O possível retorno de José Mourinho ao Real Madrid vem sendo tratado por parte da imprensa espanhola como uma tentativa do clube de recuperar autoridade dentro de um vestiário considerado cada vez mais instável. O português é visto internamente como uma figura capaz de reorganizar hierarquias, controlar egos e devolver competitividade ao elenco merengue.
Mas existe um detalhe importante nessa discussão: as passagens mais recentes de Mourinho mostram justamente o contrário.
Nos últimos anos, o treinador português acumulou trabalhos marcados por desgaste emocional, conflitos públicos, ambientes internos tensos e queda de rendimento após bons inícios. Mais do que um técnico “apaziguador”, Mourinho frequentemente se transformou em peça central dos próprios conflitos dos clubes por onde passou.
E isso levanta uma questão importante dentro do atual cenário do Real Madrid:
o clube está trazendo o Mourinho que reconstruía mentalidades vencedoras no início da década passada ou o Mourinho que passou a deixar ambientes cada vez mais pesados nos últimos trabalhos?
A diferença entre essas duas versões talvez seja justamente o ponto mais importante da possível contratação.
Manchester United marcou início do desgaste mais forte

Embora Mourinho ainda tenha conquistado a Liga Europa pelo Manchester United em 2017, foi justamente na Inglaterra que muitos passaram a enxergar o início mais claro de seu desgaste.
O principal símbolo daquele período foi a relação extremamente turbulenta com Paul Pogba.
O francês deixou de ser apenas um jogador em má fase para virar praticamente símbolo da guerra interna do clube. Mourinho retirou a vice-capitania de Pogba, criticou comportamentos do atleta publicamente e protagonizou episódios constrangedores no centro de treinamento do United. Em vários momentos, a sensação era de que treinador e jogador disputavam poder internamente.
Mas Pogba não foi caso isolado.
Luke Shaw também sofreu críticas públicas constantes, assim como Anthony Martial. Mourinho frequentemente utilizava entrevistas coletivas para expor problemas individuais do elenco, algo que começou a gerar enorme desgaste interno.
Ao mesmo tempo, o português passou a atacar publicamente a diretoria pela falta de reforços considerados necessários. O ambiente ficou tão pesado que os meses finais de sua passagem pelo clube foram descritos por parte da imprensa inglesa como “tóxicos”.
A queda de rendimento dentro de campo agravou ainda mais o cenário.
Depois de um início competitivo, o United perdeu força rapidamente, apresentou futebol extremamente irregular e terminou demitindo Mourinho em 2018.
E talvez o mais importante: muitos dos problemas observados naquele período começaram a se repetir nos trabalhos seguintes.
No Totteham os problemas internos multiplicaram

No Tottenham, Mourinho inicialmente parecia reconstruir rapidamente o ambiente competitivo da equipe. O time chegou a liderar a Premier League em determinado momento e voltou a demonstrar força competitiva em jogos grandes.
Mas o cenário voltou a se deteriorar rapidamente.
O estilo extremamente reativo passou a incomodar parte do elenco e da torcida. O Tottenham frequentemente abria vantagem nos jogos e depois recuava excessivamente, acumulando empates e derrotas após perder controle emocional das partidas.
Ao mesmo tempo, Mourinho voltou a utilizar entrevistas coletivas para criticar jogadores indiretamente, algo que já havia acontecido em outros clubes.
A eliminação para o Dinamo Zagreb na Liga Europa virou o momento mais simbólico daquela passagem. Após vencer o primeiro jogo por 2 a 0, o Tottenham sofreu virada histórica na Croácia e foi eliminado de maneira extremamente traumática.
A derrota gerou enorme crise interna.
Pouco tempo depois, Mourinho acabou demitido dias antes da final da Copa da Liga Inglesa. A decisão chocou parte do futebol inglês justamente porque representava quebra importante em sua carreira: foi a primeira passagem em que o português deixou um clube sem conquistar nenhum título.
Além disso, muitos jogadores passaram a demonstrar desgaste emocional evidente com o ambiente extremamente pressionado criado internamente.
O principal símbolo do desgaste interno de José Mourinho acabou sendo a relação com Dele Alli.
Mourinho chegou inicialmente tentando “resgatar” o meia inglês, que vinha em queda após os anos mais fortes com Mauricio Pochettino. No começo, o português até demonstrou apoio público ao jogador e tentou recolocá-lo como peça importante do elenco.
Mas a relação rapidamente se deteriorou.
O treinador passou a questionar publicamente postura, intensidade e comprometimento de Dele Alli nos treinamentos e jogos. Em documentários e bastidores divulgados pelo clube, Mourinho chegou a fazer cobranças extremamente pesadas ao jogador, incluindo frases que viralizaram no futebol inglês, insinuando que Alli estava acomodado e desperdiçando o próprio talento.
Com o tempo, Dele praticamente desapareceu da equipe principal.
O caso virou um dos maiores exemplos recentes de desgaste entre Mourinho e jogadores jovens. Parte da imprensa inglesa passou a enxergar que o português tinha dificuldade para lidar com atletas que precisavam de recuperação emocional ou desenvolvimento gradual.
Outra crise no Tottenham foi a relação com Danny Rose.
O lateral revelou posteriormente que se sentia completamente fora dos planos e criticou a maneira como foi tratado internamente. Rose afirmou que Mourinho praticamente deixou claro que ele não teria espaço, aumentando o clima ruim dentro do elenco.
Também existiram problemas envolvendo Ndombélé.
Mourinho criticou o francês publicamente diversas vezes, especialmente por intensidade física e postura sem bola. Em determinados momentos, as entrevistas do treinador pareciam funcionar quase como cobranças individuais públicas, algo que voltou a gerar desgaste no ambiente.
Além disso, muitos relatos da imprensa inglesa apontavam que o elenco começou a ficar emocionalmente esgotado com o clima extremamente pesado criado nas derrotas.
Roma viveu intensidade extrema e conflitos constantes

