Anfield aumenta a pressão sobre o Manchester City
Liverpool x Manchester City chegam ao confronto deste domingo com motivos para acreditar na vitória, mas também com questões que podem mudar o rumo da partida. Enquanto o time de Enzo Maresca tenta manter o início perfeito na Premier League, a equipe de Andoni Iraola defende uma invencibilidade que atravessa a mudança de comando e encontra em Anfield um cenário historicamente desfavorável ao rival.
O duelo também acontece em um contexto extracampo delicado para o City. A decisão da comissão responsável pelo caso financeiro do clube, que considerou comprovadas acusações relacionadas a violações das regras financeiras e à falta de cooperação, colocou ainda mais atenção sobre a equipe. O Manchester City contesta as conclusões e apresentou recurso, enquanto as possíveis sanções seguem indefinidas.
A partida em Anfield será o primeiro compromisso do clube após essa decisão. Não é possível afirmar que o caso terá impacto direto no desempenho dos jogadores, mas o contexto aumenta a pressão em torno de uma equipe que já terá de enfrentar um dos ambientes mais exigentes do futebol inglês.
O histórico em Anfield é um obstáculo real
Os números ajudam a dimensionar a dificuldade do Manchester City. Em 29 visitas a Anfield pela Premier League, o clube conquistou apenas três vitórias, empatou oito vezes e perdeu em 18 ocasiões. O aproveitamento de vitórias é de apenas 10,3%.
O estádio também apresenta uma das menores taxas de triunfos dos visitantes na competição. Apenas 12,5% das equipes que atuam fora de casa conseguem vencer em Anfield, um dado que reforça a dificuldade de transformar domínio técnico em resultado nesse ambiente.
O City, porém, já mostrou que pode quebrar essa tendência. Na temporada passada, venceu por 2 a 1 em Liverpool, aproveitando um período de instabilidade dos donos da casa e marcando os gols decisivos nos minutos finais. Também venceu em fevereiro de 2021, em uma partida disputada sem público por causa das restrições da pandemia.
Esses resultados impedem que o histórico seja tratado como uma sentença. Ainda assim, a sequência de confrontos mostra que o City costuma encontrar dificuldades em Anfield, onde a pressão da torcida e a intensidade do Liverpool podem alterar o ritmo do jogo.
O início perfeito do City esconde algumas fragilidades
Cinco vitórias nas cinco primeiras rodadas colocam o Manchester City na liderança, com 15 pontos, e confirmam a força de um elenco que começou a temporada com resultados expressivos. A equipe venceu o clássico contra o Manchester United por 1 a 0, mesmo depois de passar mais de uma hora com um jogador a menos, e demonstrou capacidade para resolver partidas em diferentes circunstâncias.
Os resultados, entretanto, não contam toda a história.
Em alguns jogos, o City contou com situações favoráveis e precisou sobreviver a oportunidades desperdiçadas pelos adversários. O United acertou a trave duas vezes, o Coventry perdeu chances importantes e o Bournemouth chegou a ameaçar a vitória antes de sofrer a virada nos minutos finais.
Esses episódios não anulam o mérito de uma equipe que venceu todas as partidas disputadas até aqui, mas ajudam a explicar por que o desempenho precisa ser observado com mais cuidado. O City tem sido eficiente, embora nem sempre tenha conseguido controlar os jogos com a mesma autoridade sugerida pela campanha.
Contra o Liverpool, esse detalhe pode ganhar peso. Em Anfield, permitir que o adversário encontre oportunidades claras costuma ser um risco considerável.
Os números defensivos exigem atenção de Maresca
O dado mais preocupante para o City aparece na qualidade das chances concedidas. A equipe sofreu quatro gols nas cinco primeiras rodadas e permitiu 7,25 gols esperados contra, desconsiderando pênaltis. Nesse recorte, o desempenho defensivo fica apenas na 11ª posição da liga.
O número não significa que o City tenha uma defesa ruim, mas indica que os adversários estão conseguindo chegar a situações de finalização relativamente perigosas. A média de 0,12 gol esperado por chute sofrido reforça essa leitura: o problema não está apenas na quantidade de tentativas permitidas, mas também na qualidade de algumas delas.
Há ainda um dado curioso. O Manchester City acertou a trave cinco vezes, mais do que qualquer outra equipe da competição. Isso mostra que o time tem produzido oportunidades para ampliar seus resultados, mas também lembra que os detalhes podem influenciar bastante o placar, tanto a favor quanto contra.
