Andrey Santos, Manchester United. Foto: Reprodução/Manchester United via site oficial.
Futebol Premier League

Manchester United segue os passos do PSG e muda estratégia no mercado; entenda

O Manchester United passou anos tentando resolver seus problemas com a mesma receita que, em muitos casos, ajudou a criá-los: muito dinheiro, nomes de peso e expectativas gigantescas. A lógica era simples. Se faltava qualidade, bastava ir ao mercado e contratar alguém famoso o suficiente para fazer a torcida esquecer o problema anterior. Só que futebol não funciona como carrinho de compras e o clube parece finalmente ter entendido isso.

Sob o comando de Michael Carrick, o Manchester United começa a dar sinais de uma mudança importante na forma como atua no mercado. A transformação ainda está longe de estar concluída, claro, mas a estratégia adotada em Old Trafford lembra um exemplo que, até pouco tempo atrás, seria bastante improvável: o PSG.

Os dois clubes carregam histórias parecidas no mercado. Durante anos, tanto Manchester United quanto PSG construíram uma reputação de compradores dispostos a pagar praticamente qualquer preço pelos jogadores desejados. Em determinados momentos, a sensação era de que o currículo e o tamanho do nome pesavam mais do que a adequação do atleta ao projeto.

O resultado, em diferentes proporções, foi um acúmulo de contratações caras, elencos desequilibrados e uma distância considerável entre o investimento feito e o sucesso alcançado. O PSG conseguiu dominar a França durante esse período, mas demorou para transformar seu poder financeiro no grande objetivo: a Champions League.

PSG mostrou que gastar muito não significa gastar bem

A mudança de rumo do PSG é um dos exemplos mais interessantes do futebol europeu nos últimos anos. O clube ficou marcado pela era dos grandes espetáculos, especialmente após desembolsar valores históricos para contratar Neymar e Kylian Mbappé.

Era a definição do futebol “bling-bling”: estrelas por todos os lados, cifras gigantescas e uma coleção de nomes capazes de dominar qualquer capa de jornal. Só faltava transformar tudo isso em uma máquina realmente vencedora na Europa.

A resposta não veio com ainda mais extravagância.

O PSG passou a trabalhar de maneira mais inteligente, reduzindo a dependência de contratações astronômicas e buscando jogadores que se encaixassem no projeto esportivo. O clube continuou investindo pesado, porque dinheiro definitivamente não desapareceu de Paris, mas passou a utilizar seus recursos com mais critério.

Em vez de simplesmente procurar o maior nome disponível, o PSG passou a procurar o jogador certo. E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.

A maior contratação entre os elencos que conquistaram as duas Champions League do clube foi Khvicha Kvaratskhelia, contratado por cerca de 80 milhões de euros. É um valor alto, obviamente, mas que parece quase modesto diante de algumas operações recentes realizadas pelos principais clubes da Premier League.

Foi justamente nesse ponto que o Manchester United parece ter começado a prestar atenção.

Manchester United tenta abandonar os velhos hábitos

Durante mais de uma década, o Manchester United foi praticamente um exemplo de como não depender exclusivamente do mercado. O clube contratou grandes jogadores, gastou fortunas e, ainda assim, continuou preso em um ciclo constante de reconstruções.

Cada novo treinador chegava com uma ideia diferente. Cada novo projeto precisava de jogadores diferentes. E cada reformulação deixava para trás atletas caros, contratos pesados e problemas que precisariam ser resolvidos pelo próximo comandante.

Agora, porém, a estratégia parece diferente.

Com Jason Wilcox à frente do futebol e Christopher Vivell envolvido no trabalho de recrutamento, o Manchester United passou a demonstrar uma preocupação maior com custo-benefício. Isso não significa que o clube tenha virado uma instituição especializada em pechinchas, ninguém precisa esperar uma liquidação de verão em Old Trafford, mas o perfil das operações mudou.

Um exemplo importante foi a postura em relação a Elliot Anderson. O meio-campista acabou sendo negociado com o Manchester City por 135 milhões de euros, um valor que o United não estava disposto a acompanhar.

Em outros tempos, talvez o peso de perder um jogador para um rival direto fosse suficiente para provocar uma reação desesperada. A famosa lógica do “não podemos deixar ele ir para o outro lado de Manchester”.

Desta vez, o clube preferiu não entrar em uma disputa que considerava financeiramente exagerada. E essa talvez seja uma das maiores mudanças do novo Manchester United: saber a hora de desistir.

