Michael Page, conhecido mundialmente como Michael “Venom” Page (MVP), vive um momento curioso em sua ainda curta trajetória dentro do UFC. Apesar de já ter realizado duas lutas pela organização em 2025, o britânico vem manifestando publicamente sua insatisfação com a falta de novos compromissos no octógono. Em entrevista recente, Page afirmou que tem solicitado combates com frequência, mas costuma ouvir da organização que “não há ninguém disponível”, algo que ele mesmo admite não conseguir entender.
Aos 37 anos, Michael Page é um nome consagrado no MMA, com longa carreira construída fora do UFC, especialmente no Bellator, onde se tornou uma das figuras mais carismáticas e técnicas da modalidade. Ainda assim, sua história no maior evento de MMA do mundo começou apenas no ano passado, já na reta final de sua carreira. Desde a estreia, no entanto, MVP mostrou que não chegou apenas para “cumprir tabela”. Lutando na divisão dos meio-médios, ele impressionou ao vencer Kevin Holland de forma contundente, utilizando seu estilo pouco ortodoxo, baseado em movimentação constante, golpes imprevisíveis e forte controle de distância.
Na luta seguinte, porém, veio o primeiro revés no UFC. Contra o jovem e promissor Ian Machado Garry, Page acabou derrotado em um confronto extremamente equilibrado, decidido nos detalhes. Apesar da derrota, a atuação competitiva reforçou a impressão de que o britânico ainda tinha lenha para queimar em alto nível, mesmo enfrentando atletas mais jovens e em ascensão.
Em 2025, Michael Page decidiu ampliar seus horizontes. Aceitou subir de divisão para realizar uma luta pontual no peso-médio contra o perigoso Sharabutdin Magomedov, o Shara “Bullet”. A aposta se mostrou acertada. Com inteligência tática e frieza, MVP neutralizou o estilo agressivo do russo e saiu com uma vitória importante, que chamou a atenção do público e dos analistas. Na sequência, no UFC 319, novamente pelos médios, Page voltou a se impor, dessa vez contra um nome ainda mais estabelecido: Jared Cannonier. Em uma atuação segura e madura, venceu por decisão unânime, consolidando sua presença na nova categoria.
Apesar desse bom momento, a frustração com a falta de lutas segue evidente. No podcast “Shxts ‘n’ Gigs”, Page detalhou sua insatisfação com a postura do UFC em relação ao seu futuro. “Estou em duas divisões. Eu disse que queria lutar no peso meio-médio”, afirmou. “Aceitei uma luta de última hora no peso médio com o Shara ‘Bullet‘ – não me importei. Depois pensei: ‘OK, me deem uma luta no peso meio-médio’. Ninguém está disponível. ‘OK, me deem outra luta no peso médio’. Me deram outra luta no peso médio (contra o Cannonier). Legal. ‘Me deem uma luta no peso meio-médio’. Ninguém está disponível. Como pode não haver ninguém disponível? É literalmente isso que estou recebendo por mensagem.”
O britânico foi além e revelou um episódio específico que aumentou ainda mais seu desconforto. “Eu disse: ‘OK, esse cara.’ Não estou brincando: teve uma luta outro dia. Vários pesos-meio-médios estavam se apresentando. Ele simplesmente venceu uma luta de forma espetacular. Mandei uma mensagem (para os organizadores de lutas): ‘Essa é uma ótima luta para mim em Londres.’ ‘Ah, temos planos para ele.’ O cara acabou de sair do octógono. Já faz meses que estou na luta e vocês não têm planos para mim, mas têm para ele? Tem alguma coisa acontecendo.”
Michael Page tem talento, mas também precisa de força nos bastidores
Em pouco tempo, Michael Page já ocupa a 10ª posição no ranking dos médios, um feito relevante para alguém que sequer era considerado parte da divisão até poucos meses atrás. Além disso, mostrou claramente que tem condições técnicas de competir tanto entre os meio-médios quanto entre os médios, algo cada vez mais valorizado no UFC. Seu estilo irreverente, quase provocativo, dentro do octógono, com guardas baixas, fintas exageradas e golpes inesperados, segue sendo um diferencial que o torna imprevisível e difícil de enfrentar.
Do ponto de vista estritamente técnico, não há muitos argumentos para frear sua ascensão. Michael Page demonstra boa leitura de luta, controle emocional e capacidade de adaptação, qualidades fundamentais em um elenco cada vez mais competitivo. No entanto, o UFC não se move apenas por critérios esportivos. O apelo comercial, a capacidade de gerar engajamento, rivalidades e influência nos bastidores também pesam, e muito, na hora de definir quem luta com quem.
Nesse contexto, a situação de Michael Page levanta questionamentos legítimos. Mesmo entregando boas performances e resultados expressivos, o britânico parece ainda buscar seu espaço político dentro da organização. Se conseguirá transformar sua qualidade técnica e seu carisma em oportunidades maiores, só o tempo dirá. Por enquanto, o sentimento é de que o UFC, ao menos momentaneamente, parece “esquecer” um atleta que ainda tem muito a oferecer dentro do octógono.
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