Embora as manchetes do jogo do Flamengo tenham se voltado para a arbitragem, vimos uma tendência interessante acontecendo: a presença de laterais na área. Na vitória rubro-negra contra o Estudiantes pela Libertadores, Guillermo Varela marcou um golaço de voleio pisando na área, como um lateral moderno, em uma tendência que está cada vez mais forte e difundida no futebol.
O que começou como uma posição quase exclusivamente defensiva, restrita à marcação dos pontas adversários, se tornou um papel híbrido, capaz de decidir jogos no campo ofensivo e, mais recentemente, dentro da própria área rival. A evolução de “laterais pisando na área” mostra como o jogo mudou, passando de restrições rígidas a um cenário em que a criatividade e a surpresa são parte do planejamento tático.
Os primórdios: Brasil muda o conceito dos laterais
Nos primórdios, entre os anos 1930 e 1950, o lateral era, na prática, um zagueiro deslocado para o lado. No sistema WM, popularizado por Herbert Chapman no Arsenal, os chamados full-backs não tinham autorização para cruzar a linha do meio-campo. Sua única missão era marcar os atacantes de ponta, anulando qualquer tentativa de jogada pelas beiradas. Nomes como Eddie Hapgood, ídolo do Arsenal e da seleção inglesa, representavam essa escola de laterais fixos, que jamais poderiam aparecer na área adversária sem que isso fosse interpretado como erro posicional.
Essa lógica começou a mudar nos anos 1950, especialmente com o surgimento do futebol brasileiro ofensivo. Na Copa do Mundo de 1958, Nilton Santos mostrou ao mundo que um lateral poderia ser mais do que um marcador. Ainda que sua função principal fosse defensiva, Nilton tinha liberdade para apoiar no sistema do Brasil.
Em uma das partidas, contra a Áustria, avançou pelo meio, driblou para dentro e finalizou com sucesso, um gesto impensável para a época. Foi um momento simbólico: o lateral poderia sim ser protagonista no campo adversário, ainda que de forma ocasional.
Nos anos 1970, essa tendência ganhou corpo. Carlos Alberto Torres, capitão da seleção brasileira, tornou-se a imagem do lateral moderno. No histórico gol da final da Copa de 1970 contra a Itália, ele surgiu como finalizador, coroando uma jogada coletiva que ficou eternizada como uma das mais bonitas da história.
A presença de um lateral no terço final já não era mais acidente, mas consequência de um estilo de jogo ofensivo. Ainda assim, a chegada na área era esporádica, geralmente em transições rápidas, com foco maior em cruzamentos pela linha de fundo do que em infiltrações internas.
A consolidação: o lateral como um ativo tático no ataque
Na década de 1980 e início dos anos 1990, alguns laterais começaram a ir além. Branco e Júnior, no Brasil, não apenas apoiavam, mas buscavam finalizar de fora ou dentro da área. Na Europa, Andreas Brehme, campeão mundial com a Alemanha em 1990, foi o exemplo clássico: canhoto, fazia diagonais para dentro e tinha finalização poderosa. Stuart Pearce, na Inglaterra, representava essa nova cara, com laterais cada vez mais agressivos. Mas, mesmo nesse contexto, entrar na área ainda era mais resultado de iniciativa individual do que de um plano coletivo estruturado.
O verdadeiro salto tático só aconteceria com Pep Guardiola no Barcelona entre 2008 e 2012. Até então, laterais ofensivos se limitavam ao corredor lateral. Guardiola reinventou a função, criando os chamados laterais invertidos. Dani Alves, um dos expoentes desse sistema, não apenas cruzava ou apoiava: ele entrava por dentro, circulava com os meias e criava superioridade numérica no meio.
Abidal, pela esquerda, cumpria papel semelhante, embora mais contido. A presença na área ainda não era prioridade, mas a mudança abriu o caminho para que os laterais passassem a ser vistos como peças centrais no sistema ofensivo.
Nos anos 2010, a ideia se refinou. Jürgen Klopp, no Liverpool, transformou Alexander-Arnold e Robertson em laterais construtores, criadores de jogadas pelos corredores, responsáveis por assistências e pelo controle ofensivo. Guardiola, no Manchester City, levou a proposta ainda mais longe. Zinchenko, João Cancelo e até Kyle Walker passaram a se posicionar como meio-campistas em fase ofensiva, abrindo espaço para mecanismos específicos em que os laterais apareciam dentro da área. João Cancelo foi o maior símbolo disso, atuando como verdadeiro segundo atacante em diversas partidas, surgindo na área como elemento surpresa.
Essa tendência, no entanto, teve uma época de uso menor. Com a chegada de nomes como Erling Haaland e Kylian Mbappé, atacantes rápidos e fortes fisicamente que conseguiam machucar em transição, os times se tornaram mais cautelosos com a transição, o que, quase sempre, colocava um lateral como um terceiro zagueiro. Com a exceção de times que jogavam com três zagueiros, o lateral pisando na área virou uma raridade.
O PSG e a ressurgência dos “late-meias”
Hoje, essa lógica já é parte do repertório de clubes de elite. O lateral que entra na área deixou de ser acidente ou improviso para se tornar plano de jogo. Um exemplo claro disso é o PSG campeão da Champions League. Achraf Hakimi marcou um dos gols da goleada contra a Inter na final da competição pisando na área como um segundo atacante. O mesmo aconteceu com Nuno Mendes, do outro lado.
Com isso, o futebol europeu relembrou a importância desse tipo de jogador, e vários clubes já começaram a fazer a famosa “saída lavolpiana” e segurar o primeiro volante para liberar os laterais. No caso do Flamengo contra o Estudiantes, a presença ofensiva de Varela como um meia se deu principalmente pela falta de perigo ofensivo dos argentinos. No entanto, Filipe Luís gosta de liberar os seus laterais e deixar pelo menos um dos meias para montar uma linha de três defensores.
A linha do tempo é clara: em menos de um século, os laterais passaram de marcadores fixos a infiltradores decisivos. Nilton Santos ousou, Carlos Alberto consagrou, Brehme e Júnior aprofundaram, e Guardiola transformou a lógica em sistema. O que antes era visto como erro hoje é parte essencial de equipes que dominam o cenário europeu. O futebol se reinventa o tempo todo, mas talvez poucas transformações sejam tão simbólicas quanto a dos laterais que aprenderam a pisar na área — e a decidir jogos a partir daí.
(Foto: AP Foto/Christophe Ena)