O Manchester City encerra uma temporada aquém das expectativas, enfrentando um dos períodos mais turbulentos da era Guardiola. Após uma eliminação surpreendente na FA Cup em Wembley, o clube se vê pressionado a garantir, no mínimo, uma vaga entre os cinco primeiros da Premier League — o que pode ser decisivo para a presença na próxima edição da Champions League. A queda de rendimento e a instabilidade tática e física do elenco escancaram um ponto: o City está em transição, e o retorno ao domínio recente do futebol inglês e europeu está longe de ser garantido.
Ainda que os torcedores do City discutam decisões pontuais, como a possível chance clara de gol de Haaland, o que realmente está em questão é como o clube voltará ao seu nível dominante dos últimos anos. A verdade é que os sinais não são animadores.
A instabilidade começa pelo ataque: a equipe que marcou 96 gols na Premier League passada soma apenas 67 nesta temporada, a duas rodadas do fim. A oscilação física de Haaland — que passou por momentos “in and out and up-and-down”, segundo a análise — comprometeu seriamente a fluidez ofensiva do time. Além disso, a ausência prolongada de Rodri por lesão, considerada o “ponto de virada” da temporada, mostrou como o City depende profundamente de algumas peças-chave para sustentar seu modelo de jogo.
Outro ponto crítico é o meio-campo. Com Kevin De Bruyne prestes a sair e jogadores como Bernardo Silva e Ilkay Gundogan enfrentando questionamentos sobre sua continuidade e rendimento, o City precisará reinventar sua engrenagem criativa. A busca por um novo “cérebro” já começou, com Guardiola testando formações alternativas, como o 3-3-4 com O’Reilly vindo da lateral para o meio e Matheus Nunes contribuindo pelos flancos. Mas nenhuma dessas experiências gerou impacto consistente até agora.
O setor defensivo também está em reconstrução. A chegada de jovens como Abdukodir Khusanov e Vitor Reis indica uma tentativa de renovação, mas esses nomes ainda não se firmaram. A defesa tem sofrido especialmente nas transições rápidas — um problema recorrente — e foi novamente exposta por adversários como o Crystal Palace.
Do ponto de vista estrutural, o clube vive um momento delicado. A ausência da Champions League traria impacto financeiro e esportivo considerável, dificultando novos investimentos e afetando o calendário, que já será apertado com os compromissos do Mundial de Clubes. Além disso, a saída de líderes como Kyle Walker e De Bruyne marcará o início de um novo ciclo que exigirá tempo e paciência — algo que a elite do futebol raramente permite.
O maior desafio do Guardiola no City?
Guardiola, que já transformou o futebol inglês com ideias revolucionárias e dominou o cenário por quase uma década, agora se vê diante de um dos maiores desafios de sua carreira: reconstruir um time vitorioso em meio à pressão, à perda de referências e à necessidade de reinvenção. Como afirmou ao fim de sua primeira temporada sem títulos em 2016/17. A partir dali, vieram seis títulos de Premier League em sete anos.
A pergunta que fica é: há uma nova lição a ser aprendida — e superada?
O City pode estar diante de um ponto de inflexão. E embora Guardiola tenha renovado até 2025, a resposta para a retomada do protagonismo não virá de soluções óbvias, mas de ideias ousadas e de uma reconstrução bem executada. O tempo, no entanto, joga contra.
― Um pouco sim (fim de ciclo). As coisas não são eternas, nem tudo dura para sempre. Ganhamos seis títulos da Premier League em sete anos, e na Champions chegamos às quartas, semifinais e final em todos os anos.
Não é questão de impotência. Somos uma equipe cascuda, mas perdemos a consistência.” completou Pep Guardiola sobre a temporada 24/25.
Foto: Gualter Fatia/Getty Images