A espera acabou! Com 55 anos de história, muitos títulos nacionais e uma trajetória difícil nas competições europeias, o Paris Saint-Germain saiu de motivo de chacota para o campeão mais dominante numa final de Champions League. Allez Paris!
O PSG enfrentou a Inter de Milão numa final muito esperada, por conta de um equilíbrio que não aconteceu de fato. Com um futebol coletivo, de troca de posições, ataque aos espaços vazios, velocidade, técnica e consciência tática, o Paris Saint-Germain destruiu o rival italiano com requintes de crueldade, apresentando um volume de jogo nunca antes visto em uma decisão de Champions League. Uma partida a ser lembrada para sempre pelos fãs de futebol.
Confira as razões que fizeram o PSG encantar o mundo, amassar a Inter de Milão e finalmente conquistar a tão sonhada orelhuda, que não foi para Paris nem com Neymar, Mbappé e Messi.
Luis Enrique montou uma máquina
O técnico Luis Enrique chegou no PSG há duas temporadas e resolveu fazer uma limpa no elenco para reconstruir um time que tinha glamour, estrelas, mas faltava o coletivo, a entrega tática e a fome por conquistas. Nomes como Mbappé, Kolo Muani, Ugarte, Paredes e Danilo Pereira estão entre os dispensados pelo treinador.
Se atletas de nome saíram, jovens apostas chegaram, primeiro com Gonçalo Ramos, Barcola e Beraldo, além dos mais experientes Dembélé e Lucas Hernández, que apesar de mais rodados, estavam bem abaixo dos 30 anos.
O time foi ganhando corpo, entendendo o estilo de jogo de Luis Enrique, que privilegia a troca de passes e de posições e o jogo no campo do adversário. No primeiro ano esse time ganhou tudo na França, mas ainda não era páreo para os gigantes da Europa.

Na segunda temporada do espanhol, o time jovem jogava um futebol total, muito difícil de ser marcado, mas ainda faltava corpo para conseguir coisas grandes. Só que na janela de transferências, ao invés de buscar jogadores mais experiente, seguiu apostando na molecada e com Kvaratskhelia, Doué, Pacho e João Neves, o treinador espanhol reforçou as posições que precisava e a equipe passou a ter equilíbrio em todas as fases do campo.
O meio-campo tinha jogadores que flutuavam por todos os lados, no melhor estilo box-to-box. Vitinha, Fabián Ruiz e João Neves formaram um trio de meio-campo moderno e sólido. Pacho fez uma dupla de zaga espetacular com Marquinhos, que juntamente com os laterais ofensivos, mas táticos, Hakimi e Nuno Mendes, montaram um sistema defensivo veloz e técnico.
Só que algo especial deste time é o ataque. Dembélé, Doué e Kvaratskhelia formam um trio praticamente impossível de ser marcado durante 90 minutos, pois nenhum deles guarda posição. Além disso, sem a bola eles atormentam a saída do adversário, encurtando muito o campo para os oponentes.
Com esse 11 inicial, tendo a presença de um goleiraço como Donnarumma e grandes promessas no banco como Zaire-Emery, Barcola e Gonçalo Ramos, o jovem elenco do PSG acreditou na filosofia de Luis Enrique, comprou a ideia do treinador, não demonstrou nenhum tipo de vaidade e se tornou um campeão dominante, deixando pelo caminho timaços como Liverpool, Arsenal e a Inter.
Luis Enrique mostrou ao mundo que o coletivo é mais bonito e eficiente que o individual, dando aula de como ter um time na mão e saber retirar o melhor de cada jovem talento, moldando não só a equipe, como cada jogador.
O investimento mais correto é na juventude
O Paris Saint-Germain tem um dos elencos mais jovens conquistar a Champions League, para se ter uma ideia, em todo o plantel só existe um jogador com mais de 30 anos: o zagueiro Marquinhos (31).
Isso mostra a predileção de Luis Enrique pelos jovens, mas a filosofia do PSG não era essa. O time queria sempre buscar jogadores consagrados, independente da idade, mas essa mudança foi fundamental.
As contratações de Kvaratskhelia, Doué, João Neves e Pacho foi fundamental para o título, pois eles, juntamente com o restante dos jovens do elenco demonstraram a frieza dos mais experientes e a perfeita assimilação do que precisam fazer em campo.
Esse time de “moleques responsáveis” corre mais, tenta mais, marca mais, se empenha mais e cresce muito mais que os adversários diretos. Isso tem o dedo do técnico dentro e fora do campo, pois identificou onde o investimento deveria ser feito e o sucesso de um trabalho correto aparece com uma grande conquista.
