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Futebol

Jürgen Klopp não pode resolver todos os problemas da seleção alemã, e a culpa não é dele

A Alemanha precisa de muito mais do que um novo treinador para recuperar seu protagonismo no futebol mundial. A chegada de Jürgen Klopp à seleção nacional criou a expectativa de uma transformação imediata, mas os primeiros resultados e as escolhas para a segunda convocação do técnico mostram que o principal problema está longe de se limitar à comissão técnica. O comandante tem experiência, capacidade de liderança e histórico de sucesso em grandes clubes, mas enfrenta uma dificuldade que nenhum trabalho tático consegue solucionar sozinho: a seleção alemã já não dispõe da mesma quantidade de jogadores de elite que caracterizou suas principais gerações.

A diferença entre o momento atual e o passado recente ficou evidente na mudança de abordagem de Klopp. Depois de assumir o cargo na sequência de mais uma decepção alemã em uma Copa do Mundo, o treinador convocou 44 jogadores durante a primeira Data Fifa para observar diferentes alternativas. A lista extensa funcionou como uma espécie de diagnóstico inicial, permitindo avaliar atletas experientes, nomes menos conhecidos e jovens que poderiam ganhar espaço no futuro. O resultado, no entanto, não foi animador: Klopp venceu apenas uma das quatro primeiras partidas e percebeu rapidamente as limitações do grupo disponível.

Para a segunda convocação, com apenas dois compromissos no calendário, o treinador reduziu a lista para 24 nomes e adotou critérios mais próximos de uma seleção competitiva. A reação positiva às escolhas foi importante, principalmente porque algumas decisões anteriores de Julian Nagelsmann haviam provocado questionamentos. A ausência de Karim Adeyemi e Nick Woltemade, assim como a presença do jovem Wael Mohya, de 17 anos, e o retorno de Niclas Füllkrug, de 33, geraram debates, mas não impediram uma avaliação geral favorável.

O aparente acerto da convocação, porém, não resolve a questão central. Klopp pode organizar melhor a equipe, recuperar jogadores e encontrar alternativas dentro do elenco, mas não consegue criar uma geração de craques apenas com decisões de escalação. A Alemanha atravessa um período em que a qualidade individual de seus principais jogadores está distante daquela apresentada por outras potências europeias, e essa diferença limita o potencial da seleção.

A Alemanha perdeu profundidade em comparação com as principais potências europeias

O problema mais evidente está na dificuldade de encontrar jogadores que estejam entre os melhores do mundo em suas respectivas posições. Espanha, França e Inglaterra possuem atletas capazes de decidir partidas em clubes de elite e formar equipes com qualidade individual distribuída por praticamente todos os setores. A Alemanha, por outro lado, depende de um grupo menor de jogadores diferenciados e de jovens que ainda precisam demonstrar regularidade no mais alto nível.

Jamal Musiala é o exemplo mais claro dessa limitação. Quando está em boas condições físicas, o meia do Bayern possui talento para figurar entre os melhores jogadores do planeta e oferecer à seleção uma capacidade de criação que poucos atletas conseguem reproduzir. O problema é que sua sequência de lesões tem dificultado a continuidade de seu desenvolvimento, impedindo Klopp de contar regularmente com aquele que poderia ser o principal diferencial técnico da equipe.

Florian Wirtz é outra situação delicada. O meia chegou ao Liverpool com expectativas elevadas, mas atravessa um período de rendimento muito abaixo do potencial demonstrado anteriormente. A falta de confiança e a dificuldade para encontrar regularidade no futebol inglês tornam sua situação particularmente importante para a seleção, que precisa de um jogador capaz de assumir a responsabilidade pela criação ofensiva. Klopp não pode simplesmente abrir mão de Wirtz, porque o talento do meia continua sendo necessário, mesmo que sua versão atual esteja distante do melhor nível.

A próxima geração também oferece motivos para esperança, mas ainda não apresenta garantias. Lennart Karl e Aleksandar Pavlovic são dois exemplos de jogadores com potencial para ocupar posições importantes na Alemanha durante os próximos anos. O primeiro, apesar de suas qualidades, ainda encontra dificuldades para conquistar espaço regularmente no Bayern. Pavlovic, por sua vez, alterna boas atuações com momentos de irregularidade e precisa demonstrar que consegue sustentar um nível elevado ao longo de uma temporada.

Entre os jogadores mais experientes, Kai Havertz, Joshua Kimmich e Nico Schlotterbeck aparecem como nomes capazes de oferecer qualidade. São atletas que podem atingir um nível de excelência em boas condições, mas a seleção precisa de um conjunto mais amplo de jogadores desse perfil para competir com as principais equipes do continente.

Essa é a diferença fundamental em relação às concorrentes. Espanha, França e Inglaterra não dependem de um único talento para sustentar suas ambições. Mesmo quando enfrentam ausências importantes, conseguem encontrar substitutos que atuam em grandes clubes e possuem experiência em decisões de alto nível. A Alemanha, neste momento, não demonstra a mesma profundidade.

