O técnico Mircea Lucescu morreu hoje (07) aos 80 anos, vítima de complicações cardíacas, em Budapeste, capital da Romênia. A informação foi confirmada nesta terça-feira pelo Hospital Universitário de Emergência de Bucareste, comovendo milhares de fãs e colegas de profissão.
Dono de um currículo marcado conquistas por boa parte dos times que treinou, Mircea Lucescu treinou equipes da Romênia, Itália, Turquia e Rússia. Além disso, venceu diversos prêmios individuais neste período. Confira a seguir, um resumo de sua relação de seis décadas com o futebol.
Quem foi Mircea Lucescu? Relembre a trajetória
Nascido em Budapeste no dia 29 de julho de 1945, o romeno trilhou os primeiros passos no Dínamo Bucareste em 1963. Contudo, a sua trajetória com o esporte teve que ser conciliada com a faculdade de economia nos primeiros anos. Durante as duas temporadas seguintes foi emprestado para o Stilia Bucareste, período esse que foi convocado para a seleção principal pela primeira vez. A Romênia venceu a Suíça por 2 x 1 em novembro de 1966.
Ao retornar ao Dínamo, mostrava ser um atleta experiente mesmo com a jovem idade. Mircea Lucescu era um jogador inteligente, circulando ao redor do campo, sem transparecer cansaço e mostrava um aspecto de liderança nos vestiários. Apresentando essas características, fez parte da histórica seleção da Romênia que classificou para a Copa do Mundo, depois de 32 anos de espera.
Nesta competição, recebeu uma conquista individual que mostrava a sua conduta de líder. O técnico Angelo Niculescu entregou a faixa de capitão a Mircea, que fez um papel elogiado como principal referência de liderança, mesmo com a eliminação na primeira fase da Copa.
Por conta das atuações, clubes estrangeiros fizeram proposta para Mircea Lucescu, que resolveu ficar no Dínamo Bucareste. A equipe foi dominante na época, conquistando seis campeonatos romenos e uma Copa Nacional. Permaneceu na equipe até 1977 (ano do último título nacional vencido pelo jogador), quando foi contratado pelo Corvinul Hunedoara, clube de pouca tradição no país. Vestiu a camisa do Corvinsul por cinco anos, inclusive realizando a função jogador-treinador, até decretar a aposentadoria dos gramados em 1982.
A volta de Mircea Lucescu ao futebol não demorou muito para acontecer, dessa vez, como técnico. Nos primeiros meses na função, revelava que seria um treinador reconhecido. O primeiro grande feito ocorreu em 1983, quando comandou a Romênia em uma histórica classificação para a Eurocopa. A seleção foi eliminada na primeira fase, em um grupo com Alemanha Ocidental, Espanha e Portugal. Ele permaneceu no cargo da Romênia até 1986, quando não conseguiu levar a Romênia na Copa do Mundo.
Após a demissão, Mircea Lucescu retornou ao Dínamo Bucareste. Ao contrário dos tempos de jogador, o Steaua Bucareste era a equipe a ser batida na Romênia, tendo o ápice conquistado no título da Liga dos Campeões de 1985/86. Apesar do sucesso do rival, o técnico foi o responsável por um campeonato nacional e duas Copas no período, recebendo elogios pelo trabalho.
A moral de Mircea Lucescu estava tão alta que recebeu propostas para trabalhar no futebol italiano. Durante sete temporadas, passou por Pisa, Brescia e Reggina. A volta para a Romênia aconteceu na temporada 1997-98, quando assumiu o comando técnico do Rapid Bucareste. Na equipe conquistou a Copa da Romênia, primeiro título relevante da instituição em mais de 20 anos.
Após a conquista, recebeu aquela que seria a grande oportunidade até então: treinar a poderosa Internazionale de Ronaldo Fenômeno, Roberto Baggio, Iván Zamorano, Diego Simeone, etc. Mircea não teve uma passagem ruim, porém, a exigência em comandar aquele time era alta e durou apenas 17 partidas. Voltou ao Rapid Bucareste, conquistando o histórico Campeonato Nacional de 1998/99, quebrando um tabu de 32 anos sem títulos na competição.
Em 2000, recebeu outra grande chance: treinar o Galatasaray, campeão da última Copa da UEFA. Liderou a equipe em uma inesquecível vitória na Supercopa da UEFA, vencendo o Real Madrid por 2 x 1. Depois de conquistar o Campeonato Turco de 2001/02, treinou o rival Besiktas, conquistando a edição seguinte do torneio.
Depois de uma temporada apagada no clube turco, resolveu buscar um novo desafio: comandar o Shakhtar Donetsk. No time ucraniano, Mircea Lucescu tornou um ídolo eterno, criando uma dinastia jamais vivida pelo clube até então. O treinador romeno montou uma formação sólida e competitiva, sem perder a qualidade técnica dos jogadores.
Os títulos logo vieram, conquistou oito Campeonatos nacionais, seis Copas da Ucrânia e sete Supercopas do país. Contudo, o principal título ocorreu no âmbito continental. Na temporada 2008/09, o Shakhtar Donetsk eliminou Tottenham, CSKA Moscou, Olympique de Marseille e o rival Dínamo de Kiev. O adversário da final era o tradicional Werder Bremen, que perdeu para os “Mineiros” ucranianos por 2 x 1. A história estava sendo escrita novamente para Mircea Lucescu. O técnico romeno era protagonista em mais um país, conquistando um célebre título nacional.
Após a saída do Shakhtar Donetsk em 2016, assumiu o comando do Zenit na temporada seguinte. Lucescu continuou com seu espírito copeiro e venceu mais uma taça: a Supercopa da Rússia. No entanto, a decisão seguinte abalou uma torcida que tanto o admirava. Isso porque, ele se tornou técnico do Dínamo de Kiev. A escolha repercutiu negativamente em Donetsk, mas não prejudicou a reputação vencedora do romeno. Conquistou o Campeonato Ucraniano de 2020/21, Copa da Ucrânia de 2020/21 e a Supercopa Ucraniana de 2020.
Mesmo assim, outro adversário surgiu na vida de Mircea Lucescu: a Guerra da Ucrânia. Ao contrário dos times de dentro do campo, este rival não poderia ser derrotado pelo romeno. A realidade vivida pelo país no conflito contra a Rússia impactou a motivação dele ao trabalhar com os atletas. A preocupação pela vida da população e do território era abordada pelo técnico, que, ao mesmo tempo, sofria de problemas de saúde. Este momento fez com que anunciasse a aposentadoria do futebol em 2023.
Todavia, a sua paixão pelo esporte era tamanha, que voltou a função de técnico para treinar a Romênia em 2024. A principal missão de Mircea Lucescu era levar a Romênia para a Copa do Mundo de 2026. Encerrar a vitoriosa e longeva carreira com esta façanha seria a chave de ouro. Por pouco o sonho não aconteceu. A seleção foi eliminada na repescagem europeia pela Turquia por 1 x 0, país que Lucescu nutria um grande carinho.
Uma semana depois deste jogo, Mircea Lucescu sofreu infartos no miocárdio, que levaram à internação e ao coma induzido no Hospital Universitário de Emergência de Bucareste. O lendário técnico, conhecido por inúmeros títulos, não resistiu ao estado e faleceu. Em nota, a instituição de saúde destacou a relevância dele como um das principais personalidades da história do esporte romeno. A morte gerou enorme repercussão internacional, lembrando a trajetória de sucesso de um dos grandes treinadores que o futebol europeu já teve.
Créditos da imagem da capa: Divulgação/AFP