José Mourinho, Benfica
Futebol La Liga

Mourinho 2.0: como o técnico mudou sua liderança e chega diferente ao Real Madrid

Contratado pelo Real Madrid, José Mourinho viveu uma situação que ajuda a explicar como sua forma de liderar evoluiu ao longo dos anos. De volta depois mais de uma década, o técnico português ajudou Andreas Schjelderup a contornar uma situação delicada e que terminou com o enfim, sobressaída do norueguês como um talento nato.

Schjelderup chegou ao clube cercado de expectativas, apontado como uma das grandes promessas do futebol europeu. No entanto, o talento demonstrado nas categorias de base demorou a aparecer em campo. Em vez de abandonar o jogador à própria sorte, Mourinho entendeu que o problema não era apenas técnico ou tático: havia uma questão mental que precisava ser trabalhada.

A situação ficou ainda mais delicada quando, em novembro de 2025, Schjelderup se envolveu em um processo judicial relacionado à divulgação de um vídeo com conteúdo sexual envolvendo um menor — caso que guardava semelhanças com o vivido por Raúl Asencio, na Espanha.

Só que Mourinho optou por proteger o atleta. O treinador acreditava que aquele era justamente o momento em que Schjelderup mais precisava sentir o respaldo do clube e da comissão técnica. Ao mesmo tempo, exigiu uma resposta dentro de campo: mais comprometimento defensivo, maior intensidade competitiva, regularidade e participação coletiva. A partir disso, a aposta apresentou resultados

Schjelderup, símbolo da nova gestão de Mourinho

O Benfica estava próximo de negociar o norueguês com o Brugge por cerca de 10 milhões de euros durante a janela de inverno. Mourinho se opôs à venda e convenceu a diretoria a mantê-lo.

A decisão se mostrou acertada. Schjelderup encerrou a temporada como uma das principais figuras da equipe, com 10 gols — incluindo dois contra o Real Madrid — e sete assistências.

O próprio jogador reconheceu publicamente a importância do treinador em sua recuperação. Meses depois, o Benfica recebeu uma proposta de 70 milhões de euros pelo atacante. O episódio resume bem a transformação do técnico português.

Um Mourinho diferente

José Mourinho, Real Madrid
Foto: Adrian Dennis/AFP

 

O Mourinho que desembarca em Madri hoje é muito diferente daquele que deixou a capital espanhola há 13 anos.

Já não é o treinador que transformava coletivas de imprensa em campos de batalha após uma derrota. O português compreendeu as mudanças do futebol moderno e adaptou sua forma de trabalhar a uma nova realidade, na qual os jogadores se tornaram marcas globais e administram suas carreiras como verdadeiras empresas.

Por isso, passou a adotar uma gestão mais cuidadosa e estratégica.

Mourinho se cercou de profissionais especializados em comunicação, imagem e planejamento. Poucas coisas são deixadas ao acaso. Da mensagem transmitida nas redes sociais ao posicionamento público do clube, tudo é pensado de forma minuciosa.

Um novo modelo de liderança

A principal mudança, porém, aconteceu dentro do vestiário. Se na primeira passagem pelo Real Madrid a liderança era construída muitas vezes pelo confronto e pela pressão constante, o chamado “Mourinho 2.0” prefere a construção de relações de confiança e responsabilidade.

Trata-se de uma evolução natural para alguém que acumula quase três décadas no mais alto nível do futebol. Sua essência permanece a mesma: a ambição, a exigência diária e a obsessão pela vitória continuam intactas. O que mudou foi o método.

Hoje, Mourinho busca convencer seus jogadores por meio do diálogo e da responsabilização individual, em vez da imposição.

Existe, contudo, um princípio que segue inegociável para o treinador português: a proteção do grupo. Desse modo, o vestiário continua sendo um espaço sagrado.

Mourinho permanece disposto a assumir o desgaste público para blindar seus jogadores quando a pressão aumenta. É por isso que costuma valorizar a presença de líderes internos fortes, capazes de manter a hierarquia do elenco sem disputar protagonismo com o treinador.

Para o bem ou para o mal, continua sendo ele quem absorve os impactos externos para permitir que o grupo permaneça focado exclusivamente no desempenho esportivo.

Escolher as batalhas

O Mourinho que muitos torcedores guardam na memória parecia estar constantemente em guerra. Árbitros, dirigentes, imprensa, calendário ou adversários: qualquer frente podia se transformar em um confronto. A experiência, porém, ensinou o português a selecionar melhor quais batalhas realmente valem a pena.

Hoje, seu foco está concentrado naquilo que fortalece o projeto esportivo e gera benefícios concretos para a equipe.

Há características que nunca desaparecerão de sua personalidade: a competitividade extrema, a lealdade ao grupo, a busca obsessiva por resultados e a cobrança permanente.

Mas o método evoluiu. O Mourinho atual procura construir a partir da responsabilidade, da confiança e de uma identidade coletiva sólida. É, sem dúvida, outro Mourinho.

Créditos da foto de capa: Divulgação/Getty Images