Johan Cruyff costumava dizer que a tarefa mais difícil do futebol é voltar a vencer depois de já ter vencido. A frase ajuda a explicar o momento vivido pelo PSG de Luis Enrique. Depois de conquistar a Champions League pela segunda vez consecutiva e consolidar sua posição entre as principais forças do futebol europeu, o clube francês inicia uma nova temporada diante de um desafio que vai muito além de manter a qualidade técnica do elenco: impedir que o sucesso se transforme em acomodação.
O PSG chega à temporada 2026/27 com a possibilidade de alcançar um feito histórico. Se conquistar novamente a Champions League, será apenas o segundo clube a levantar o troféu em três edições consecutivas. A equipe também busca seu terceiro título seguido do Campeonato Francês, objetivos que colocam o time diante de uma pressão diferente daquela enfrentada durante sua reconstrução recente. Antes, era necessário provar que o projeto poderia funcionar. Agora, é preciso demonstrar que ele consegue continuar no topo sem perder a fome de vencer.
O início da campanha, no entanto, está longe de ser dominante na Ligue 1. O PSG aparece apenas na sexta colocação, com três vitórias, dois empates e uma derrota. Apesar disso, não existe um clima de crise em Paris. Luis Enrique já enfrentou uma largada semelhante na temporada anterior e acredita que os resultados podem melhorar à medida que a equipe encontre seu ritmo. A confiança do treinador não nasce apenas da qualidade dos jogadores, mas da convicção de que o clube construiu uma estrutura capaz de sustentar o desempenho mesmo quando os resultados imediatos não aparecem.
É justamente essa estrutura que diferencia o atual PSG de versões anteriores da equipe. O clube deixou de depender exclusivamente de contratações milionárias e de grandes nomes para construir uma identidade coletiva. Sob o comando de Luis Enrique, o funcionamento do time passou a depender de princípios, comportamentos e uma organização que permite substituir jogadores importantes sem necessariamente alterar a maneira de jogar.
O desafio agora é preservar essa identidade quando a motivação natural de quem ainda busca uma grande conquista dá lugar à responsabilidade de defender aquilo que já foi conquistado.
O maior risco para Luis Enrique é a acomodação, não a falta de talento
Existe uma contradição no futebol de alto nível: quanto mais uma equipe vence, mais difícil pode ser encontrar razões para continuar fazendo aquilo que a levou ao sucesso. Os jogadores passam a ser reconhecidos mundialmente, recebem contratos melhores e acumulam títulos. O ambiente muda, as expectativas aumentam e a rotina que antes era encarada como um caminho para alcançar algo extraordinário corre o risco de se transformar em uma obrigação.
Luis Enrique parece compreender esse perigo. A renovação de seu contrato até 2030, acompanhada de novos acordos com jogadores importantes como João Neves, Fabián Ruiz, Willian Pacho, Lucas Beraldo e Senny Mayulu, representa mais do que uma tentativa de preservar o elenco campeão. É uma declaração de continuidade. O PSG não pretende desmontar o projeto depois de atingir o auge, mas consolidar uma estrutura que possa continuar competitiva nos próximos anos.
Essa estabilidade também aparece na comissão técnica. Desde a chegada do treinador, em 2023, houve poucas mudanças importantes entre os profissionais que trabalham diretamente com ele. Joaquín Valdés, auxiliar que acompanha Luis Enrique desde os tempos do Barcelona B, continua sendo uma figura central na relação com os jogadores e no equilíbrio cotidiano do treinador. Rafel Pol, responsável pela estratégia e considerado seu braço direito, também permanece no projeto.
A continuidade não significa que o PSG tenha deixado de evoluir. Pelo contrário, a principal transformação está na capacidade de manter os princípios do trabalho enquanto melhora as condições para executá-los. A maneira de treinar, corrigir posicionamentos e preparar os jogadores permanece relativamente estável, com recursos que permitem à comissão técnica observar o campo de diferentes ângulos e fazer ajustes diretamente durante as atividades.
