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Futebol Premier League

Do luto ao fracasso esportivo: como a temporada do Liverpool saiu dos trilhos após o título da Premier League

Poucas temporadas recentes do futebol europeu foram tão marcadas por contrastes quanto a do Liverpool em 2025-26. Apenas um ano antes, o clube vivia um dos momentos mais felizes de sua história recente. Arne Slot havia chegado para substituir Jürgen Klopp sem causar turbulências, conquistado a Premier League logo em sua temporada de estreia e liderado uma transição que parecia quase perfeita.

O cenário era tão positivo que a diretoria decidiu investir pesado para consolidar uma nova era de sucesso. O Liverpool realizou a maior janela de transferências de sua história, gastando cerca de 449 milhões de libras em reforços.

Mas o que parecia ser o início de um novo ciclo vitorioso acabou se transformando em uma campanha marcada por tragédias, lesões, conflitos internos, erros de planejamento e uma queda de rendimento que levou o clube da condição de campeão inglês para apenas o quinto lugar na Premier League.

A temporada terminou com apenas 60 pontos conquistados, 24 a menos do que no ano anterior. O Liverpool marcou 63 gols na liga, contra 86 na campanha do título, e sofreu 53 gols, sua pior marca defensiva em uma temporada de 38 rodadas da era Premier League.

Os números ajudam a explicar o fracasso, mas não contam toda a história.

A morte de Diogo Jota abalou profundamente o clube

Diogo Jota Liverpool
Foto: Getty Iimages

O primeiro golpe aconteceu antes mesmo do início da temporada.

Em julho de 2025, Diogo Jota e seu irmão André Silva morreram em um acidente de carro na Espanha quando viajavam para retornar à Inglaterra para o início da pré-temporada.

A tragédia teve impacto devastador dentro do Liverpool.

Jota tinha apenas 28 anos, havia acabado de conquistar a Premier League, ajudado Portugal a vencer a Liga das Nações e se casado poucas semanas antes. Além disso, era uma das figuras mais queridas do elenco.

O Liverpool cancelou atividades da pré-temporada, fretou voos para que jogadores e funcionários comparecessem ao funeral e contratou especialistas em apoio psicológico para auxiliar atletas e membros da comissão técnica.

O impacto emocional permaneceu durante toda a temporada.

A música em homenagem ao atacante passou a ser cantada no 20º minuto de cada partida, seu armário permaneceu intacto no vestiário e diversos jogadores admitiram meses depois que jamais conseguiram superar completamente a perda.

Robertson chegou a afirmar que ninguém queria sequer treinar nas semanas seguintes à tragédia.

Naturalmente, a morte de Jota não explica sozinha os resultados ruins, mas ajuda a entender o contexto emocional extremamente difícil enfrentado pelo grupo.

O maior investimento da história não gerou retorno imediato

Alexander Isak e Florian Wirtz, Liverpool
Foto: Getty Images

Enquanto tentava lidar com o luto, o Liverpool também iniciava uma reformulação ambiciosa do elenco.

A contratação de Florian Wirtz por até 116 milhões de libras estabeleceu um novo recorde do clube. Pouco depois veio Alexander Isak por 125 milhões de libras, tornando-se o jogador mais caro da história do futebol britânico.

Hugo Ekitike chegou por 79 milhões de libras. Também foram contratados Giorgi Mamardashvili, Jeremie Frimpong, Milos Kerkez, Giovanni Leoni e Freddie Woodman.

O problema é que os reforços praticamente nunca conseguiram atuar juntos.

Isak sofreu uma série de problemas físicos que limitaram drasticamente sua participação. O atacante marcou apenas quatro gols em 22 jogos e sequer completou uma partida inteira de 90 minutos durante a temporada.

Leoni rompeu o ligamento cruzado anterior logo em sua estreia e ficou fora do restante da campanha.

Frimpong teve dificuldades físicas e de adaptação. Mamardashvili alternou bons momentos com falhas importantes.

A única contratação que realmente correspondeu às expectativas foi Hugo Ekitike. O francês marcou 17 gols e se tornou uma das poucas notícias positivas do ano antes de sofrer uma grave lesão no tendão de Aquiles em abril.

Outro dado ajuda a ilustrar a situação.

Os três principais reforços ofensivos, Isak, Wirtz e Ekitike, contratados por cerca de 320 milhões de libras, dividiram o campo por apenas 118 minutos durante toda a temporada.

Lesões, desgaste físico e falta de pofundidade

Se os reforços tiveram dificuldades para permanecer disponíveis, o restante do elenco também sofreu.

