Khusanov Manchester City
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Como Khusanov deu a volta por cima no Manchester City e se tornou uma peça-chave para Guardiola?

Quando Abdukodir Khusanov estreou pelo Manchester City, em janeiro de 2025, a sensação era de que o peso da camisa tinha caído inteiro sobre os ombros do jovem zagueiro. Contratado por £33 milhões, cercado de expectativa e lançado diretamente em um jogo grande contra o Chelsea, o defensor precisou de apenas quatro minutos para viver um pesadelo: falhou feio no lance que originou o gol adversário e, pouco depois, ainda recebeu cartão amarelo. Era o pior roteiro possível para quem acabava de chegar ao atual campeão inglês.

E como é de praxe, os Cityzens viviam com fortes problemas defensivos na época, e o atleta foi contratado para ser uma solução neste cenário. Só que no caso, precisava de mais tempo para desabrochar, crescer no ambiente de Premier League, algo que não ocorreu.

Naquele momento, muitos questionaram se o uzbeque de 21 anos estava pronto para o salto. Gary Neville admitiu que “deu vontade de chorar pelo garoto”. Semanas depois, após uma atuação insegura na derrota para o Real Madrid pela Champions League, o ex-goleiro Paul Robinson afirmou que ele parecia “um coelho diante dos faróis”. A crítica era pesada, pública e direta, difícil ouvir isso e continuar vivendo normalmente.

O que poucos imaginavam é que, meses depois, o mesmo jogador seria tratado por Pep Guardiola como “um atleta de nível máximo” e se consolidaria como peça importante em um Manchester City que segue vivo em todas as competições da temporada.

Uma ascensão meteórica

A trajetória de Khusanov ajuda a dimensionar o tamanho do desafio que ele enfrentou. Em um intervalo de apenas três anos, o defensor saiu da primeira divisão da Bielorrússia para a Premier League. Teve uma passagem sólida pelo Lens, da França, mas logo foi resgatado pelos Sky Blues. A questão é que, não teve um empréstimo, ou uma oportunidade de viver um degrau abaixo, caiu na jaula dos leões de imediato. Foi direto para um dos ambientes mais exigentes do futebol mundial.

Além disso, tornou-se o primeiro jogador do Uzbequistão a atuar na elite do futebol inglês, um marco histórico para seu país. No próximo verão europeu, ele ainda terá a oportunidade de disputar a Copa do Mundo, representando sua seleção. Então, sua vida está conquistando bons episódios, tudo ao mesmo tempo.

Chegar a Manchester já seria um choque cultural por si só. Chegar com pouca fluência em inglês, precisando assimilar rapidamente conceitos táticos complexos e ainda lidar com a pressão de substituir nomes como Rúben Dias, Gvardiol e John Stones em momentos de lesão, tornava o cenário ainda mais desafiador para Khusanov.

A resposta, no entanto, veio dentro de campo.

Números que sustentam a evolução

Depois do início turbulento, Khusanov encontrou estabilidade dentro das quatro linhas, soube que o tempo curaria e ajudaria tudo. Até aqui, soma 22 partidas na temporada em todas as competições e participou de vitórias importantes, como os triunfos sobre Manchester United e Newcastle, além da virada marcante sobre o Liverpool em pleno Anfield.

Seu principal atributo é a velocidade, algo que, no sistema de Guardiola, tem valor estratégico enorme. O zagueiro já atingiu 22 mph (cerca de 35 km/h) nesta temporada, a sexta maior marca entre defensores da Premier League. Mais do que ser rápido, ele utiliza essa característica com frequência: registra média de 17,85 sprints por 90 minutos, o maior número entre zagueiros da liga.

Defensivamente, também apresenta números sólidos: 17 desarmes e 18 interceptações, figurando entre os líderes do elenco nesses quesitos. Em um período em que o City sofreu com ausências importantes na defesa, sua presença foi fundamental para manter o nível competitivo da equipe. Então, dá para dizer que o tempo de crescer chegou para Khusanov, e aí estão frutos.

O reconhecimento veio em janeiro, quando foi eleito o jogador do mês do clube, uma reviravolta significativa para quem começou sob desconfiança.

Peça-chave na linha alta

Taticamente, Khusanov se encaixa de forma quase ideal na proposta atual do Manchester City. A equipe adota uma linha defensiva alta e uma pressão agressiva na saída de bola adversária, estratégia que exige defensores capazes de recuperar terreno rapidamente caso a primeira linha de pressão seja superada. Sem esquecer também, da qualidade para sair com os pés desde a sua própria área.

Quando o assunto se encontra nas linhas altas, aí que a velocidade do uzbeque faz diferença. Sua capacidade de correr para trás e neutralizar lançamentos longos permite que o City pressione com mais intensidade e com menos jogadores resguardando a defesa. Isso aumenta o controle territorial da equipe e reduz as opções do adversário para escapar da pressão.

Mas reduzir Khusanov à força física seria simplificar demais seu jogo. Guardiola fez questão de destacar que ele combina físico e inteligência. O defensor demonstra boa leitura para decidir quando sair no confronto direto e quando recuar para proteger espaços mais perigosos. Essa maturidade, incomum para alguém da sua idade, tem sido determinante para sua consolidação.

A confiança reconstruída

É verdade que, em alguns momentos, ainda há certo nervosismo da torcida quando ele recebe a bola pressionado na saída. A memória da estreia não desaparece facilmente, pode ser um ponto a ser pensado sempre, para não viver algo semelhante no futuro, um mantra. No entanto, não dá para negar que a evolução técnica e emocional do jogador é evidente.

Superar um início tão negativo em um clube do tamanho do Manchester City exige resiliência. Muitos jovens atletas se perdem após erros marcantes em seus primeiros jogos. Khusanov escolheu outro caminho: trabalhou, assimilou as orientações da comissão técnica e respondeu com desempenho. Deixou para trás todos os problemas, e seguiu seu caminho de cabeça levantada.

Guardiola também tem sido peça importante nesse processo, oferecendo respaldo público e destacando constantemente o potencial de Khusanov. Ao afirmar que o City tem um defensor “para muitos e muitos anos”, o treinador não apenas elogia, ele sinaliza confiança no projeto de longo prazo.

Khusanov foi de promessa a realidade

A temporada ainda reserva desafios importantes, com o Manchester City disputando títulos em todas as frentes. A tendência é que Khusanov siga sendo exigido em jogos grandes, enfrentando atacantes de elite e cenários de alta pressão.

Se no início ele foi visto como um risco, hoje é considerado parte da solução. A trajetória do jovem uzbeque mostra como o futebol de alto nível pode ser implacável, mas também oferece espaço para recuperação rápida a quem tem talento e mentalidade.

De uma estreia marcada por erros a uma consolidação como titular em uma das equipes mais exigentes da Europa, Khusanov transformou a narrativa ao seu redor. E, se mantiver o ritmo de crescimento, o episódio dos primeiros quatro minutos em campo será apenas uma nota de rodapé em uma carreira que promete ser longa em Manchester.

Foto: Getty Images