divisão, mas possui algo que Hokit ainda não enfrentou de verdade: poder de nocaute bruto e capacidade de decidir uma luta com um único golpe.

Contra um atleta que deixa tantas aberturas, isso é um risco enorme. Se Hokit repetir o mesmo padrão de avançar sem proteção, oferecendo espaço para contra-ataques, a tendência é clara: ele pode ser punido de forma imediata. Diferentemente de Blaydes, Lewis não precisa de volume, nem de controle. Ele precisa de uma oportunidade, e Hokit costuma oferecer várias.

Esse é o tipo de confronto que separa promessa de realidade. Até aqui, Hokit construiu sua narrativa com base em intensidade e entretenimento. Mas o alto nível do UFC exige mais do que isso. Exige controle, leitura de luta e, principalmente, responsabilidade defensiva. Sem esses elementos, o risco de queda é rápido.

O comportamento dentro e fora do octógono

Outro aspecto que merece atenção é o comportamento dentro e fora do octógono.

As provocações constantes, o tom desrespeitoso e a tentativa de transformar cada luta em espetáculo podem até gerar engajamento, mas levantam um debate importante sobre o tipo de imagem que o esporte quer promover. O MMA sempre teve espaço para personalidades fortes, mas existe uma linha tênue entre carisma e excesso.

E Hokit parece, em alguns momentos, ultrapassá-la. Esse estilo forçado de provocação pode funcionar enquanto os resultados acompanham. O problema é que, quando a performance não sustenta a narrativa, o efeito costuma ser o oposto. A queda se torna mais dura, a crítica mais intensa e a credibilidade mais difícil de reconstruir.

Nesse sentido, o próprio UFC também tem responsabilidade. Ao valorizar e promover esse tipo de comportamento, a organização corre o risco de incentivar uma cultura onde o espetáculo se sobrepõe à qualidade técnica. Isso pode funcionar no curto prazo, mas, a longo prazo, enfraquece o nível competitivo e a percepção do esporte. Hokit, hoje, é um produto perfeito desse modelo. Intenso, barulhento, agressivo, mas ainda cru.

A vitória sobre Blaydes o colocou no radar, mas não resolveu suas limitações. Pelo contrário, talvez tenha mascarado algumas delas. E é exatamente isso que torna seu próximo passo tão importante. NoContra um adversário como Derrick Lewis, não haverá espaço para improviso descontrolado.

Ou Hokit ajusta seu jogo, melhora sua defesa e aprende a lutar com mais inteligência, ou corre o risco de ver toda a empolgação construída ruir em poucos minutos.

No fim, a questão não é se ele tem potencial. A questão é se ele está disposto a evoluir além do caos que hoje define seu estilo. Porque, no nível mais alto do UFC, intensidade sem controle não é virtude. É vulnerabilidade.

(Foto: Divulgação/UFC)