A ausência de um centroavante de ofício, que poderia parecer um problema para um clube do tamanho do Milan, tem se revelado, ao contrário, uma oportunidade para Massimiliano Allegri reinventar sua equipe. O técnico livornês, de volta ao Milan, está explorando um elenco cheio de alternativas técnicas e táticas que lhe permite mudar o rumo dos jogos. Pulisic, Nkunku e outros nomes de qualidade vêm se destacando como peças capazes de decidir partidas, seja entrando no decorrer do jogo, seja provocando alterações de módulo tático.
A mudança não acontece por acaso. Desde que voltou ao futebol italiano, Allegri tem dado novas interpretações ao recurso das cinco substituições – que ele mesmo confessou, ao retornar à Juventus em 2021, não estar habituado a gerir. Para um treinador conhecido justamente pela leitura apurada das partidas e pela capacidade de mexer bem no time, trata-se de um trunfo que potencializa seu estilo. E, diferentemente do período final em Turim, quando a qualidade do plantel não era a ideal, em Milão ele encontrou um elenco mais curto, mas mais versátil.
Entradas decisivas e elenco enxuto, mas versátil
Um exemplo claro dessa abordagem veio já na segunda rodada da Serie A, na vitória sobre o Lecce. Com Pulisic voltando de problema no tornozelo, Allegri usou o norte-americano como arma de banco e colheu frutos: o ex-Chelsea entrou para marcar o gol que consolidou o 2 a 0 e garantiu os três pontos. Essa dinâmica se repetiu no último fim de semana, na vitória sobre o Bologna, em San Siro. O Milan, mesmo com apenas 19 jogadores de movimento inscritos e sem compromissos europeus no calendário, apresenta um leque de soluções capaz de transformar o roteiro de um jogo com a entrada de “reservas de luxo” no momento certo.
Contra os rossoblù de Vincenzo Italiano, Allegri mostrou de novo sua leitura de jogo. O técnico montou um primeiro tempo mais contido, com seis meio-campistas dando sustentação a Gimenez como única referência ofensiva, travando os principais circuitos do Bologna. No segundo tempo, sem Leão e com o adversário abrindo espaços para buscar o empate, lançou mão de seus trunfos para alterar o panorama da partida para o Milan.
Pulisic e Nkunku mudam o jogo
Aos 65 minutos, apenas quatro depois de Luka Modric abrir o placar, Allegri tirou Loftus-Cheek e colocou Pulisic para explorar melhor os espaços deixados pela defesa adversária. E a cinco do fim promoveu a estreia de Christopher Nkunku no lugar de Gimenez. Foram alterações cirúrgicas: Pulisic, para muitos supostamente prejudicado pelo 3-5-2, entrou para atormentar a defesa rival, quase sofreu pênalti em disputa com Heggem e ainda deixou Gimenez em condições de ampliar.
Nkunku, por sua vez, mostrou porque é considerado uma peça multifuncional. Mesmo sem estar 100% fisicamente – o próprio Allegri disse que ele tinha no máximo 25 ou 30 minutos de intensidade – conseguiu segurar a bola nos minutos finais, impedir que o time recuasse demais e ainda cavou um pênalti que acabou anulado por confusão da arbitragem com o VAR. É um jogador que pode atuar como vice-Leão, como falso 9 ou até como segundo trequartista num 3-4-2-1.

Uma abundância inesperada para Allegri no Milan
Com o possível retorno de Rafa Leão já na partida contra o Napoli, marcada para 28 de setembro, Allegri terá à disposição todo o seu arsenal ofensivo. O clube não contratou um camisa 9 clássico, de maior porte físico para jogar de costas e ocupar a área, mas montou um setor que oferece opções para montar uma equipe camaleônica e, sobretudo, para mudar de cara durante os jogos.
É um Milan que pode começar com um esquema mais cauteloso, povoando o meio-campo e deixando a definição para o segundo tempo, e depois, à medida que o adversário se desgasta, soltar Pulisic, Nkunku ou até Leão para transformar posse de bola em chances claras. Num futebol em que boa parte das partidas é decidida na meia hora final, ainda mais com as cinco substituições à disposição, ter essa capacidade de alterar o ritmo é uma arma poderosa. Allegri parece estar reencontrando em Milão o perfil de “maestro dos ajustes” que fez sua fama, agora com um elenco que, mesmo sem um centroavante tradicional, oferece soluções em quase todas as posições.