O que mudou de maneira mais significativa foi a profundidade do elenco. Luis Enrique agora dispõe de alternativas suficientes para poupar jogadores importantes sem comprometer necessariamente a qualidade coletiva. Essa capacidade foi decisiva na temporada anterior e pode ser ainda mais importante em uma campanha na qual o PSG pretende disputar títulos em várias frentes.
A questão é que a profundidade resolve parte do problema físico, mas não elimina o risco mental. Um jogador pode aceitar ficar fora de uma partida porque entende que precisa descansar, mas uma equipe inteira precisa continuar comprometida com o trabalho mesmo depois de ter conquistado quase tudo.
É nesse ponto que a liderança de Luis Enrique ganha importância. Seu objetivo não é apenas fazer com que os jogadores estejam fisicamente preparados para vencer. É garantir que continuem entendendo por que precisam treinar, pressionar, competir e executar os mesmos movimentos que os levaram ao sucesso.
Um elenco mais profundo permite administrar a temporada sem perder identidade
A vitória por 3 a 1 sobre o Le Mans, no último sábado, ajuda a ilustrar a maneira como o PSG pretende administrar o calendário. Luis Enrique utilizou oito jogadores que dificilmente começariam uma partida de maior exigência, preservando titulares para compromissos mais importantes. Quando o jogo permaneceu equilibrado, recorreu a quatro de seus principais nomes para garantir o resultado.
A estratégia mostra que a rotação deixou de ser apenas uma necessidade para administrar o desgaste. Ela se tornou uma ferramenta para manter o elenco inteiro envolvido no projeto. Em vez de concentrar a responsabilidade sempre nos mesmos jogadores, o treinador procura distribuir minutos e preservar a competitividade interna.
Esse tipo de organização também ajuda a explicar por que o PSG conseguiu manter seu estilo mesmo depois de mudanças importantes no elenco. A identidade do time não depende exclusivamente da presença de um determinado atacante ou de uma estrela capaz de resolver partidas individualmente. Ela está ligada à maneira como a equipe ocupa os espaços, pressiona o adversário e movimenta a bola.
Por isso, a saída de jogadores como Gonçalo Ramos, Bradley Barcola e Lee Kang-in não representa necessariamente uma ameaça à estrutura coletiva. A reformulação do ataque foi pensada para encontrar atletas com motivação e características compatíveis com as exigências do treinador, em vez de simplesmente acumular nomes conhecidos.
Mika Godts e Ferran Torres representam essa lógica. Segundo o correspondente Dani Gil, da rádio espanhola COPE, Barcola não estava satisfeito com a quantidade de minutos que recebia, apesar das conquistas acumuladas pelo PSG. A contratação de jogadores que ainda buscam grandes títulos oferece ao clube a possibilidade de recuperar uma motivação que pode diminuir em atletas que já venceram tudo.
Torres é um caso particularmente interessante. Depois de atravessar um período psicologicamente difícil e perder espaço no Barcelona, o atacante chegou a Paris em busca de um ambiente no qual pudesse se sentir novamente importante. O espanhol, que marcou o gol decisivo da Espanha na final da Copa do Mundo, já soma sete gols na França e demonstra uma confiança renovada.
A mudança de contexto pode ser tão importante quanto qualquer característica técnica. Em Barcelona, Torres teve sua melhor temporada estatística até então, mas não conseguiu consolidar uma posição permanente entre os titulares. No PSG, encontrou um projeto no qual acredita ter espaço para contribuir, mesmo sem precisar assumir o protagonismo absoluto.
Essa é uma das principais características do trabalho de Luis Enrique: o jogador pode ser importante sem precisar ser a estrela do time. O treinador ocupa esse papel simbólico, enquanto os atletas precisam encontrar maneiras de potencializar o funcionamento coletivo.