Na Roma, Mourinho talvez tenha vivido sua relação emocional mais intensa com torcida e cidade desde a primeira passagem pelo Real Madrid.
No início, o cenário parecia perfeito.
O português conquistou a Conference League em 2022, primeiro título europeu da história da Roma, e rapidamente virou figura idolatrada pelos torcedores. O clube voltou a competir internacionalmente e recuperou sensação de identidade emocional extremamente forte.
Mas o ambiente começou a se desgastar com o tempo.
Mourinho passou a entrar constantemente em conflito com arbitragem italiana, criando praticamente uma guerra pública contra a Serie A em diversos momentos. O treinador frequentemente utilizava coletivas para atacar árbitros, reclamar de decisões e aumentar pressão externa sobre a equipe.
Ao mesmo tempo, começou a reclamar publicamente da falta de profundidade do elenco.
O português insistia repetidamente que a Roma não possuía jogadores suficientes para competir em alto nível em várias competições simultaneamente. Em muitos momentos, as declarações acabavam expondo dirigentes e aumentando ainda mais a tensão interna.
Outro problema importante era o desgaste emocional constante.
Os ambientes criados por Mourinho normalmente funcionam através de enorme intensidade psicológica. Inicialmente isso costuma unir elenco e torcida. Porém, ao longo do tempo, o cenário frequentemente passa a gerar exaustão emocional.
E isso começou a aparecer claramente na Roma.
O time passou a oscilar muito fisicamente e emocionalmente. Derrotas importantes para Lazio em clássicos locais e eliminações contra o Milan aumentaram ainda mais a pressão.
Internamente, também existia desgaste entre comissão técnica e diretoria por causa do mercado de transferências. Mourinho queria elenco mais forte e mais opções, enquanto o clube enfrentava limitações financeiras importantes.
O resultado foi um ambiente cada vez mais pesado.
Mesmo após o título europeu e a final de Liga Europa em 2023, Mourinho terminou demitido em 2024 em meio a enorme desgaste interno e campanha irregular.
Fenerbahçe repetiu padrão de conflitos externos e internos

A passagem pelo Fenerbahçe aprofundou ainda mais a percepção de que Mourinho se tornou treinador extremamente conflituoso nos últimos anos.
Na Turquia, o português rapidamente entrou em choque com o ambiente local.
O principal alvo passou a ser a arbitragem turca. Mourinho acumulou críticas públicas constantes às decisões dos árbitros e frequentemente sugeria que existia favorecimento ao rival Galatasaray
A rivalidade ganhou clima ainda mais pesado após episódios envolvendo o técnico rival Okan Buruk. Mourinho chegou a ser suspenso depois de confusões e declarações envolvendo o clássico entre os clubes.
Mas os problemas não ficaram apenas no ambiente externo.
Dentro de campo, o Fenerbahçe acumulou frustrações importantes. O time não conseguiu vencer os principais clássicos locais, sofreu eliminações relevantes e caiu precocemente na Champions League.
Com o tempo, o ambiente interno também começou a se desgastar fortemente.
A pressão criada pelas declarações públicas, o foco constante em arbitragem e rivalidades externas e a falta de resultados expressivos aumentaram o desgaste ao redor da equipe. Mourinho acabou deixando o clube após pouco mais de um ano em meio a novo cenário turbulento.
A pergunta que fica: Real Madrid busca controle interno na pessoa certa?
O atual momento do Real Madrid explica por que José Mourinho voltou a ganhar força internamente. O clube vive ambiente turbulento, marcado por pressão política, conflitos no elenco e instabilidade técnica. Nesse cenário, Mourinho aparece como uma figura capaz de recuperar rapidamente autoridade e competitividade.



