Depois de 1.331 dias de espera, a comissão independente responsável pelo caso envolvendo o Manchester City apresentou sua decisão e considerou o clube culpado nas acusações mais graves relacionadas às regras financeiras da Premier League. O City continua negando qualquer irregularidade e já indicou que pretende recorrer.
Além do resultado, um documento parcialmente censurado de 40 páginas revelou detalhes importantes sobre o processo. O relatório explica por que a decisão demorou tanto, como funcionaria o esquema financeiro apontado pela comissão e quais argumentos apresentados pelo clube foram rejeitados.
As conclusões também ajudam a entender a dimensão de um caso que se arrastou por anos e envolveu milhares de páginas de documentos e depoimentos. Algumas informações chamam atenção principalmente pelos valores relacionados aos patrocínios do clube entre 2009 e 2018.
Mesmo com a decisão, o processo ainda pode ter novos capítulos por causa do recurso. Por isso, as conclusões apresentadas no relatório representam a posição atual da comissão independente e não necessariamente o encerramento definitivo da disputa jurídica.
Processo analisou milhares de páginas de provas
Um dos primeiros pontos abordados pelo relatório foi justamente a demora para chegar ao julgamento. A comissão reconheceu que levou muito mais tempo do que esperava para concluir sua decisão depois do fim das audiências.
A justificativa está na quantidade de material analisado. Somente as transcrições dos depoimentos de testemunhas e especialistas somaram aproximadamente 7 mil páginas. Além disso, as duas partes apresentaram documentos detalhados e argumentos adicionais durante quatro dias de audiências finais.
A comissão destacou que manteve acesso a todo esse material durante a elaboração da decisão. O volume de informações ajuda a explicar por que o julgamento demorou tanto e também mostra a complexidade do caso.
O documento ainda sugere que um novo julgamento dependeria do surgimento de informações realmente novas, já que a análise das evidências apresentadas foi extensa.
Relatório detalha valores dos patrocínios do Manchester City
O ponto mais pesado do documento aparece na análise dos acordos comerciais do clube. A comissão utilizou a expressão “Disguised Funding Scheme”, ou esquema de financiamento disfarçado, para descrever parte da estrutura investigada.
Entre 2009 e 2018, o Manchester City declarou quase 950 milhões de libras em receitas de patrocínio. De acordo com a conclusão da comissão, apenas cerca de 119 milhões de libras, aproximadamente 13% do total, teriam sido efetivamente pagos pelas empresas apresentadas como patrocinadoras.
Os outros 830 milhões de libras, segundo o relatório, teriam origem na Abu Dhabi United Group Investment & Development, empresa ligada à propriedade do Manchester City. Isso representaria cerca de 87% do valor total registrado naquele período.
Os números teriam aumentado principalmente a partir de 2011/12, justamente quando as regras de Fair Play Financeiro da Uefa começaram a ser implementadas.
Comissão aponta tentativa de cobrir déficit em 2013
Outro episódio destacado aconteceu no final da temporada 2012/13. Segundo a comissão, o Manchester City estaria cerca de 9,9 milhões de libras abaixo do necessário para cumprir as exigências financeiras da Uefa naquele exercício.
Faltando apenas cinco dias para o encerramento do ano financeiro, novos acordos teriam sido modificados para incluir pagamentos adicionais. Entre as justificativas apontadas estavam bônus relacionados a acontecimentos que já haviam ocorrido e financiamento de uma excursão pelos Estados Unidos.
De acordo com o documento, essas alterações acabaram preenchendo exatamente a diferença necessária para colocar as contas dentro das regras exigidas naquele momento.
O episódio é utilizado pela comissão como um dos exemplos do funcionamento do modelo de financiamento questionado durante a investigação.
Relatório fala em tentativa contínua de esconder sistema
A investigação também tentou explicar como as supostas irregularidades poderiam ter continuado por aproximadamente nove temporadas sem serem identificadas pelos órgãos reguladores.
Segundo a comissão, o sistema teria sido ajustado ao longo do tempo para diminuir o risco de levantar questionamentos por parte de entidades como a Premier League.
O documento utiliza a expressão “continued concealment”, ou ocultação contínua, e afirma que mudanças teriam sido realizadas justamente para reduzir a chance de fiscalização mais profunda.
As investigações ganharam força principalmente depois do vazamento de documentos obtidos por um hacker português, e não por uma descoberta inicial da própria Premier League.
Defesa do City foi rejeitada pela comissão
O Manchester City mantém sua posição de inocência e argumentou durante o processo que nenhuma parte das receitas de patrocínio teria sido diretamente paga pela ADUG.
A explicação apresentada pelo clube afirmava que determinadas empresas buscavam apoio financeiro junto ao governo de Abu Dhabi em alguns momentos. Esse dinheiro seria utilizado posteriormente pelas próprias patrocinadoras para cumprir seus compromissos.
A comissão não aceitou essa versão. No documento, a explicação foi classificada como falsa e teria sido formulada apenas em uma fase avançada do processo no City.
O City, por sua vez, continua contestando a decisão e deve levar esses argumentos novamente ao processo de recurso.
Comissão fala em depoimentos considerados desonestos
Outro trecho de grande impacto envolve a avaliação feita sobre algumas testemunhas que participaram das audiências.
O relatório afirma que a maioria dos depoentes tentou responder às perguntas de maneira correta e colaborar com o processo. No entanto, a comissão concluiu que uma parte das testemunhas forneceu informações que sabia não serem verdadeiras.
O termo utilizado foi “dishonest”, ou desonesto, uma escolha especialmente forte para um documento jurídico desse nível.
Os nomes dessas testemunhas não foram divulgados na versão parcialmente censurada do relatório.
Identidades dos membros da comissão foram preservadas
Um dos detalhes mais curiosos aparece logo no início do documento. Os nomes das três pessoas responsáveis por integrar a comissão disciplinar foram retirados da versão pública.
Não foi apresentado um motivo detalhado para essa decisão, mas o caso despertou enorme repercussão ao longo dos últimos anos e gerou forte reação pública.
A medida acaba mostrando o nível de sensibilidade em torno de um processo que envolve um dos clubes mais poderosos do futebol mundial.
Com o Manchester City preparando um recurso, o caso está longe de desaparecer. A decisão atual representa uma vitória importante para a Premier League, mas o próximo capítulo será determinar se essas conclusões serão mantidas e, principalmente, quais punições poderão ser aplicadas ao clube.
Divulgação/Manchester City



