O Palmeiras terá nesta segunda-feira (23) um encontro com a história. O adversário da última rodada da fase de grupos da Copa do Mundo de Clubes será o Inter Miami, equipe liderada por ninguém menos que Lionel Messi. O palco será o Camping World Stadium, em Orlando, e além da vaga nas oitavas de final, estará em jogo também o orgulho de um dos maiores clubes brasileiros diante do maior jogador do século.
O confronto não é apenas mais uma partida decisiva em um torneio internacional. Para o torcedor palmeirense — e para qualquer fã do futebol brasileiro —, enfrentar Messi é uma experiência carregada de peso simbólico. O argentino de 37 anos já enfrentou clubes brasileiros em três oportunidades anteriores, e venceu todas. Agora, será a vez do Verdão tentar quebrar essa escrita.
Lionel Messi nunca escondeu seu respeito pelo futebol brasileiro. Mas dentro de campo, ele sempre mostrou superioridade nos duelos contra os clubes do país. A primeira lembrança — e talvez a mais dolorosa para os torcedores brasileiros, veio em 2011, na final do Mundial de Clubes da FIFA.
Santos 0 x 4 Barcelona – Mundial 2011
O primeiro encontro de Messi com um clube brasileiro em um cenário oficial ocorreu no dia 18 de dezembro de 2011, na final do Mundial de Clubes da FIFA, em Yokohama, no Japão. O Santos, então comandado por Muricy Ramalho, chegava embalado pelo título da Libertadores e liderado por um jovem Neymar. O clima era de expectativa global por um possível embate equilibrado entre dois gênios da nova geração. Mas em campo, o que se viu foi uma aula coletiva e individual.
O Barcelona de Pep Guardiola dominou todas as ações desde o início. Com posse de bola esmagadora, intensidade e marcação adiantada, o time catalão não deu espaço ao Santos respirar. Messi foi o protagonista da partida, marcando dois gols. O primeiro ao driblar o goleiro Rafael após tabela com Xavi, e o segundo com um chute preciso no canto. Os outros gols foram marcados por Xavi e Fàbregas. O Peixe mal conseguiu passar do meio-campo na maior parte do jogo.
O placar final de 4 a 0 não refletiu apenas superioridade tática, mas também escancarou o abismo que começava a se formar entre a elite europeia e os grandes clubes sul-americanos. A imagem de Messi recebendo o prêmio de melhor em campo e abraçando Neymar, ainda garoto, tornou-se um ícone daquele Mundial. Para o Santos, ficou a lição amarga. Para Messi, foi a consagração definitiva como o rei também dos torneios intercontinentais.
Barcelona 8 x 0 Santos – Troféu Joan Gamper 2013
Dois anos depois, Santos e Barcelona voltaram a se enfrentar, dessa vez no Troféu Joan Gamper, em agosto de 2013, no Camp Nou. A atmosfera era bem diferente: o jogo era um amistoso festivo, que marcava a estreia oficial de Neymar no clube catalão. O Santos, já enfraquecido após a saída de sua joia, não resistiu ao volume ofensivo do time espanhol, que estava em pleno entrosamento.
Lionel Messi voltou a deixar sua marca. Logo aos 8 minutos, ele abriu o placar com categoria, completando cruzamento de Pedro. O jogo ainda contou com gols contra, jogadas plásticas e um ritmo de jogo que o Santos jamais conseguiu acompanhar. O Barcelona foi impiedoso e aplicou uma das maiores goleadas da sua história recente: 8 a 0, com gols de Alexis Sánchez, Pedro, Fàbregas (duas vezes), Dongou (duas vezes) e um contra de Léo.
A diferença técnica foi gritante, e o Santos saiu humilhado. O contraste entre o brilho crescente de Neymar e o abalo psicológico do clube brasileiro ficou evidente. Messi, que jogou apenas o primeiro tempo, novamente foi um dos grandes nomes da noite e mostrou que, mesmo em um jogo sem valor competitivo, sua mentalidade vitoriosa não permitia complacência. Era mais um recital contra um clube do Brasil.
Barcelona 5 x 0 Chapecoense – Joan Gamper 2017
O terceiro e mais emocional encontro de Messi com um clube brasileiro aconteceu em agosto de 2017, também pelo Troféu Joan Gamper. O Barcelona convidou a Chapecoense para o amistoso após a tragédia aérea que vitimou grande parte da delegação catarinense em 2016. A partida, mais do que qualquer outra, tinha um caráter simbólico de solidariedade, homenagem e reconstrução.
Apesar do clima de respeito e comoção, o jogo foi jogado com seriedade. O Barcelona atuou com seu elenco principal, e Messi novamente foi destaque. O argentino marcou um dos cinco gols da vitória catalã e participou da maioria das jogadas ofensivas. Os outros gols foram de Deulofeu, Suárez, Busquets e Denis Suárez. A Chape, em reconstrução e formada por atletas recém-contratados, pouco conseguiu oferecer em termos competitivos.
Messi, mais uma vez, mostrou por que era considerado o melhor do mundo. Mesmo em um cenário de festa, comovente e simbólico, ele se manteve letal, técnico e respeitoso. O jogo serviu como homenagem e também reforçou sua incrível estatística: até ali, três jogos contra brasileiros, três vitórias, 17 gols marcados por suas equipes e nenhum sofrido. Números que agora, o Palmeiras tentará desafiar.
O jogo: decisão para os dois lados
O Palmeiras chega ao confronto com quatro pontos somados: venceu o Al Ahly por 2 a 0 na última rodada após empatar em 1 a 1 com o Porto na estreia. O Inter Miami, por sua vez, surpreendeu ao vencer o próprio Porto por 2 a 1, com gol de falta de Messi, e empatou em 0 a 0 com o Al Ahly.
Na tabela, o Verdão lidera o grupo com 4 pontos e saldo positivo. Um empate pode ser suficiente para garantir a vaga às oitavas de final, dependendo do saldo de gols, mas a vitória elimina qualquer dúvida. Já o Inter Miami, também com 4 pontos, também está na mesma situação, mas o Verdão é tido como favorito
Messi é o cérebro e o coração do Inter Miami. Mesmo com idade avançada, continua desequilibrando com passes entre linhas, cobranças de falta milimétricas e uma leitura de jogo rara. Sua movimentação — hoje menos acelerada, mas mais inteligente — exige marcação coletiva.
O Palmeiras, comandado por Abel Ferreira, tem ferramentas para isso. O sistema com três zagueiros e volantes com boa leitura (como Anibal Moreno e Richard Ríos) pode limitar os espaços em que Messi costuma flutuar. A velocidade de contragolpe com Estevão e Vitor Roque será vital.
Por outro lado, a equipe americana é mais do que Messi. Com peças como Luis Suárez, Redondo e Sergio Busquets, o Inter Miami conta com um núcleo experiente que já conhece os caminhos da glória. O Palmeiras precisará ser agressivo e inteligente para impor seu ritmo.
Foto: Chris Brunskill/Fantasista/Getty Images