A Juventus não tem problema de dinheiro. Tem problema de ideia. E, olhando para os últimos anos, dá pra dizer sem medo: também tem problema de execução, porque a situação é bem problemática, sem pesquisar muito, quando vai mais a fundo, a parada fica mais estranha ainda.
Desde 2020, quando conquistou seu último título da Serie A, o clube entrou em um ciclo que mistura investimento pesado, decisões questionáveis e resultados bem abaixo do esperado. E o número que resume tudo isso é quase absurdo: 875 milhões de euros gastos em contratações nos últimos seis anos.
Sim, você leu certo. Oitocentos e setenta e cinco milhões. E o que veio em troca? Nenhum scudetto.
Muito dinheiro, pouca entrega
Depois da era dominante, nove títulos seguidos e um elenco que girava em torno de Cristiano Ronaldo, a Juventus simplesmente perdeu o rumo. Não foi uma queda abrupta, daquelas que você vê chegando. Foi mais um desmanche constante, quase silencioso, mas extremamente caro.
Desde então, a equipe terminou uma vez em terceiro, três vezes em quarto, chegou a ser apenas sétima colocada e, atualmente, ocupa posições intermediárias, longe de brigar com consistência pelo título. Na Champions League, o cenário também não empolga: eliminações frequentes nas oitavas de final e nenhuma campanha realmente marcante.
Ou seja: gastou muito… e entregou pouco.
O problema não é investimento é como ele é feito
Existe uma narrativa comum entre torcedores de que falta investimento. No caso da Juventus, isso não se sustenta. O clube foi amplamente bancado por seus acionistas, especialmente a Exor, que realizou diversas injeções financeiras desde 2019, totalizando quase 1 bilhão de euros em recapitalizações.
Dinheiro nunca faltou. O problema é como ele foi utilizado.
A Velha Senhora virou um clube que compra muito, troca muito, muda muito e acerta pouco. É um ciclo de montagem e desmontagem de elenco que parece não ter direção clara. Cada nova gestão tenta uma ideia diferente, mas nenhuma consegue dar continuidade ao trabalho.
Passaram nomes importantes pela estrutura do clube, como Andrea Agnelli, Fabio Paratici, Maurizio Arrivabene, Maurizio Scanavino e, mais recentemente, dirigentes como Cristiano Giuntoli e Damien Comolli. Estratégias diferentes, discursos diferentes… resultados parecidos. E todos abaixo do que a Juventus exige.
Juventus com seus erros repetidos e caros
O mais impressionante nessa história é a repetição dos erros. Não foi um investimento mal feito isolado. Foram vários. E, em muitos casos, envolvendo cifras altíssimas.
Em 2020, a Juventus apostou pesado em Arthur Melo, em uma negociação que envolveu troca com Miralem Pjanić. No papel, parecia interessante. Em campo, nunca se justificou.
Logo depois, vieram contratações como Federico Chiesa, que teve bons momentos, mas sofreu com lesões, e principalmente Dušan Vlahović, contratado por cerca de 85 milhões de euros. Um investimento enorme que, até aqui, não teve retorno proporcional. E a lista continua.
Manuel Locatelli custou cerca de 35 milhões. Teun Koopmeiners, Douglas Luiz e Nicolás González chegaram com expectativa alta e desempenho bem abaixo. Jogadores caros que não mudaram o nível da equipe.
Enquanto isso, decisões questionáveis também apareceram no sentido contrário. O clube vendeu jovens promissores por valores relativamente baixos, como Huijsen, que posteriormente foi negociado por cifras muito maiores em outro contexto.
Ou seja: erra quando compra e também quando vende.
Um raro acerto em meio ao caos
Em meio a tantas decisões discutíveis, poucos nomes realmente se salvaram. Um deles é Gleison Bremer, que correspondeu às expectativas e se firmou como um dos pilares defensivos da equipe. Mas um acerto isolado não sustenta um projeto. E esse é exatamente o ponto.
A situação da Juventus fica ainda mais evidente quando comparada aos concorrentes diretos. Enquanto o clube acumulou um saldo negativo de cerca de 400 milhões de euros em transferências, equipes como Milan, Napoli e Inter de Milão gastaram menos e ganharam mais, fazendo com que a conta não feche, ou melhor, não faça sentido.
Nos últimos anos, esses clubes dividiram títulos, cresceram esportivamente e conseguiram construir elencos mais equilibrados. A Juventus, por outro lado, seguiu gastando… sem evoluir.
O retrato de um clube sem direção
No fim das contas, o problema da Juventus não é falta de dinheiro, nem falta de nome, nem falta de estrutura. É falta de coerência.
O clube parece preso em um ciclo onde cada temporada começa do zero. Não há continuidade, não há identidade clara e, principalmente, não há retorno esportivo compatível com o investimento feito.
E isso, para um time que dominou o futebol italiano por quase uma década, pesa e muito.
Porque gastar 875 milhões e não conseguir sequer disputar o título com consistência não é só um erro.
É um projeto inteiro que precisa ser repensado.
Foto: Stefano Guidi/Getty Images