Rafael Leão, Milan
Futebol Serie A

Milan: A novela eterna do centroavante

O Milan já começou a temporada com um déjà-vu daqueles: todo mundo falando que falta um camisa 9 confiável, alguém que realmente resolva os jogos, principalmente quando o time trava nas ideias. E, olha, não é exagero. O início do ano escancarou um problema que vem se arrastando há tempos: os atacantes simplesmente não entregam o que se espera deles. Leão até tenta se reinventar como centroavante, mas não adianta forçar algo que ele não é. O cara nasceu para jogar aberto, arrancar em velocidade, atacar espaço, não ficar de costas para zagueiro trombador. Pulisic também sofre quando é colocado fora da sua zona de conforto: ele rende muito mais vindo de trás, ganhando campo, acelerando.

Ao mesmo tempo, a dupla trazida para “resolver” também não engrenou. Giménez só balançou as redes uma vez — e ainda foi pela Copa Itália, contra o Lecce. No Italiano, zero gols. Já Nkunku teve poucos minutos e, quando entrou, ficou bem longe do nível que o Milan projetava. Com esse cenário, fica difícil imaginar que o clube vá meter uma bolada pesada em mais um centroavante nessa janela. O dinheiro é curto, e a diretoria ainda parece receosa depois de tantos investimentos que não deram retorno.

A única possibilidade concreta de abrir espaço, tanto financeiro quanto esportivo, seria uma proposta por Giménez. Se alguém aparecer disposto a pagar, o Milan pode cogitar reinvestir. Mas, até lá, segue o dilema. Vale lembrar que o último 9 a fazer mais de uma temporada acima de dez gols foi o Giroud — e não por acaso ele virou um dos símbolos do time campeão da Serie A em 2021/22. Desde ele, ninguém conseguiu entregar algo estável.

De Elliott a RedBird: a herança complicada

Para entender como o Milan chegou a esse ponto, é bom olhar para o passado recente. Lá atrás, quando Elliott assumiu a gestão do clube, em 2018, o contexto já não era dos melhores. O fundo americano entrou porque o antigo proprietário não conseguiu pagar um empréstimo, então já dá pra imaginar a bagunça financeira que existia. Mesmo assim, Elliott tentou agir com rapidez: trouxe Higuaín por 18 milhões num empréstimo caro e ainda com opção de compra de 36 milhões. A aposta não deu certo, e em janeiro o argentino foi mandado para o Chelsea.

No desespero para não ficar sem um 9, o Milan desembolsou 35 milhões por Piatek, que começou bem, mas logo virou uma sombra. A partir daí, Elliott ficou queimado com a própria ousadia. O fundo simplesmente travou qualquer gasto pesado no ataque. Vieram Ibrahimovic, Rebic e Origi de graça, e Giroud por 1 milhão mais bônus. Foi uma política mais conservadora: gastar pouco, evitar riscos. Somando tudo que a era Elliott investiu em atacantes, chegamos a 55 milhões. Para quem tem ambição de Champions, isso é quase nada.

Esse cenário explica bastante por que o Milan viveu temporadas de altos e baixos no setor ofensivo. Teve lampejos, teve talento individual, mas nunca uma sustentação forte em termos de elenco. Mesmo assim, o fundo conseguiu montar um projeto minimamente competitivo e preparou o terreno para a chegada da RedBird.

O gasto pesado da RedBird… e o retorno que não veio

Quando a RedBird assumiu o clube, em agosto de 2022, a expectativa era enorme. Afinal, o grupo de Gerry Cardinale desembolsou algo em torno de 1,2 bilhão para comprar o Milan. A torcida achava que, finalmente, chegaria o momento de montar um elenco de ponta, com contratações pontuais e de alto impacto ofensivo. Mas não foi bem assim. Logo de cara, no primeiro verão, o único investimento real na posição de atacante foi Okafor, comprado por 14 milhões. Ele até mostrou coisas interessantes, mas longe de ser um goleador que mudasse o patamar.

Depois veio a temporada 2024/25, marcada pela chegada de Morata por 15 milhões. Ele até foi bem — cinco gols em seis meses —, mas foi vendido logo na sequência para o Galatasaray. Era uma peça passageira, não um pilar. Em janeiro, chegaram os 30 milhões por Santi Giménez, que fez cinco gols entre fevereiro e maio, nada absurdo para quem chega com status de solução. E aí, na última janela, veio a contratação mais pesada: Nkunku, por 38 milhões mais 4 de bônus. Até agora, zero retorno consistente.

Somando tudo o que a RedBird investiu em atacantes, chegamos a cerca de 100 milhões, incluindo os 3 milhões do empréstimo de João Félix. Ou seja: muito dinheiro, pouco acerto. É o tipo de cenário que faz qualquer dirigente pensar duas vezes antes de abrir outra carteira pesada para outro 9.

E agora, Milan?

Hoje, o Milan vive preso nesse paradoxo: precisa urgentemente de um camisa 9 decisivo, mas teme repetir erros recentes. São anos investindo muito em atacantes que não viraram protagonistas. E, para piorar, o mercado está inflacionado, com pouquíssimos jogadores realmente determinantes disponíveis por valores possíveis.

Enquanto isso, a equipe se vira como pode. Leão improvisado, Pulisic adaptado, reservas oscilando. É sempre aquela sensação de que falta algo para transformar o Milan de um time competitivo em um time realmente dominante.

No fim, a solução passa por coragem, convicção e um planejamento claro — algo que o clube ainda não conseguiu conciliar da maneira ideal. Até que isso aconteça, a novela do camisa 9 vai continuar. E, do jeito que as coisas andam, parece que essa história ainda vai render muitos capítulos.