A transferência de Trent Alexander-Arnold para o Real Madrid representava o início de um novo capítulo para um dos laterais mais influentes de sua geração. Formado no Liverpool, o inglês construiu uma trajetória marcada por títulos, assistências e uma capacidade de criação que o diferenciava dos jogadores de sua posição. Pouco mais de um ano depois da mudança para a Espanha, porém, o cenário é bem diferente: o defensor perdeu espaço e aparece atrás de outras opções na disputa pela lateral direita.
A situação expõe o contraste entre o prestígio conquistado em Anfield e as dificuldades para encontrar estabilidade no Santiago Bernabéu. Lesões prejudicaram sua primeira temporada, enquanto as escolhas de José Mourinho ampliaram a incerteza sobre seu papel na equipe. O problema já não é apenas recuperar a condição física, mas voltar a convencer um treinador que tem demonstrado pouca confiança no futebol do inglês.
A saída do Liverpool encerrou uma história de sucesso
Alexander-Arnold chegou ao Liverpool ainda criança e passou duas décadas ligado ao clube. Sob o comando de Jürgen Klopp, tornou-se peça importante de uma equipe que conquistou oito títulos, incluindo a Champions League de 2018/19 e a Premier League de 2019/20.
Sua principal característica sempre foi a capacidade de organizar o jogo a partir da lateral. Com lançamentos longos, cruzamentos precisos e qualidade nas bolas paradas, o inglês ajudou a redefinir as expectativas ofensivas para a posição. As limitações defensivas eram alvo de críticas, mas sua contribuição na criação frequentemente compensava esses problemas.
A ascensão também o levou à vice-capitania, alimentando a expectativa de que pudesse assumir a braçadeira principal no futuro. Por isso, sua decisão de deixar o Liverpool teve um peso que ultrapassava o aspecto esportivo.
A transferência para o Real Madrid representava a oportunidade de iniciar uma nova etapa em um dos clubes mais prestigiados do mundo. Entretanto, a saída aconteceu em meio à disputa pelo título inglês na temporada 2024/25, quando a ausência de um acordo para renovar seu contrato alimentou a insatisfação de parte dos torcedores.
A mudança não apagou o legado construído em Anfield, mas elevou a cobrança sobre o lateral. Ao escolher um novo desafio, Alexander-Arnold passou a precisar demonstrar que poderia reproduzir seu impacto em outro contexto, com novas exigências táticas e concorrência por espaço.
Lesões interromperam a adaptação ao Real Madrid
A primeira temporada na Espanha foi prejudicada por problemas físicos. Depois de chegar antes da Copa do Mundo de Clubes de 2025, Alexander-Arnold enfrentou uma lesão muscular na coxa em setembro e sofreu uma nova ruptura muscular em dezembro, que o afastou dos gramados até fevereiro.
A sequência impediu que o lateral construísse continuidade justamente no período em que precisava se adaptar ao novo clube. Ao todo, segundo a reportagem da Sports Illustrated, ele disputou 30 partidas na temporada 2025/26, com cinco assistências.
O contexto coletivo também não ajudou. O Real Madrid terminou a temporada sem títulos, perdeu a liderança de La Liga, foi derrotado na final da Supercopa da Espanha e acabou eliminado da Copa do Rei. Xabi Alonso deixou o comando, e a equipe não conseguiu transformar o investimento realizado em resultados proporcionais às expectativas.
Alexander-Arnold ainda sofreu outro revés ao ficar fora da convocação da Inglaterra para a Copa do Mundo de 2026. A ausência na competição reforçou o impacto de uma temporada na qual o lateral teve poucas oportunidades para mostrar seu melhor futebol.
Mourinho amplia a concorrência e reduz o espaço do inglês
A expectativa para a temporada seguinte era de recuperação. Com Dani Carvajal deixando de representar o mesmo obstáculo na disputa por minutos, Alexander-Arnold poderia assumir maior protagonismo. A chegada de José Mourinho, entretanto, trouxe uma nova dificuldade.
O treinador passou a privilegiar Denzel Dumfries, que ganhou espaço na lateral direita. Mesmo quando o holandês apresentou dificuldades, Alexander-Arnold não conseguiu se firmar como alternativa preferencial. Em algumas partidas, sequer saiu do banco, apesar de o Real Madrid precisar de criatividade para mudar o rumo dos jogos.
A situação se tornou ainda mais significativa quando Mourinho passou a utilizar Federico Valverde na posição. Após a vitória por 4 a 1 sobre o Sevilla, o técnico justificou a escolha pela necessidade de contar com um lateral capaz de oferecer intensidade física e qualidade para apoiar Endrick.
A decisão expõe o dilema de Alexander-Arnold. Sua capacidade ofensiva continua sendo uma de suas principais virtudes, mas Mourinho parece priorizar outras características para a função. Em vez de adaptar a estrutura para explorar os passes e a visão de jogo do inglês, o treinador tem recorrido a jogadores que considera mais adequados às necessidades imediatas da equipe.
O desafio é recuperar relevância no Bernabéu
A queda de protagonismo não significa que Alexander-Arnold tenha perdido toda a qualidade que demonstrou no Liverpool. Seu histórico comprova a capacidade de influenciar partidas, especialmente quando dispõe de liberdade para participar da construção ofensiva.
O problema é que reputação não garante espaço no futebol de alto nível. Depois de uma temporada interrompida por lesões, o lateral precisa recuperar ritmo e demonstrar que consegue atender às exigências defensivas e físicas de Mourinho. Ao mesmo tempo, a falta de oportunidades dificulta a tarefa de mostrar evolução em campo.
O Real Madrid contratou um jogador capaz de oferecer características raras na posição, mas ainda não encontrou a melhor maneira de aproveitá-lo. Para Alexander-Arnold, o cenário exige uma resposta esportiva e paciência para reconstruir sua posição dentro do elenco.
A passagem pela Espanha ainda não precisa ser definida como um fracasso irreversível. No entanto, o contraste é evidente: o jogador que deixou Anfield com status de ídolo agora luta para deixar de ser a terceira opção em sua posição. Se não recuperar espaço, a transferência que deveria ampliar seu legado corre o risco de se tornar o capítulo mais frustrante de sua carreira.
Foto: Alvaro Medranda/Quality Sport Images/Getty Images



