Mor Talla Ndiaye Liverpool
Futebol Premier League

Liverpool amplia busca por jovens no mundo e tenta reconstruir uma das bases do seu modelo de negócio

O Liverpool percebeu que precisava voltar a produzir talentos

O Liverpool pode ter se acostumado a movimentar o mercado em outra escala. Florian Wirtz, Alexander Isak e Bradley Barcola representam contratações de enorme investimento nas últimas duas janelas, mas existe uma movimentação acontecendo em uma área muito menos chamativa e que pode ser igualmente importante para o futuro do clube.

Os Reds estão ampliando a busca por jovens talentos ao redor do mundo.

A estratégia não surgiu apenas pelo desejo de encontrar a próxima grande promessa. Existe também uma questão financeira por trás dela. Desde 2020, o Liverpool arrecadou mais de 230 milhões de libras com a venda de jogadores que passaram pela formação do clube, transformando a produção de jovens em uma peça relevante do modelo autossustentável da Fenway Sports Group.

Só que o último verão deixou um sinal de alerta.

Muitos desses jogadores foram vendidos, e o clube percebeu que precisava repor o estoque de talentos. Não basta vender bem durante alguns anos. Para que o modelo continue funcionando, é necessário manter uma nova geração chegando.

É aí que o investimento global começa a ganhar outra dimensão.

Brexit mudou o mercado e obrigou o Liverpool a procurar mais longe

O Brexit alterou profundamente a maneira como os clubes ingleses podem trabalhar com jovens estrangeiros.

As regras da Fifa restringem transferências internacionais de jogadores menores de 18 anos e, depois da saída do Reino Unido da União Europeia, os clubes da Premier League também perderam a possibilidade de contratar livremente adolescentes europeus antes dessa idade.

O efeito é direto: jovens ingleses passaram a ter ainda mais valor dentro do mercado doméstico.

Alex Inglethorpe, diretor da academia do Liverpool, reconhece que existe um “premium” sobre jogadores ingleses jovens. Para um clube que pretende continuar formando e negociando atletas, isso torna a prospecção internacional ainda mais necessária.

A lógica do Liverpool é relativamente simples. Primeiro, procura no próprio Merseyside. Depois, amplia a busca pelo território inglês. A partir de determinada idade, passa a olhar para o mercado internacional.

É uma mudança de escala sem abandonar a identidade local.

O clube continua valorizando a formação regional, mas entende que, para encontrar jogadores capazes de gerar impacto esportivo e financeiro no futuro, não pode limitar seu radar às fronteiras britânicas.

Ndiaye é o exemplo que explica a nova estratégia

A história de Mor Talla Ndiaye talvez seja o melhor retrato desse projeto.

O zagueiro senegalês começou jogando futebol nas ruas de Sandiara, passou pela Bousports Academy e depois pelo Amitie Football Club, em Thiès. O Liverpool identificou o jogador durante o Mundial Sub-17 disputado no Catar e iniciou um processo de aproximação que foi muito além de simplesmente observar vídeos.

O clube conversou com sua academia, com representantes e com pessoas próximas ao jogador. Enviou representantes ao Senegal, visitou o local onde ele treinava e conversou com sua família para entender melhor sua história e seu ambiente.

Ndiaye acabou escolhido pelo Liverpool, que pagou cerca de 1 milhão de libras, mais bônus.

O caso mostra uma característica importante da nova política do clube: encontrar o jogador é apenas uma parte do trabalho. Convencê-lo a escolher Anfield em meio à concorrência de outros clubes europeus também exige vender um projeto.

E o Liverpool tem justamente esse argumento.

A promessa não é apenas de dinheiro ou de um contrato. É a possibilidade de desenvolvimento e de um caminho até o futebol profissional.

O clube quer chegar antes que o mercado fique caro demais

O Liverpool sabe que não existem mais tantos “jogadores escondidos” no futebol moderno. Os grandes talentos são identificados cada vez mais cedo, disputados por clubes de diferentes países e acompanhados por redes de scouting cada vez maiores.

Por isso, a vantagem não está necessariamente em descobrir um jogador que ninguém conhece. Está em chegar antes dos outros.

