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Lesão de Jokić abre caminho para Shai ser o MVP e entrar para a história

Os dois primeiros meses da temporada 2025/26 da NBA desenhavam um cenário raríssimo, talvez irrepetível. Nikola Jokić e Shai Gilgeous-Alexander protagonizavam uma disputa de MVP que não apenas dominava o presente, mas dialogava diretamente com a história da liga. Os números eram absurdos, dignos de comparações com as maiores temporadas individuais de todos os tempos. No entanto, como tantas narrativas do esporte, essa também foi redefinida por um fator incontrolável: a lesão.

Até o momento da hiperextensão no joelho sofrida por Jokić, o que se via era um embate entre dois jogadores operando em um patamar estatístico quase inalcançável para o restante da liga. O sérvio estava no ritmo para quebrar recordes históricos de métricas avançadas como PER, BPM e Win Shares por 48 minutos. Liderava a NBA em rebotes e assistências e flertava com algo jamais visto: uma temporada 60-40-90 em aproveitamento de arremessos.

Do outro lado, Shai Gilgeous-Alexander comandava um Oklahoma City Thunder avassalador, projetado para vencer 70 jogos, enquanto figurava entre os maiores desempenhos ofensivos da história em eficiência, impacto e volume.

Era, sem exagero, uma disputa que colocava frente a frente duas das maiores temporadas individuais já registradas em apenas dois meses de competição. Ainda assim, o regulamento moderno da NBA, especialmente a exigência mínima de 65 jogos para elegibilidade a prêmios individuais, transformou a corrida em algo quase decidido antes mesmo da metade do campeonato.

A lesão de Jokić o tira da briga pelo MVP e abre caminho para Shai

A lesão de Jokić, embora não tenha sido devastadora a ponto de encerrar sua temporada, é praticamente fatal para suas chances de MVP. Com um mês fora e uma agenda de janeiro repleta de back-to-backs, o sérvio caminha para ultrapassar o limite de ausências permitido. Mesmo que retorne antes do prazo máximo, qualquer gerenciamento de carga adicional o colocaria automaticamente fora da disputa. É um retrato cruel da NBA contemporânea: a durabilidade, mais do que nunca, é um critério tão decisivo quanto o desempenho.

Isso não diminui o impacto de Jokić nem apaga o que ele vinha construindo. Pelo contrário, reforça o quão extraordinária era sua campanha. Mas, na prática, abre uma avenida quase livre para Gilgeous-Alexander. Não porque o canadense precise de ajuda, mas porque o abismo estatístico entre ele e o restante dos candidatos elegíveis é gigantesco.

As métricas avançadas deixam isso claro. Shai lidera a liga em EPM, a estatística com maior histórico preditivo para MVP, e o faz com vantagem confortável. Seu BPM está entre os dez maiores da história da NBA, enquanto nenhum outro jogador ativo nesta temporada sequer se aproxima desse patamar. Em Win Shares por 48 minutos, a distância para o segundo colocado elegível é quase constrangedora.

Traduzindo para uma linguagem mais simples: Gilgeous-Alexander é o segundo maior pontuador da liga, o jogador mais impactante segundo praticamente todos os modelos estatísticos modernos e o líder de um time dominante. Em condições normais, isso já encerraria qualquer debate.

O que torna essa possível conquista ainda mais significativa é o contexto histórico. Caso confirme o prêmio, Shai se juntará a um grupo extremamente seleto de jogadores que conquistaram múltiplos MVPs antes dos 28 anos. É uma lista que inclui nomes como Michael Jordan, LeBron James, Kareem Abdul-Jabbar e o próprio Jokić. Não se trata apenas de reconhecimento individual, mas de uma chancela definitiva de grandeza.

Shai pode entrar entre os grandes da NBA

O próximo obstáculo, naturalmente, será a narrativa. A história recente mostra que a liga tende a resistir a coroar três MVPs consecutivos, algo que não acontece desde Larry Bird. Mesmo lendas como Jordan e LeBron esbarraram nesse bloqueio simbólico. Ainda assim, o cenário de Oklahoma City sugere que Gilgeous-Alexander terá oportunidades recorrentes. O Thunder é jovem, profundo, bem gerido e parece construído para dominar a temporada regular por anos. Isso mantém Shai no centro das discussões não apenas agora, mas durante todo o auge de sua carreira.

Há também um efeito colateral importante na lesão de Jokić: ela ajuda a colocar em perspectiva a grandeza de Gilgeous-Alexander. Enquanto o sérvio já é um nome consolidado entre os gigantes da história, Shai ainda constrói sua narrativa. Este possível MVP funciona como um divisor de águas. Ele não apenas valida o talento, mas redefine o status do canadense dentro da hierarquia da liga.

Não é exagero afirmar que, ao fim desta temporada, Gilgeous-Alexander terá um currículo de MVPs superior ao de Kobe Bryant e equivalente ao de Stephen Curry. E, diferentemente de muitos grandes vencedores do prêmio, ele ainda está cercado por um elenco que promete brigar por títulos por um longo período.

A corrida que prometia ser a maior de todos os tempos talvez não tenha tido o desfecho ideal em termos de confronto direto. Mas, ironicamente, ela revelou algo igualmente valioso: estamos testemunhando o auge de um jogador destinado a marcar época. Se Jokić foi o grande nome da primeira metade da década, tudo indica que o bastão está, aos poucos, passando para Shai Gilgeous-Alexander. E, desta vez, há um troféu esperando para confirmar isso.

(Foto: Kyle Phillips/AP)