A identidade do PSG vale mais do que a soma das estrelas
Durante anos, o PSG foi visto como uma coleção de grandes contratações. O clube tinha dinheiro para reunir jogadores de enorme talento, mas a presença de tantas estrelas não se convertia necessariamente em uma equipe capaz de dominar a Europa. O problema não era a ausência de qualidade individual. Era a dificuldade de transformar essa qualidade em uma estrutura coletiva consistente.
Luis Enrique alterou essa lógica ao colocar os princípios de jogo acima das hierarquias individuais. Isso não significa que as estrelas tenham perdido importância, mas que a contribuição de cada uma passou a ser avaliada dentro das necessidades do time. Um atacante precisa pressionar. Um meio-campista precisa entender quando acelerar a circulação e quando controlar o ritmo. Um defensor precisa participar da construção sem comprometer a organização quando a posse é perdida.
Quando todos compreendem essas exigências, o time deixa de depender de uma única maneira de vencer. Pode controlar a partida com a bola, pressionar para recuperar a posse ou utilizar diferentes jogadores para explorar as fragilidades do adversário. A identidade permanece, mesmo quando os nomes mudam.
A formação de jogadores da base é outra parte importante dessa transformação. Warren Zaïre-Emery, Mayulu, Quentin Ndjantou e Ibrahim Mbaye tiveram oportunidades na Champions League durante a temporada anterior, demonstrando que a academia pode funcionar como uma fonte real de recursos para o elenco principal.
A inauguração do novo centro de treinamento, em novembro de 2024, reforçou essa integração. O complexo, construído após um investimento de 350 milhões de euros, reúne pela primeira vez as equipes profissionais masculinas e femininas, as categorias de base e a escola em um mesmo espaço. A proximidade física também simboliza uma ligação esportiva: os jovens trabalham em um ambiente no qual os princípios do time principal orientam o desenvolvimento.
A influência do treinador chega até as categorias inferiores por meio de reuniões regulares entre os profissionais responsáveis pela formação, os dirigentes e a comissão técnica principal. Luis Enrique e o diretor de futebol Luis Campos acompanham partidas das equipes jovens sempre que possível, enquanto o estilo de jogo do time principal serve como referência para o trabalho desenvolvido abaixo dele.
Durante a recente pausa para os compromissos internacionais, apenas quatro jogadores do elenco principal permaneceram no clube. Ao mesmo tempo, 16 atletas da base estavam com suas seleções. Luis Enrique aproveitou o período para trabalhar diretamente com os jovens que ficaram em Paris, criando uma oportunidade rara para que eles mostrassem suas capacidades ao treinador.
Essa integração pode produzir benefícios que vão além da economia em contratações. Um jovem que chega ao time principal conhecendo os princípios de jogo e as exigências da comissão técnica tende a precisar de menos tempo para compreender seu papel. Para um clube que disputa várias competições, essa familiaridade pode ser decisiva.
O PSG começa, assim, a construir uma vantagem diferente daquela que marcou sua história recente. Em vez de depender apenas de sua capacidade financeira para contratar jogadores prontos, procura desenvolver um sistema capaz de produzir e integrar seus próprios talentos.
O teste contra o Manchester City vai além dos três pontos
A visita ao Manchester City, pela Champions League, oferece um teste importante para a equipe francesa. Além da qualidade do adversário, o confronto reúne Luis Enrique e Pep Guardiola, dois treinadores ligados por uma longa relação profissional e por uma maneira de pensar o futebol que valoriza a organização coletiva, o controle dos espaços e a participação de todos os jogadores nas diferentes fases da partida.
Guardiola foi companheiro de equipe de Luis Enrique no Barcelona entre 1996 e 2001, e a relação entre os dois continuou marcada por respeito mesmo depois de seguirem caminhos diferentes como treinadores. O reencontro em Manchester, portanto, carrega um componente simbólico, mas também permite observar como duas ideias de futebol semelhantes evoluíram em ambientes distintos.
O PSG chega ao jogo com a confiança de quem já conquistou a Europa, embora o início irregular na Ligue 1 mostre que ainda há ajustes a fazer. A equipe precisa demonstrar que consegue transportar sua identidade para um confronto de alto nível, especialmente fora de casa, contra um adversário capaz de explorar qualquer perda de concentração.