O PSG é coletivo, mas o individual também brilha
Abordamos como o Paris Saint-Germain é coletivo e se aplica taticamente, mas o título não vem só com isso, é preciso ter jogadores capazes de fazer coisas fora de série.
E aí, se fosse seguir a meritocracia, teria que falar de cada jogador individualmente, mas vamos citar cinco destaques que representam bem os 11 iniciais e o banco.
Primeiro, o nosso Marquinhos. O zagueiro brasileiro é de uma liderança absurda. Se posiciona bem, tem entrega e é um exemplo importantíssimo para os mais jovens. Pela posição em campo, não aparece tanto como os homens de frente, mas para alguns já pode ser até apontado como o jogador mais importante da história do PSG.
No meio-campo, vale falar especialmente de Vitinha, o melhor passador da Europa. Um jogador que acha espaços como ninguém, tanto com a bola dominada como nos passes para os companheiros. Além disso, é dificílimo tirar a bola dos pés dele e a visão de jogo é realmente um superpoder.
Outro que merece a citação é Kvaraskhelia. Depois de machucar a Inter quando atuava pelo Napoli, o “Maradona da Georgia” machucou de novo, desfilando habilidade e objetividade, fazendo lances difíceis se tornarem fáceis. Ele é daqueles jogadores que quando a bola chega, quase sempre sai algo de perigo para o adversário.
Mais jovem entre os titulares, Doué demonstrou uma frieza admirável. Parecia que o atacante do PSG estava jogando bola com amigos, caindo pelos lados, driblando, finalizando e se sentindo a vontade diante de uma das defesas mais fortes da Europa. É difícil prever o teto deste garoto, que pode rapidamente se tornar uma estrela e rivalizar no futuro com o craque do Barcelona, Lamine Jamal.
E, para finalizar, é impossível falar desse Paris Saint-Germain campeão sem citar Dembélé. O atacante que deixou o Barcelona sem deixar saudades, assumiu o papel de protagonista num PSG que no passado recente tinha Messi, Neymar e Mbappé. Dembélé se tornou um jogador tático, que flutua durante todas as posições do ataque, criou mais visão de jogo, melhorou a finalização e deixou de ser um driblador pela ponta, para se tornar um jogador completo, capaz de liderar um campeão da Champions League.

A força mental é fundamental
Os fracassos e expectativas não confirmadas do passado formou uma casca nos dirigentes e torcedores do Paris Saint-Germain. O time que investiu em medalhões durante boa parte da sua história, resolveu sua vida com um técnico que superou a pior dor que um ser-humano pode ter e, principalmente, aprendeu a trabalhar não só o próprio mental, como o de seus comandados.
O capitão Marquinhos, que viveu a era dos fracassos europeus e dos plantéis repletos de estrelas, declarou como o treinador consegue trabalhar o mental dos atletas como ninguém e como esse grupo tem um ambiente leve e responsável ao mesmo tempo.
A pressão de outros elencos não existia sobre esse, por conta da expectativa ser mais baixa. Esse fator deu tranquilidade aos garotos e deixou que a pilha viesse apenas de Luis Enrique. Jogar como azarão contra o Liverpool, adversário mais difícil da trajetória para o título, foi fundamental para vencer. E, falando deste desafio em especial, a vitória nos pênaltis mostrou que o mental dos meninos estava em dia.
Essa força mental e tranquilidade para trabalhar foi clara na final, com o time pressionando, jogando à vontade e mostrando que a forma de jogar não mudaria de forma alguma, o que demonstrou uma clara confiança no trabalho e nos ensinamentos do experiente treinador. Foi uma aula de plano de jogo também.
O PSG veio para ficar
O título da Champions League representa uma mudança de patamar. O que aconteceu com o Manchester City de Josep Guardiola, acontece agora com o PSG de Luis Enrique, mas com uma diferença clara: esse time tem potencial para buscar uma dinastia.
Tudo o que já foi dito por conta da juventude do elenco do PSG, faz com que o time entre como um dos principais favoritos em todas as competições nos próximos, pois já tem o material humano, dinheiro para manter os jogadores e possibilidade de seguir melhorando seu plantel dentro desta nova filosofia.
O torcedor que está fazendo uma festa inesquecível em Paris pode se preparar por mais, pois o time do quase hoje faz parte da prateleira dos campeões de forma merecida.
Hoje vimos a história ser escrita com tinta forte, com o vermelho do sangue quente do treinador espanhol que passou para os jogadores, do branco da tranquilidade que esses atletas demonstraram num jogo deste tamanho e o azul do céu, que neste momento, é o limite para esse projeto que encontrou um caminho espetacular. Esse elenco merece todas as felicitações possíveis, pois o que aconteceu em Munique foi um feito e tanto. Novamente, Allez Paris!
(Imagem de capa: X)