Contratar menos pelo nome e mais pelo encaixe

A nova estratégia também não significa abandonar investimentos altos. Benjamin Sesko, Bryan Mbeumo e Matheus Cunha, por exemplo, chegaram por valores próximos dos 75 milhões de euros.

Não são contratações baratas. Longe disso.

A diferença está na justificativa do investimento. Os três chegaram para ocupar funções específicas dentro do projeto e já mostraram por que o Manchester United estava disposto a pagar valores elevados. O clube não buscou apenas jogadores conhecidos pelo grande público, mas atletas que respondiam a necessidades claras do elenco.

Outro negócio que chama atenção é Senne Lammens. Contratado por cerca de 21 milhões de euros, o goleiro rapidamente passou a ser visto como uma das melhores negociações da temporada.

É exatamente esse tipo de operação que pode transformar a percepção sobre um mercado. Nem toda contratação precisa custar 100 milhões para ser considerada ambiciosa. Às vezes, encontrar um jogador antes de ele atingir o valor máximo do mercado pode ser ainda mais importante do que vencer um leilão milionário.

Tielemans e Andrey Santos reforçam a nova ideia

Nesta temporada, o Manchester United também investiu na chegada de Youri Tielemans e Andrey Santos, em uma operação que custou, somada, cerca de 97 milhões de euros.

O valor continua significativo, mas os dois negócios seguem a lógica de buscar qualidade dentro de uma faixa considerada aceitável pelo clube. Tielemans oferece experiência e capacidade técnica para o meio-campo, enquanto Andrey representa uma aposta em um jogador que pode entregar rendimento imediato e ainda crescer dentro do projeto.

O Manchester United, portanto, não está tentando simplesmente gastar menos. Está tentando errar menos.

Pode parecer uma diferença pequena, mas é gigantesca quando se olha para a história recente do clube. Afinal, reduzir o número de contratações equivocadas também significa diminuir a necessidade de realizar uma nova reconstrução daqui a dois ou três anos.

E isso é algo que os torcedores do United conhecem bem demais.

Desafio de comprar barato sendo o Manchester United

Naturalmente, a mudança de estratégia não elimina todos os problemas. O Manchester United continua sendo um dos clubes mais ricos e famosos do mundo, e isso cria uma dificuldade quase inevitável nas negociações.

Quando o United aparece interessado em um jogador, o preço tende a subir.

Os clubes vendedores conhecem o poder financeiro dos Red Devils e sabem que existe um histórico de grandes gastos em Old Trafford. Além disso, a força econômica da Premier League tornou o mercado inglês ainda mais inflacionado.

Encontrar qualidade por um preço razoável, portanto, exige paciência. E paciência nem sempre combina com o futebol moderno, especialmente quando a torcida acompanha cada rumor nas redes sociais e espera uma contratação nova antes mesmo de terminar o café da manhã.

O Manchester United terá de conviver com esse tipo de pressão se quiser manter a disciplina.

PSG pode ser um caminho para o futuro

A comparação com o PSG faz sentido justamente porque o clube francês conseguiu demonstrar que poder financeiro não precisa significar desperdício. Paris continua gastando, continua atraindo grandes jogadores e continua sendo um dos gigantes do futebol mundial.

A diferença é que o dinheiro passou a servir ao projeto, e não o contrário.

O Manchester United parece estar tentando chegar ao mesmo ponto. O objetivo não é vencer a janela de transferências, ganhar mais curtidas ou contratar o jogador que gera a maior reação nas redes sociais.

A prioridade é construir um elenco capaz de competir durante várias temporadas.

Se o clube conseguir manter essa linha de atuação, a consequência pode ser enorme. O Manchester United tem recursos financeiros, força comercial e uma das maiores marcas do futebol mundial. O que faltou durante muito tempo foi transformar todas essas vantagens em decisões esportivas consistentes.

Carrick e a nova estrutura de futebol ainda terão muitos testes pela frente, e será impossível acertar todas as contratações. Nem mesmo o PSG conseguiu isso. Mas o Manchester United parece finalmente ter percebido algo básico: o mercado não é uma competição para descobrir quem gasta mais.

É uma competição para descobrir quem monta o melhor time. E, se os Red Devils conseguirem aprender essa lição com o PSG, talvez a longa reconstrução de Old Trafford esteja começando a parecer um pouco menos interminável.

Foto: Reprodução/Manchester United via site oficial