Michael Carrick, Manchester United. Foto: Reprodução/Manchester United FC via site oficial.
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Manchester United começa a acertar na reconstrução, mas campanha na Champions deve testar profundidade do elenco; entenda os motivos

Poucas estatísticas são tão eficientes para resumir a crise de planejamento do Manchester United quanto o quase £1 bilhão gasto em contratações desde 2022. O número é gigantesco, o retorno esportivo esteve muito abaixo do investimento durante boa parte desse período e o elenco ainda apresenta buracos evidentes. Mas utilizar esse valor como fotografia do Manchester United de 2026 também pode ser enganoso. O clube gastou muito no passado, errou bastante na definição das prioridades e acumulou jogadores que não solucionaram seus problemas. A diferença é que, nos últimos dois mercados, existe algo que não aparecia com tanta clareza antes: uma lógica de reconstrução.

A volta à Champions League aumenta a pressão sobre Michael Carrick. Depois de disputar apenas 40 partidas na temporada passada, o United pode chegar a 67 jogos em 2026/27, o que transforma profundidade de elenco em uma necessidade imediata. O problema defensivo continua evidente, e a equipe ainda depende excessivamente de alguns jogadores. Mas isso não significa que todo o processo de contratações tenha sido equivocado. Pelo contrário: os movimentos mais recentes indicam que o Manchester United finalmente parece ter entendido que não precisa reconstruir o elenco inteiro em uma única janela.

Como o United começou a gastar melhor

Quando se olha para os gastos desde 2022, todos os nomes acabam colocados no mesmo pacote. Isso produz uma conclusão aparentemente lógica: se o United gastou mais de £1 bilhão e ainda precisa de reforços, então alguma coisa continua muito errada. A conclusão é parcialmente verdadeira, mas esconde uma mudança importante de comportamento.

O Manchester United realmente acumulou um dos maiores investimentos da Premier League no período. O gasto líquido chegou a cerca de £769,5 milhões, o maior da competição desde 2022. E a distribuição desse dinheiro ajuda a explicar por que o elenco ainda não está equilibrado: apenas 19% do investimento foi destinado a defensores, enquanto 42% foi para atacantes. O problema, portanto, não é apenas quanto o clube gastou, mas onde e como gastou.

Essa é justamente a herança que Carrick recebeu. O treinador não começou sua reconstrução a partir de uma folha em branco. Ele encontrou contratos, jogadores, posições sobrecarregadas e outras praticamente abandonadas. A diferença é que, agora, o clube parece estar tratando essas deficiências como um processo de médio prazo.

A primeira grande intervenção dessa nova fase aconteceu no setor ofensivo. Na temporada passada, o Manchester United concentrou boa parte de seu investimento em Matheus Cunha, Bryan Mbeumo e Benjamin Sesko. Não foram três contratações aleatórias para aumentar o número de opções de Ruben Amorim e depois Carrick. Cada uma delas atacava uma deficiência específica.

Cunha trouxe mobilidade, capacidade de jogar entre linhas e participação na construção. Mbeumo acrescentou velocidade, intensidade e produção pelo lado direito. Sesko, por sua vez, foi a aposta em um centroavante de referência, capaz de oferecer presença física e profundidade. O resultado não é um ataque perfeito, e o fato de Sesko ser o único centroavante de origem ainda cria uma vulnerabilidade mas existe uma diferença fundamental em relação a ciclos anteriores: as contratações começaram a conversar entre si.

O United deixou de simplesmente acumular jogadores ofensivos e passou a tentar construir uma estrutura ofensiva. Isso também explica por que o ataque hoje é uma das partes mais valorizadas do elenco. O problema agora é outro: existe bastante talento de apoio, mas ainda falta uma alternativa realmente confiável para Sesko e uma segunda fonte de criação que alivie Bruno Fernandes.bNão é pouca coisa, mas também não é o mesmo tipo de problema que o clube tinha quando começou essa reconstrução.

O mercado de 2026 mostrou que o planejamento não terminou no ataque. O foco mudou de setor. Andrey Santos foi a primeira peça permanente da era Carrick e chegou por £50 milhões. Youri Tielemans veio na sequência, e Carlos Baleba completou uma janela em que o Manchester United investiu cerca de £155 milhões apenas no meio-campo.

Mais importante do que o dinheiro, novamente, é a complementaridade. Andrey Santos oferece intensidade, capacidade de disputar duelos e presença defensiva. Tielemans acrescenta uma dimensão mais criativa e, na temporada anterior, foi o jogador que mais completou passes que quebravam linhas na Premier League. Baleba, por sua vez, representa aquilo que o United precisava há algum tempo: força física, capacidade de recuperar a bola e condução para levar o time de uma zona do campo à outra.

Não significa que os três vão necessariamente funcionar juntos ou que todos se transformarão em grandes contratações. Baleba, inclusive, chega depois de uma temporada de queda de rendimento em Brighton, o que representa um risco. Mas existe uma lógica muito mais clara na montagem do setor.

O United não comprou simplesmente “mais três meio-campistas”. Comprou características diferentes para tentar solucionar problemas diferentes. E essa talvez seja a principal evidência de que o clube está aprendendo a contratar.

A defesa é o próximo capítulo

É impossível ignorar o maior problema do elenco. A defesa foi negligenciada durante boa parte desse processo e continua sendo o setor que mais preocupa.

