Movsar Evloev, russo invicto com um cartel de 19 vitórias (9 delas no UFC), é um dos nomes mais consistentes e técnicos da divisão dos penas. Mesmo assim, continua à margem das disputas pelo cinturão. Após a vitória de Alexander Volkanovski sobre Diego Lopes no UFC 314, o australiano mencionou Evloev como possível próximo desafiante. No entanto, o russo anunciou recentemente que lutará em julho, agradecendo a Volkanovski pela menção, mas sugerindo que o confronto entre eles ocorra apenas em dezembro.
Essa hesitação em promover Evloev a uma disputa de título não é nova e reflete uma combinação de fatores que vão além de seu desempenho dentro do octógono.
Um estilo eficiente, mas pouco atraente
Evloev é um mestre do grappling e da estratégia. Seu jogo é baseado em controle, pressão e anulação dos pontos fortes dos adversários. Vitórias sobre nomes como Aljamain Sterling, Arnold Allen, Dan Ige e Diego Lopes atestam sua eficácia. No entanto, todas essas vitórias vieram por decisão, sem nocautes ou finalizações. Em uma era em que o UFC valoriza performances espetaculares e lutadores que “vendem lutas”, o estilo metódico de Evloev não gera o mesmo apelo midiático.
O próprio Evloev reconhece essa percepção e, antes de enfrentar Sterling no UFC 310, afirmou que pretendia mostrar mais de seu striking para provar que não é apenas um wrestler. Contudo, a luta acabou se desenrolando majoritariamente no chão, frustrando seus planos de exibir uma performance mais “empolgante”.
Além do estilo de luta, Evloev também não é conhecido por declarações polêmicas ou por criar rivalidades que atraiam a atenção do público. Em um esporte onde o marketing pessoal pode ser tão importante quanto o desempenho, sua postura reservada o coloca em desvantagem. Enquanto outros lutadores utilizam as redes sociais e entrevistas para se promoverem, Evloev mantém um perfil discreto, focado exclusivamente no desempenho esportivo.
Essa abordagem pode ser admirável do ponto de vista esportivo, mas no contexto do UFC, onde o entretenimento é parte fundamental do negócio, pode ser um obstáculo para oportunidades maiores.
A política do UFC
A decisão do UFC de promover a luta entre Volkanovski e Diego Lopes pelo cinturão interino, mesmo com Evloev tendo vencido Lopes anteriormente, exemplifica a preferência da organização por confrontos que gerem maior interesse do público. Lopes, com seu estilo agressivo e carisma, conquistou rapidamente os fãs, tornando-se uma escolha mais “comercial” para a disputa de título.
Evloev expressou frustração com essa situação, afirmando que, aos olhos do UFC, ainda não é digno de uma disputa de título . Ele também mencionou que foi impedido pela segurança de parabenizar Volkanovski após sua vitória no UFC 314, o que reforça a sensação de isolamento dentro da organização.
No final, existe justiça em negar uma disputa de título para Evloev?
Do ponto de vista esportivo, é difícil argumentar contra a merecida chance de Evloev disputar o cinturão. Seu cartel invicto, vitórias sobre adversários de alto nível e consistência dentro do octógono o colocam como um dos principais nomes da divisão. A ausência de finalizações ou nocautes não diminui seu domínio técnico e capacidade de neutralizar os oponentes.
Além disso, com nomes como Max Holloway e Ilia Topuria migrando para outras categorias, e outros contendores já tendo perdido para Volkanovski, Evloev surge como a opção mais lógica e justa para uma próxima disputa de título.
Evloev representa o dilema entre mérito esportivo e apelo comercial no UFC. Seu estilo eficiente, porém pouco espetacular, e sua postura discreta fora do octógono o colocam em desvantagem em uma organização que valoriza tanto o desempenho quanto o entretenimento.
No entanto, ignorar sua trajetória e conquistas seria uma injustiça esportiva. Evloev merece, sim, uma chance pelo cinturão dos penas. Resta saber se o UFC reconhecerá esse mérito ou continuará priorizando o espetáculo em detrimento da excelência técnica.
(Foto: Jeff Bottari/Zuffa LLC)