Foi o que o clube tentou fazer com Ndiaye e também com Ifeanyi Ndukwe, outro zagueiro identificado depois do Mundial Sub-17. O austríaco, contratado por cerca de 2,6 milhões de libras, foi emprestado ao Levante enquanto busca obter autorização para trabalhar no Reino Unido.

Samuel Martinez, meio-campista colombiano de 17 anos, também escolheu o Liverpool apesar de ter recebido propostas de outros clubes, segundo seu pai.

Nem todas as disputas serão vencidas. O Arsenal, por exemplo, levou Andria Bartishvili, da Geórgia.

Mas o movimento revela algo importante: o Liverpool está disposto a disputar esse mercado de maneira agressiva.

A formação virou também uma estratégia de sustentabilidade

Existe uma diferença importante entre contratar jovens para formar um elenco e construir um sistema capaz de gerar valor continuamente. O Liverpool parece estar buscando a segunda opção.

Um jovem contratado aos 17 ou 18 anos não precisa necessariamente chegar imediatamente ao time principal. Pode passar pela equipe sub-21, ser emprestado, ganhar experiência e, posteriormente, disputar espaço em Anfield.

Se alcançar o nível esperado, o clube ganha um jogador para o elenco. Se não alcançar, ainda existe a possibilidade de valorização e venda.

Foi justamente esse mecanismo que ajudou o Liverpool a arrecadar mais de 230 milhões de libras desde 2020 com jogadores que passaram por sua formação.

O dinheiro das vendas, por sua vez, pode ser reinvestido no clube, inclusive em contratações de estrelas como as realizadas recentemente.  um ciclo.

O Liverpool investe em estrutura e scouting, desenvolve jogadores, vende parte deles por valores relevantes e utiliza esses recursos para manter a competitividade do time principal.

O desafio é fazer o talento atravessar continentes

A estratégia, porém, não termina quando o contrato é assinado.

Para um jovem que chega de Senegal, Colômbia, Áustria ou qualquer outra parte do mundo, existe um processo de adaptação que pode ser tão importante quanto o treinamento.

Idioma, alimentação, clima, cultura, escola, distância da família e até características dos campos fazem parte da experiência.

Ndiaye, por exemplo, vive com uma família anfitriã ligada ao Liverpool, algo utilizado pelo clube para ajudar jogadores que chegam de outras regiões.

O objetivo é dar tempo. E talvez essa seja uma das partes mais importantes do projeto. O Liverpool não pode esperar que um adolescente estrangeiro chegue à Inglaterra e esteja pronto para jogar na Premier League imediatamente.

O desenvolvimento precisa ser gradual.

O Liverpool está tentando construir a próxima geração antes que ela vire cara

As grandes contratações do clube chamam mais atenção porque aparecem imediatamente no time principal. Mas o investimento em jovens pode ser uma das decisões mais importantes para sustentar o Liverpool nos próximos anos.

O clube sabe que precisará continuar competindo no mercado por jogadores prontos. Ao mesmo tempo, também precisa garantir que a formação continue produzindo atletas capazes de alimentar o elenco ou gerar receitas futuras.

É por isso que o trabalho de Matt Newberry e de toda a estrutura global de scouting ganhou importância.

O Liverpool não está apenas procurando jogadores. Está tentando antecipar o mercado.

A estratégia passa por encontrar talentos em lugares onde outros clubes ainda não transformaram a prospecção em uma operação tão estruturada, oferecer um caminho claro de desenvolvimento e tentar formar uma nova geração antes que esses jogadores se tornem inacessíveis.

Ndiaye é apenas um dos primeiros exemplos. Se o projeto funcionar, alguns desses jovens chegarão a Anfield como jogadores importantes. Outros poderão ser vendidos por valores muito superiores aos investidos inicialmente.

E é justamente essa possibilidade que explica por que o Liverpool está olhando cada vez mais longe. O clube já descobriu como transformar jovens em ativos. Agora, precisa garantir que nunca faltem novos talentos para alimentar esse ciclo.

Foto: Getty Images