O momento também exige equilíbrio na avaliação externa. Luis Enrique já criticou a tendência de transformar os resultados do PSG em julgamentos extremos: quando o time vence, os adversários parecem inferiores; quando tropeça, a situação passa a ser tratada como uma catástrofe. A realidade, como quase sempre acontece, está entre esses dois extremos.
Uma derrota em Manchester não apagaria o trabalho realizado pelo treinador, assim como uma vitória não garantiria que a equipe está pronta para conquistar tudo novamente. O que importa é observar se o PSG continua apresentando os comportamentos que sustentam sua identidade, mesmo quando enfrenta dificuldades.
O encontro também poderá gerar perguntas sobre Guardiola e os processos que envolvem o Manchester City. Luis Enrique mantém uma relação de respeito com o antigo companheiro, e a maneira como reagir a esses assuntos fará parte de sua presença pública. O treinador, que mantém uma relação distante com a imprensa francesa e evita entrevistas individuais, costuma ser mais expansivo quando a conversa se concentra no futebol.
Essa postura combina com a maneira como administra a pressão. Luis Enrique não tenta agradar a todos nem oferece respostas cuidadosamente coordenadas para cada situação. Prefere estabelecer distância, controlar o que considera relevante e manter o foco naquilo que pode influenciar o trabalho dentro de campo.
O PSG confia tanto nessa abordagem que não preparou uma resposta coletiva específica para o reencontro com Guardiola. A expectativa é que o treinador lide com as perguntas à sua maneira, como faz com os jogadores: sem perder a clareza sobre aquilo que considera essencial.
O desafio de continuar vencendo começa antes de a bola rolar
A frase de Cruyff resume o dilema que acompanha o PSG nesta temporada. Ganhar uma Champions League exige talento, preparação, decisões corretas e uma combinação de circunstâncias que poucas equipes conseguem reunir. Repetir o feito exige que tudo isso continue funcionando mesmo depois de a conquista deixar de ser um objetivo distante e passar a ser uma expectativa permanente.
Luis Enrique parece ter entendido que a resposta não está simplesmente em contratar mais jogadores ou cobrar intensidade em cada treino. O caminho passa por preservar uma cultura de trabalho na qual ninguém esteja acima do sistema, na qual a base tenha espaço real e na qual a rotação do elenco não signifique uma queda automática de desempenho.
O PSG ainda precisará provar que consegue transformar essa estrutura em resultados ao longo de uma temporada extensa. A sexta colocação na Ligue 1 mostra que o time não está imune a tropeços, e a busca pelo tricampeonato europeu exigirá uma sequência de atuações de alto nível contra os melhores adversários do continente.
Mas o projeto de Luis Enrique oferece uma resposta possível ao problema de vencer depois de vencer. O treinador tenta fazer com que o sucesso não seja tratado como um ponto final, e sim como uma nova exigência. Os títulos anteriores não diminuem a necessidade de trabalhar. Aumentam a responsabilidade de continuar evoluindo.
O PSG deixou de ser apenas um clube que reúne grandes nomes e passou a funcionar como uma equipe com princípios reconhecíveis, capacidade de renovar seu elenco e uma estrutura que alcança até as categorias de base. A profundidade permite administrar o desgaste, a integração dos jovens oferece novas alternativas e a continuidade da comissão técnica ajuda a preservar o padrão de jogo.
Agora, o desafio é garantir que essa organização continue produzindo fome competitiva. O tricampeonato da Champions League seria histórico, mas o verdadeiro teste de Luis Enrique está na maneira como sua equipe encara cada partida antes de chegar à final.
Porque, no futebol, vencer uma vez pode confirmar o talento de um grupo. Vencer novamente demonstra consistência. E continuar vencendo depois de já ter conquistado tudo exige algo ainda mais difícil: encontrar razões para trabalhar como se nada estivesse garantido.