Maresca precisará encontrar o equilíbrio entre manter a agressividade ofensiva e reduzir os espaços oferecidos ao rival. Contra uma equipe que costuma pressionar e atacar com velocidade, qualquer desorganização pode ser aproveitada.
Donnarumma pode ser decisivo para sustentar a liderança
Se a defesa do City tem permitido chances de qualidade, Gianluigi Donnarumma vem ajudando a compensar parte desse problema. Segundo o modelo de gols esperados no alvo da Opta, o goleiro evitou 2,6 gols, ficando atrás apenas de Lukáš Horníček, do Newcastle, que registra 3,2.
O recorte considera 18 finalizações certas sofridas e uma expectativa de 6,6 gols a partir dessas conclusões. Donnarumma sofreu quatro gols nesse cenário, desempenho que evidencia sua contribuição para a campanha perfeita do City.
A atuação do goleiro pode ter importância especial em Anfield. Caso o Liverpool consiga pressionar e criar oportunidades, o City precisará de defesas que impeçam o jogo de ganhar uma dinâmica favorável aos donos da casa.
Ao mesmo tempo, depender excessivamente do goleiro não é uma estratégia sustentável. Donnarumma pode salvar a equipe em momentos decisivos, mas Maresca terá de reduzir a frequência com que o adversário chega em condições claras de finalizar.
A ausência de Isak muda o ataque do Liverpool
O Liverpool também tem problemas para administrar. Alexander Isak está fora por causa de uma lesão sofrida durante o período com a seleção, enquanto Cody Gakpo também não estará disponível. Hugo Ekitike segue como desfalque de longo prazo, o que reduz as alternativas ofensivas de Iraola.
A ausência de Isak merece atenção especial porque o atacante vinha apresentando números de finalização competitivos. Ele marcou quatro gols a partir de 3,5 gols esperados, enquanto Erling Haaland soma cinco gols com 4,4 gols esperados.
Os mapas de finalização da Opta mostram que os dois atacantes concentram boa parte de suas tentativas em regiões centrais, dentro ou próximas da área. Haaland, porém, acumulou 20 finalizações, contra 15 de Isak, indicando maior volume de participação nas conclusões do City.
Sem Isak e Gakpo, Iraola terá de encontrar outras maneiras de levar o Liverpool às zonas de finalização. A equipe pode distribuir melhor as responsabilidades entre os jogadores disponíveis, mas perde alternativas importantes para atacar a área e transformar a pressão em gols.
A questão será especialmente relevante se o City conseguir controlar a posse e obrigar o Liverpool a construir ataques mais longos. Sem suas principais opções, o time da casa precisará de movimentação coletiva e eficiência para não desperdiçar as oportunidades que conseguir criar.
Iraola e Maresca inauguram uma nova era em Liverpool x Manchester CIty
O confronto também marca uma mudança simbólica na Premier League. Será o primeiro duelo entre Liverpoolx Manchester City desde março de 2015 sem Jürgen Klopp ou Pep Guardiola no comando das equipes.
Andoni Iraola chega ao jogo com uma sequência de 26 partidas sem derrota, considerando o fim de seu trabalho no Bournemouth e os primeiros compromissos pelo Liverpool. Nesse período, soma 19 jogos pelo antigo clube e sete pelo atual, com quatro vitórias e três empates à frente dos Reds.
A invencibilidade não garante que o Liverpool esteja pronto para dominar o City, mas mostra que a mudança de treinador não interrompeu a consistência da equipe. Iraola terá agora um teste de alto nível para confirmar se o bom momento pode se sustentar contra um adversário que começou a temporada com cinco vitórias consecutivas.
Do outro lado, Maresca precisa demonstrar que o City pode manter os resultados sem depender de defesas decisivas ou de momentos de sorte. O início perfeito oferece confiança, mas o confronto em Anfield exigirá mais controle defensivo e capacidade para resistir à pressão.
O jogo reúne, portanto, duas equipes em bom momento, mas com dúvidas diferentes. O Liverpool precisa compensar ausências importantes no ataque; o City terá de provar que suas fragilidades defensivas não serão expostas em um dos ambientes mais difíceis da liga.
Em Anfield, a campanha perfeita do Manchester City estará diante de um teste que vai além dos três pontos. Para seguir na liderança, Maresca precisará transformar eficiência em controle. Iraola, por sua vez, terá de mostrar que a invencibilidade do Liverpool resiste mesmo diante de um rival que sabe punir erros.
A diferença pode estar justamente nisso: quem conseguir impor seu plano por mais tempo terá a melhor chance de vencer.
Foto: Getty Images


