Não é difícil dizer que Morgan Rogers está sendo capaz de chocar o mundo nesta temporada de 2025/26. Antes dos jogos importantes começarem, o inglês levava consigo a confiança da diretoria do Aston Villa, mas com o passar do tempo, o fato de terem pedido 100 milhões de euros ao Tottenham, simplesmente parecia ter envelhecido como leite. Entretanto, se desmascarou como um belo vinho, porque o meio cresceu absurdamente de produção, e hoje, é um dos nomes mais quentes da Premier League.
O início do ano foi duro, pesado e barulhento, no pior sentido possível para o meia do Aston Villa. Hoje? O barulho é outro. É aplauso, é grito da Holte End, é torcida de pé.
Os Villains venceram o Manchester United por 2 a 1 no último domingo, em um jogo em que, sendo bem honestos, foi dominado em vários momentos. Mas futebol não é concurso de posse de bola. Futebol é bola na rede. E quando Morgan Rogers está em campo, basta um momento, um espaço, um lampejo. Ele tem resolvido. Como tem acontecido com frequência, ele fez de novo.
A vitória levou o Villa a 10 triunfos consecutivos em todas as competições, deixando o time de Unai Emery a apenas três pontos do líder Arsenal. Uma campanha que beira o inacreditável, principalmente quando lembramos que o clube não venceu nenhuma das primeiras cinco rodadas da Premier League, seis jogos sem vitória contando a eliminação na Copa da Liga.
E esse começo torto também coincidiu com a fase mais complicada de Morgan Rogers com a camisa grená e azul.
Vaias, ironia e um passe que virou símbolo
Rogers passou sete jogos sem nenhum gol ou assistência no início da temporada. Para um jogador que havia somado 27 participações diretas em gols em 2024/25 (14 gols e 13 assistências), não havia outro caminho além de ser considerado pouco. Muito pouco. A paciência da torcida acabou na Europa League, contra o Bologna, em setembro, inclusive.
Aos 89 minutos, Rogers acertou um passe simples para Evann Guessand pela direita. Passe correto, simples. Nada demais, é normal ver vários desses numa partida comum, seja no profissional ou quando você sai para jogar bola com os seus amigos. Mas a torcida já estava de saco cheio, amargurada e respondeu com aplausos irônicos. Altos. Claros. Dolorosos. Um recado direto.
Os números daquele jogo ajudam a explicar o contexto: apenas 41,7% de aproveitamento nos passes (10 certos em 24). Foi sua pior marca pelo Villa em uma partida com mais de 10 passes tentados. Ainda assim, Unai Emery manteve Rogers em campo até o fim e depois explicou o porquê.
“Ele não jogou bem, mas trabalhou para o time. Eu queria ver como ele reagiria à frustração da torcida. Ele precisava passar por isso e crescer”, disse o treinador.
Confiança é tudo (e Rogers está transbordando)
Desde então, Morgan Rogers virou outro jogador. Ou melhor: virou a melhor versão de si mesmo. São 11 participações em gols nos últimos 15 jogos, sendo nove delas na Premier League. Nesse recorte, só dois jogadores têm números melhores: Erling Haaland e Bruno Fernandes. Nada mal para alguém que era alvo de vaias há poucos meses.
Mas não é só quantidade. É qualidade. Rogers decidiu fazer gols bonitos, daqueles que você levanta do sofá antes da bola entrar. Chute de fora da área contra o Tottenham. Falta perfeita contra o Leeds. Bomba contra o West Ham. E dois golaços diante do Manchester United, com destaque para o primeiro: qualidade absurda, um chute que parecia ter congelado tudo ao redor, só esperando o caminho dela terminar dentro das redes, sublime.
Os números explicam (e impressionam): 7 gols na Premier League com apenas 2,86 de xG. Um overperformance de +4,14, o maior da liga. Traduzindo: ele está marcando gols que, estatisticamente, quase ninguém marcaria, no caso, não eram esperados de ocorrerem. Três deles vieram de fora da área, ninguém fez mais.
Isso não acontece por acaso. Isso é confiança. É aquele momento em que o jogador pensa “vai dar” e dá.
O que mudou?
Não existe uma resposta única, nenhuma dessas situações tem uma receita de bola, elas só aparecem de uma hora pra outra, a partir do que cada um procura para si. A pré-temporada foi atrapalhada por lesão. Ele jogou fora de posição em vários jogos, mais aberto, mais pela esquerda. O encaixe demorou. Mas o principal fator parece ser mental.
“Estou orgulhoso de mim por não desistir”, disse Rogers em novembro. Desde então, embalou dois jogos seguidos com dois gols na Premier League. Coincidência? Difícil.
Rogers hoje é o tipo de jogador que tem dado as caras para os grandes jogos, assim como tem sido um destaque no Aston Villa, se tornou uma peça incontestável na Seleção da Inglaterra, com seu nome sendo fortemente discutido para marcar presença entre os titulares. Thomas Tuchel hoje, se encontra apaixonado pela estrela dos Villains, e muito se diz pelo o que meia tem feito dentro das quatro linhas.
Claro, a concorrência é pesada. Cole Palmer, por exemplo, é um deles. E o duelo entre os dois neste fim de semana promete. Se Rogers vai manter esse nível? Ninguém sabe. Futebol não dá garantias. Mas uma coisa é certa: Morgan Rogers não se escondeu das vaias. Ele cresceu com elas. E agora, com confiança em alta e um chute calibradíssimo, parece praticamente imparável.
Foto: Getty Images