Klopp precisa recuperar jogadores e acelerar o desenvolvimento da nova geração

O desafio do treinador será encontrar uma maneira de aproveitar melhor os recursos disponíveis enquanto trabalha para desenvolver uma equipe capaz de competir com adversários mais qualificados individualmente. A experiência de Klopp em clubes como Borussia Dortmund e Liverpool oferece motivos para acreditar que ele pode melhorar o funcionamento coletivo da Alemanha, mas a seleção precisa de soluções que vão além da organização tática.

O primeiro objetivo passa pela recuperação de Musiala e Wirtz. Se os dois conseguirem atingir novamente o nível que demonstraram em seus melhores momentos, a Alemanha terá uma base técnica muito mais interessante para construir seu ataque. Musiala oferece capacidade de drible, condução e desequilíbrio em espaços reduzidos, enquanto Wirtz pode organizar as jogadas, encontrar passes entre linhas e participar diretamente da criação de oportunidades.

Kimmich também deve ter papel importante nesse processo, principalmente pela experiência e pela capacidade de organizar o meio-campo. Havertz, dependendo de sua condição física e do posicionamento escolhido pelo treinador, pode oferecer alternativas no ataque e na construção ofensiva. O problema é que a seleção não pode depender de todos esses jogadores estarem simultaneamente em sua melhor versão para conseguir competir.

A integração dos jovens será outro ponto decisivo. Karl e Pavlovic possuem características que podem ajudar a construir uma equipe mais competitiva no futuro, mas precisam de tempo e continuidade para amadurecer. A convocação de Wael Mohya também demonstra que Klopp está disposto a observar jogadores de diferentes idades, embora a presença de um adolescente na seleção principal não deva ser interpretada como uma solução imediata para os problemas do país.

O treinador precisará equilibrar a necessidade de resultados com a construção de uma equipe para o futuro. A Alemanha não pode transformar cada convocação em um experimento, especialmente depois de sucessivas decepções em competições internacionais, mas também não pode ignorar jogadores que representam possibilidades de renovação. O trabalho exige identificar quem realmente está preparado para contribuir no presente e quem precisa de mais tempo para alcançar o nível exigido.

O treinador não pode ser responsabilizado por uma geração que ainda não está pronta

A contratação de Klopp naturalmente elevou as expectativas em torno da seleção alemã. Seu histórico de conquistas, a capacidade de desenvolver jogadores e a experiência em ambientes de enorme pressão fazem dele um nome capaz de reorganizar uma equipe que perdeu parte de sua identidade competitiva. Entretanto, existe uma diferença entre melhorar um grupo e transformá-lo em uma seleção favorita aos principais títulos.

O treinador pode estabelecer uma estrutura de jogo mais eficiente, melhorar a intensidade da equipe e encontrar combinações que valorizem os melhores jogadores. Também pode recuperar a confiança de atletas que atravessam momentos difíceis e acelerar o desenvolvimento de jovens promessas. Nenhuma dessas possibilidades, contudo, garante que a Alemanha consiga acompanhar o nível individual de Espanha, França e Inglaterra.

A comparação com o trabalho de Nagelsmann ajuda a compreender o problema. O antecessor cometeu erros de escolha e teve decisões questionáveis durante sua passagem, mas seria simplista atribuir a ele a responsabilidade pelas dificuldades estruturais da seleção. A falta de profundidade e a ausência de jogadores em condições de decidir partidas contra adversários de elite não desapareceriam automaticamente com a chegada de outro comandante.

Klopp não é um treinador capaz de transformar limitações individuais em talento de primeira linha. Seu trabalho pode fazer a Alemanha render acima da soma de suas partes, mas existe um limite para o que a organização coletiva consegue compensar. Se os principais concorrentes possuem jogadores mais decisivos, mais experientes e em melhor momento, a diferença tende a aparecer nos confrontos de maior exigência.

O ciclo até a próxima Copa do Mundo será, portanto, um período de reconstrução e avaliação. A Alemanha precisa recuperar seus principais talentos, desenvolver os jovens e encontrar uma identidade coletiva que permita competir mesmo sem contar com a mesma quantidade de estrelas de outras gerações. Se Karl e Pavlovic realmente representarem o início de uma nova geração de alto nível, o cenário poderá mudar nos próximos anos. Caso contrário, Klopp terá de trabalhar com um elenco que apresenta limitações difíceis de superar.

A chegada do treinador pode representar o começo de uma reorganização importante, mas não deve ser confundida com uma solução imediata. A Alemanha contratou um comandante experiente para recuperar sua competitividade, não alguém capaz de resolver sozinho os problemas de formação, desenvolvimento e renovação de talentos do futebol nacional. Klopp pode melhorar a seleção, mas a responsabilidade por devolver o país à elite europeia precisa ser compartilhada por todo o sistema que produz seus jogadores.

(Foto: Getty Images)