Marrocos deixou de ser apenas uma seleção capaz de surpreender em grandes torneios. Nos últimos anos, o país transformou o futebol em um projeto nacional, investiu pesado em infraestrutura, fortaleceu a formação de talentos e passou a mirar um objetivo que, há pouco tempo, parecia distante: tornar-se uma das grandes potências do futebol mundial.
A campanha histórica na Copa do Mundo de 2022, quando se tornou a primeira seleção africana a alcançar uma semifinal do torneio, foi apenas o começo. Agora, no Mundial de 2026, os Leões do Atlas voltam a disputar uma vaga entre os quatro melhores e mostram que aquele feito não foi obra do acaso. Por trás dos resultados existe um planejamento de longo prazo que envolve investimentos bilionários, captação de talentos espalhados pelo mundo e preparação para receber a Copa de 2030 ao lado de Espanha e Portugal.
Mais do que construir estádios modernos, Marrocos tenta construir uma identidade capaz de colocá-lo definitivamente entre os protagonistas do futebol internacional.
O sucesso não aconteceu por acaso
Quem acompanha apenas os jogos pode imaginar que a ascensão marroquina surgiu de forma inesperada. Mas quem trabalhou dentro da Federação Real Marroquina de Futebol garante exatamente o contrário.
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Neil Ward, que atuou como diretor de operações técnicas da entidade entre 2020 e 2024, afirma que todo o crescimento da seleção é consequência de uma estratégia muito bem definida.
Segundo ele, desde sua chegada ao país ficou evidente que havia uma ambição enorme de transformar o futebol em uma referência nacional.
Essa visão também é compartilhada por Simon Jennings, responsável pelo desenvolvimento das categorias de base marroquinas entre 2020 e 2024.
Para ele, os resultados atuais são consequência direta de um plano que vem sendo executado há vários anos.
Investimentos transformaram a estrutura do futebol
Grande parte dessa evolução passa pelos investimentos realizados com apoio do rei Mohammed VI.
Nos últimos anos, Marrocos direcionou recursos para praticamente todas as áreas do futebol.
Foram construídos centros de treinamento de última geração, uma academia nacional de alto rendimento, centros regionais para formação de atletas, reformas de estádios e milhares de campos destinados ao futebol amador.
A ideia era oferecer uma estrutura comparável à encontrada nos principais centros do futebol europeu.
Segundo Ward, esse aspecto também facilita a adaptação dos jogadores que atuam nas grandes ligas do continente.
Quando chegam à seleção, encontram instalações que não ficam devendo praticamente nada aos maiores clubes do mundo. Naturalmente, os investimentos também geraram debates dentro do próprio país.
Parte da população questionou se esses recursos não deveriam ser destinados prioritariamente para áreas como educação, saúde, transporte e geração de empregos.
Em resposta, o governo marroquino anunciou aumento significativo no orçamento destinado justamente à saúde e à educação, tentando mostrar que o desenvolvimento esportivo não aconteceria em detrimento de outras áreas sociais.
A diáspora virou arma estratégica
Outro fator decisivo para o crescimento da seleção marroquina está fora das fronteiras do país.
Milhões de marroquinos vivem atualmente em diversos países da Europa, especialmente França, Espanha, Holanda, Alemanha, Bélgica e países escandinavos.
Em vez de esperar que esses jovens escolhessem espontaneamente defender Marrocos, a federação decidiu agir.
Uma rede permanente de observadores foi criada para identificar talentos desde muito cedo.
Os olheiros acompanham jogadores das categorias de base, estabelecem contato com famílias e apresentam o projeto esportivo da seleção antes mesmo de muitos atletas estrearem profissionalmente.
Essa estratégia ajudou Marrocos a convencer diversos jovens que também poderiam representar seleções europeias.
O resultado aparece claramente no elenco atual. Dos 26 jogadores convocados para a Copa do Mundo, 19 nasceram fora do território marroquino.
Ainda assim, segundo profissionais que trabalharam na federação, todos demonstram enorme orgulho ao vestir a camisa da seleção.
A identidade nacional nunca foi tratada como algo secundário.
Nem sempre a disputa termina com vitória
Claro que nem todos os talentos escolhem defender Marrocos. Um dos casos mais conhecidos envolve Lamine Yamal. Filho de pai marroquino, o atacante chegou a ser procurado pela federação ainda durante sua adolescência.
Representantes da RMFF conversaram com o jogador e apresentaram todo o projeto esportivo para ele e sua família.
Mesmo assim, Yamal optou por defender a Espanha. Outro nome bastante comentado atualmente é o jovem meio-campista Ayyoub Bouaddi.
Embora tenha representado as seleções de base da França durante vários anos, acabou escolhendo vestir a camisa marroquina e hoje é considerado uma das grandes promessas da equipe nacional.
Esses exemplos mostram o quanto a federação acompanha de perto praticamente qualquer jogador com raízes marroquinas espalhado pelo futebol europeu.
O próximo desafio é produzir mais talentos em casa
Apesar do sucesso na captação de atletas da diáspora, a federação sabe que ainda existe um passo importante a ser dado.
O objetivo para os próximos anos é aumentar significativamente o número de jogadores formados dentro do próprio país.
Chris Van Puyvelde, ex-diretor técnico da RMFF, revelou que a meta é chegar à Copa do Mundo de 2030 com uma divisão praticamente equilibrada entre atletas nascidos em Marrocos e jogadores criados no exterior.
Para isso, o trabalho nas categorias de base ganhou ainda mais importância.
A conquista da Copa do Mundo Sub-20 em 2025 reforçou essa confiança.
O título teve enorme peso dentro da federação e acabou impulsionando Mohamed Ouahbi ao comando da seleção principal poucos meses depois.
Sua promoção também demonstra que Marrocos procura manter uma linha de trabalho contínua entre as categorias inferiores e o time principal.
Copa de 2030 é parte do projeto de Marrocos
A organização da Copa do Mundo de 2030 representa outro componente fundamental dessa transformação.
Ao dividir a sede com Espanha e Portugal, Marrocos enxerga uma oportunidade única para acelerar ainda mais seu desenvolvimento esportivo.
Novos estádios estão sendo construídos, centros de treinamento seguem sendo ampliados e diversas cidades passam por processos de modernização. Mas, internamente, existe a percepção de que apenas obras físicas não bastam.
O verdadeiro objetivo é deixar um legado permanente para o futebol marroquino.
A França será mais um teste para esse projeto
Nas quartas de final da Copa do Mundo de 2026, Marrocos terá novamente pela frente a França.
Curiosamente, trata-se do mesmo adversário que interrompeu o sonho africano na semifinal do Mundial de 2022.
Independentemente do resultado, porém, a sensação é de que o país já venceu uma batalha muito maior.
A seleção deixou de ser encarada como azarão ocasional para se tornar uma equipe respeitada, organizada e capaz de competir contra qualquer potência do planeta.
Mais importante do que uma campanha específica, Marrocos parece ter criado um modelo sustentável de crescimento. Um projeto que combina infraestrutura, planejamento, formação de atletas e valorização da identidade nacional. Se em 2022 o mundo viu uma surpresa histórica, agora a impressão é diferente: os Leões do Atlas chegaram para ficar. E, se o plano continuar sendo executado da mesma forma, a ideia de transformar Marrocos em uma potência do futebol mundial pode deixar de ser uma ambição ousada para se tornar apenas uma questão de tempo.
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