A Roma parece ter encontrado finalmente um rumo sob o comando de Gian Piero Gasperini. O tropeço contra o Torino ficou para trás, e os giallorossi embalaram uma sequência impressionante: 12 pontos conquistados, futebol mais sólido e vitória importante contra o Nice na Europa League. Nos números, apenas Rudi Garcia conseguiu mais pontos do que Gasperini nas primeiras rodadas como técnico da Roma — 15, contra 12 do atual comandante. Mas além dos resultados, chama atenção a forma como o treinador conseguiu recuperar dois nomes que estavam em baixa: Lorenzo Pellegrini e Artem Dovbyk.
Quando chegou, Gasperini deixou claro que queria “reencontrar” esses jogadores. Disse em entrevista que precisava recuperar o melhor de cada um para o time voltar a ser competitivo. E, de fato, o trabalho começou a aparecer. Pellegrini virou o protagonista do derby contra a Lazio, enquanto Dovbyk marcou contra o Verona após quase cinco meses sem balançar as redes.
Pellegrini: do quase adeus ao papel de líder
O caso de Lorenzo Pellegrini é emblemático. O ex-capitão viveu um verão turbulento: cirurgia em maio, nada de pré-temporada, contrato caminhando para o fim (vence em 2026) e rumores diários de saída. A diretoria não parecia interessada em renovar, e muita gente dava como certa sua transferência. Mas ele ficou. E Gasperini soube a hora de recolocá-lo no centro do projeto.
Antes do derby, o técnico não poupou provocações construtivas: disse publicamente que o meia precisava “virar um atleta”, ganhar ritmo e mentalidade de quem decide. A resposta veio em campo: Pellegrini foi o melhor em campo contra a Lazio, assumiu a liderança do time e voltou a ser decisivo também contra o Nice na Europa League. Corre, luta, distribui jogo e volta a exibir suas melhores qualidades. Para Gasperini, é um “renascimento” que ainda precisa de continuidade, mas que já mudou a cara da Roma.
Dovbyk: do mercado frustrado à redenção
A história de Artem Dovbyk também teve capítulos tensos. O atacante ucraniano passou o verão “com as malas prontas”: especulado em vários clubes, chegou a ter uma troca quase fechada com o Milan envolvendo Giménez, mas o negócio melou nos últimos momentos da janela. Para completar, ele começou a temporada sem o mesmo espaço no time titular.
Foi nesse cenário que Gasperini decidiu agir. Durante a pré-temporada, manteve Dovbyk em trabalhos extras com sua comissão técnica, pedindo foco e paciência. Em setembro, fez um longo papo com o atacante para que ele deixasse o mercado no passado e se concentrasse no presente. O resultado começou a aparecer no jogo contra o Verona, quando Dovbyk quebrou o jejum de quase cinco meses sem gols. Hoje, o ucraniano parece outro jogador: mais confiante, participativo e ajustado ao estilo do treinador.
O método Gasperini: paciência, cobrança e timing
O que une esses dois casos é o chamado “método Gasperini”. O técnico tem histórico de recuperar jogadores desacreditados. Seu padrão é semelhante: primeiro tira o atleta do foco para trabalhar individualmente, depois reintegra no momento certo, quando sente que o jogador está pronto para render. Foi assim com Papu Gómez e Ilicic na Atalanta, e agora repete a receita na Roma.
Gasperini também se apoia em um sistema coletivo sólido. A defesa, por exemplo, vive grande fase com Svilar no gol. Com a retaguarda firme, ele consegue dar mais liberdade para que jogadores ofensivos cresçam. Ao mesmo tempo, não hesita em cobrar publicamente. A frase sobre Pellegrini — “precisa virar atleta” — mostra a exigência que ele tem, mas também como sabe provocar reações positivas.
Uma Roma em reconstrução
Os números confirmam a evolução: 12 pontos nos primeiros jogos, defesa menos vazada e protagonismo recuperado em jogos grandes. A vitória contra o Nice na Europa League reforça que o time não está só reagindo no campeonato italiano, mas também na competição continental. Para Gasperini, cada vitória é um tijolo na reconstrução de uma Roma que vinha de temporadas irregulares.
O desafio agora é manter o ritmo. Pellegrini precisa de regularidade, Dovbyk de mais gols e confiança. Mas o torcedor já vê um padrão de jogo mais claro, intensidade e jogadores recuperando o melhor de si. Se continuar assim, o trabalho de Gasperini pode ser lembrado como um ponto de virada para o clube.
Um trabalho que inspira
Em poucos meses, Gasperini conseguiu dar nova vida a dois jogadores que simbolizavam dúvidas no elenco. O “método Gasp” não é mágico, mas combina cobrança, paciência e leitura de momento — e tem funcionado. Se conseguir manter essa fórmula, a Roma não só pode brigar mais em cima na Serie A, como também se tornar um adversário perigoso na Europa League.
Para um clube que buscava identidade e resultados, a chegada de Gasperini e a recuperação de peças importantes mostram que há, sim, um caminho. E a torcida, acostumada a altos e baixos, tem motivos para sonhar.