Joe Gomez enfrentou problemas físicos recorrentes. Conor Bradley sofreu uma grave lesão no joelho. Alisson perdeu quase um terço da temporada por questões musculares.

Até jogadores normalmente muito confiáveis passaram a apresentar queda física ao longo do ano.

O Liverpool apostou em uma estratégia de mercado baseada na qualidade de poucas contratações, em vez de ampliar significativamente a profundidade do elenco.

Quando as lesões começaram a surgir, essa escolha passou a cobrar seu preço.

Além disso, Arne Slot demonstrou pouca confiança em alguns jogadores do grupo, como Wataru Endo, Federico Chiesa e o próprio Gomez, o que fez com que uma parcela reduzida do elenco acumulasse muitos minutos em campo.

O resultado foi um time cada vez mais desgastado física e mentalmente

Problemas táticos e queda coletiva de rendimento

As dificuldades físicas não foram os únicos problemas.

Com o passar da temporada, o Liverpool passou a apresentar um futebol cada vez menos convincente.

A equipe sofria para controlar partidas, tinha dificuldades para criar chances claras e se mostrava vulnerável defensivamente.

As bolas paradas se transformaram em um pesadelo. O Liverpool sofreu 20 gols desse tipo de jogada na Premier League, sem contar pênaltis. Foi o pior número da história do clube na competição.

Os gols sofridos nos minutos finais também viraram rotina.

Foram oito gols sofridos após os 90 minutos somente na liga inglesa, um indicador que apontava problemas tanto de organização quanto de concentração.

A perda de identidade se tornou uma das principais críticas da torcida.

O Liverpool de Klopp era conhecido pela intensidade sufocante, pelas transições rápidas e pela pressão constante. Já a equipe de Slot passou a ser vista como lenta, previsível e excessivamente cautelosa.

Nem mesmo jogadores fundamentais na campanha do título conseguiram repetir o desempenho.

Alexis Mac Allister caiu de produção. Ibrahima Konaté acumulou erros importantes. Virgil van Dijk precisou conviver com uma defesa cada vez mais vulnerável.

O desgaste entre Salah e Slot ampliou a crise

arne slot e salah liverpool
Foto: Getty Images

Como se os problemas esportivos não fossem suficientes, o relacionamento entre Mohamed Salah e Arne Slot também se deteriorou ao longo da temporada.

Na tentativa de tornar o time mais compacto defensivamente, o treinador decidiu retirar o egípcio da equipe titular.

A decisão provocou enorme repercussão.

Após três partidas consecutivas no banco, Salah criticou publicamente o clube, afirmou ter sido transformado em bode expiatório pelos resultados ruins e sugeriu que havia pessoas internamente que não desejavam sua permanência.

A diretoria ficou ao lado de Slot, mas a relação nunca voltou ao normal.

Em março, foi confirmado que Salah deixaria o Liverpool ao final da temporada.

O declínio esportivo acompanhou os problemas nos bastidores.

Depois de marcar 34 gols na campanha do título, o egípcio terminou a temporada com apenas 12 gols.

A queda de rendimento do principal jogador do elenco acabou simbolizando o colapso coletivo da equipe.

O futuro ainda gera dúvidas em Anfield

Liverpool
Foto: Getty Images

Apesar do cenário negativo, Arne Slot segue contando com apoio importante dentro da estrutura do clube.

A classificação para a próxima Champions League evitou um desastre ainda maior e fortaleceu a possibilidade de continuidade do projeto.

Internamente existe confiança de que jogadores como Wirtz, Isak, Frimpong e Kerkez podem entregar muito mais em condições mais favoráveis.

Também há expectativa de novos reforços, principalmente para aumentar a velocidade pelos lados do campo e adicionar força física ao meio-campo.

Ainda assim, a temporada de 2025-26 deixa lições importantes.

O Liverpool descobriu da forma mais dura que investir centenas de milhões de libras não garante sucesso imediato. Descobriu também como lesões, tragédias pessoais e conflitos internos podem comprometer até mesmo equipes que pareciam destinadas a iniciar uma dinastia.

Há um ano, Arne Slot erguia o troféu da Premier League diante de Anfield. Hoje, seu trabalho é questionado por parte da torcida e o clube tenta reconstruir a confiança perdida.

A próxima temporada dirá se 2025-26 foi apenas um acidente de percurso ou o início de um problema muito maior para um dos gigantes do futebol europeu.

(Foto de capa: Dan Istitene/Getty Images)

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Kaique