A estatística é brutal: somente 19% do investimento realizado pelo Manchester United desde 2022 foi destinado a defensores. Para uma equipe que pretende competir simultaneamente na Premier League e na Champions League, é pouco. E a idade, o histórico físico e a inconsistência de alguns dos jogadores disponíveis tornam a profundidade ainda mais preocupante.

O empate por 2 a 2 contra o Everton, por exemplo, apresentou uma linha formada por Luke Shaw, Lisandro Martínez, Harry Maguire e Diogo Dalot, exatamente o mesmo quarteto defensivo que começou a primeira partida de Erik ten Hag no clube, em maio de 2022. É uma imagem poderosa do quanto a renovação do elenco ainda não chegou à última linha.

Mas aqui está justamente onde a interpretação sobre o trabalho do United precisa ser cuidadosa. O fato de a defesa ainda não ter sido reconstruída não significa necessariamente que o clube não tenha percebido o problema. Pode significar que ela será o próximo grande investimento.

O próprio mercado deste verão europeu mostrou essa cautela. O United foi pressionado a contratar um zagueiro e um lateral, mas a situação financeira e a disponibilidade de jogadores fizeram o clube evitar uma contratação simplesmente para preencher uma lacuna. Luke Shaw continua sendo o único lateral-esquerdo experiente do elenco, enquanto Diogo Dalot e Noussair Mazraoui podem improvisar na função.

É uma deficiência evidente. Mas também pode ser o último grande setor de uma reconstrução que está sendo feita por etapas.

A paciência pode ser a maior mudança

É justamente nesse ponto que a atual política de contratações precisa ser diferenciada dos anos anteriores. O Manchester United não parece mais tentar resolver cinco problemas em uma única janela. Primeiro atacou o ataque. Depois voltou-se para o meio-campo. Agora, a defesa aparece naturalmente como a próxima prioridade.

Essa abordagem é menos espetacular do que anunciar quatro ou cinco grandes nomes simultaneamente, mas pode ser muito mais sustentável. O mercado de transferências frequentemente produz a ilusão de que um clube precisa comprar um time inteiro para começar a melhorar. Na prática, grandes elencos são construídos ao longo de vários ciclos. Um jogador chega, outro sai, uma posição deixa de ser prioridade porque foi resolvida e outra passa para o topo da lista.

O United parece finalmente estar trabalhando dessa maneira. E isso também explica por que o £1 bilhão não deve ser utilizado como argumento definitivo contra a atual gestão. O dinheiro foi gasto ao longo de diferentes projetos, treinadores e estruturas de recrutamento. Colocar todas essas contratações na mesma conta estatística esconde justamente a mudança que começa a aparecer.

Existe, porém, uma condição para que essa nova estratégia funcione: o United precisa acertar também nas saídas. Não adianta contratar Cunha, Mbeumo e Sesko, reconstruir o meio-campo com Tielemans, Andrey Santos e Baleba e, ao mesmo tempo, manter uma quantidade excessiva de jogadores que pertencem a ciclos anteriores. A permanência de seis titulares da equipe atual em relação ao primeiro jogo da temporada 2022/23 mostra o tamanho da inércia. A taxa de retenção de 54,5% é disparadamente a maior entre os clubes do Big Six.

Esse é o verdadeiro legado do £1 bilhão. Não é apenas o dinheiro que foi gasto. É o fato de que uma parcela importante desse investimento não conseguiu produzir uma renovação proporcional do time. Carrick, portanto, não está apenas construindo uma equipe. Está tentando substituir uma geração de decisões.

A Champions League será o teste definitivo

A volta à Champions League coloca uma espécie de prazo para esse projeto. Na temporada passada, o United teve uma vantagem que dificilmente será repetida: apenas 40 partidas e nenhuma competição europeia. Carrick conseguiu manter uma equipe relativamente estável, com poucas alterações na escalação, e essa continuidade ajudou a impulsionar a recuperação que levou o clube do sétimo ao terceiro lugar. Agora, o calendário pode exigir quase 70 partidas.

Isso significa que os problemas de profundidade, especialmente na defesa, deixarão de ser teóricos. Ao mesmo tempo, será uma oportunidade para descobrir se a reconstrução realmente produziu um elenco mais funcional. O ataque tem novas peças. O meio-campo ganhou juventude, força e variedade. A defesa continua sendo o ponto fraco.

E isso aponta para o próximo verão europeu. Se a lógica atual for mantida, a temporada 2026/27 não precisa ser o fim da reconstrução do Manchester United. Pode ser justamente a temporada que prepara sua terceira e mais importante etapa: a reformulação da defesa.

Um zagueiro de alto nível, um lateral-esquerdo capaz de assumir a posição por anos e mais profundidade para suportar o calendário europeu poderiam completar aquilo que começou no ataque e avançou pelo meio-campo.

O Manchester United ainda está longe de ter um elenco perfeito. Há dependência excessiva de Bruno Fernandes, falta profundidade em algumas posições e uma defesa envelhecida e vulnerável. Mas avaliar o clube apenas pelo £1 bilhão gasto desde 2022 é ignorar a evolução mais importante.

O United não está mais tentando comprar uma solução. Está, finalmente, tentando construir um time. E talvez essa seja a diferença mais importante entre o Manchester United que gastou £1 bilhão e o Manchester United que começa agora a aprender como gastar o próximo.

(Foto: Getty Images)