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Automobilismo Fórmula 1

As mudanças técnicas que transformaram a Red Bull e devolveram Verstappen à briga pelas vitórias na Fórmula 1

A Red Bull encontrou o caminho para transformar uma temporada que vinha sendo complicada em uma sequência de resultados expressivos na Fórmula 1. Depois de enfrentar dificuldades com o RB22 nas primeiras 14 etapas do campeonato, Max Verstappen viu o cenário mudar a partir do GP de Baku, quando a equipe introduziu um pacote significativo de atualizações aerodinâmicas. As mudanças ajudaram o holandês a vencer as duas corridas seguintes, em Sepang e Singapura.

A evolução foi tão perceptível que Verstappen destacou a diferença de comportamento do carro após conquistar sua primeira vitória no circuito de rua de Singapura. Para o tetracampeão, o principal avanço foi tornar o monoposto mais fácil de pilotar e mais previsível, duas características fundamentais para voltar a disputar as primeiras posições. “As últimas corridas foram realmente positivas para nós. Nosso carro deu um passo muito bom à frente. Ele ficou mais fácil de pilotar e mais previsível. Era exatamente isso que eu queria e precisava para encontrar aquele último passo necessário para lutar na frente”, afirmou o piloto.

O pacote de Baku foi um marco para a temporada da Red Bull. As alterações envolveram o assoalho, o difusor e os sidepods, com um novo ajuste na asa dianteira introduzido duas etapas depois, em Singapura. O conjunto permitiu melhorar o equilíbrio aerodinâmico e explorar melhor o potencial do RB22 em diferentes condições.

O que mudou no RB22 a partir de Baku

O principal objetivo das atualizações parece ter sido melhorar o fluxo de ar pelas laterais do assoalho até a parte traseira do carro. Para isso, a Red Bull ampliou o espaço disponível para a passagem do ar e modificou o formato dessa região, incluindo a área à frente das rodas traseiras. Essas mudanças abriram caminho para uma reformulação do difusor, componente fundamental para gerar carga aerodinâmica a partir do fluxo de ar que passa sob o carro. Com um escoamento mais eficiente, a equipe conseguiu aproveitar melhor o espaço permitido pelo regulamento para trabalhar o perfil dessa estrutura.

O desafio técnico está em manter o fluxo de ar aderido às superfícies do difusor mesmo quando o carro está em velocidades mais baixas. Nessas condições, o monoposto tende a apresentar menor velocidade do fluxo aerodinâmico e alterações na altura em relação ao solo, o que pode comprometer a eficiência do conjunto.

Ao melhorar esse comportamento, a Red Bull ganhou margem para utilizar um difusor mais agressivo sem comprometer tanto o desempenho em baixa velocidade. O resultado potencial é um carro capaz de gerar mais carga aerodinâmica nas curvas rápidas e manter um comportamento mais consistente em diferentes trechos do circuito.

Sidepods mais estreitos ajudam a liberar o fluxo de ar

Uma das mudanças mais importantes está nos sidepods, as estruturas laterais da carroceria que abrigam componentes internos e também influenciam o caminho percorrido pelo ar em direção à traseira. A Red Bull reformulou o perfil dessas estruturas para abrir mais espaço à passagem do fluxo de ar pelas laterais do assoalho. Para acomodar os mesmos componentes internos em uma seção mais estreita, a equipe adotou um formato mais alto e fino.

Essa solução permite reduzir as limitações impostas pela carroceria ao escoamento aerodinâmico. O objetivo é fazer com que uma quantidade maior de ar chegue à região traseira de maneira controlada, favorecendo o funcionamento do assoalho e do difusor. O ganho não depende apenas do volume de ar que passa por essa área, mas também da qualidade do fluxo. Quanto menor a perturbação provocada pela carroceria e pelas rodas, maior a possibilidade de aproveitar o potencial aerodinâmico do conjunto.

Assoalho e rodas traseiras também receberam atenção

Outra alteração acompanha uma tendência técnica iniciada pela Ferrari: a adoção de uma extensão vertical à frente das aletas laterais do assoalho. A solução busca controlar melhor o fluxo turbulento gerado pelos pneus dianteiros, reduzindo a interferência desse ar na região lateral do assoalho. Esse controle é importante porque as turbulências podem prejudicar a eficiência aerodinâmica justamente em uma área decisiva para o funcionamento do carro.

Com o fluxo pelas laterais mais organizado, a Red Bull também conseguiu trabalhar de maneira mais agressiva as aberturas conhecidas como tyre squirt slots, localizadas à frente das rodas traseiras.

Essas aberturas ajudam a controlar os efeitos do ar deslocado pelos pneus, que pode interferir no escoamento sob o carro. A combinação entre as mudanças no assoalho, nas aberturas e no difusor permite que os componentes funcionem de forma mais integrada, em vez de dependerem de soluções isoladas.

Difusor mais eficiente amplia as possibilidades aerodinâmicas

O novo volume disponível à frente das rodas traseiras também parece ter permitido à Red Bull modificar o perfil do difusor, adotando uma rampa menos abrupta e aproveitando melhor o espaço permitido pelo regulamento. A alteração sugere que a equipe conseguiu melhorar a aderência do fluxo de ar em velocidades mais baixas, uma condição importante para explorar uma geometria mais eficiente em alta velocidade.

Esse avanço pode trazer benefícios que vão além da velocidade em curvas. Quando o assoalho gera mais carga aerodinâmica ao longo de uma faixa maior de velocidades, a equipe ganha liberdade para escolher as configurações das asas dianteira e traseira.

Isso acontece porque a carga produzida pelo assoalho tende a gerar menos arrasto do que aquela obtida por meio das superfícies superiores da carroceria e das asas. Assim, a Red Bull pode buscar mais aderência sem necessariamente aumentar o arrasto na mesma proporção. Dependendo das características de cada circuito, essa margem pode ser usada para aumentar a velocidade nas retas mantendo um nível semelhante de carga aerodinâmica ou, alternativamente, para melhorar a aderência nas curvas sem sacrificar tanto a velocidade final.

Mais equilíbrio devolve confiança a Verstappen

Os efeitos das atualizações ficaram evidentes em Baku e, especialmente, em Sepang, circuitos nos quais a Red Bull demonstrou excelente velocidade nas retas. Em outras pistas, a equipe pode optar por aproveitar a evolução de maneira diferente, priorizando a carga aerodinâmica e o desempenho nas curvas. A melhora não se limita à aerodinâmica. Verstappen também mencionou avanços recentes na unidade de potência desenvolvida pela Red Bull Powertrains, outro fator que pode ampliar as possibilidades de configuração do carro.

O aspecto mais importante, porém, foi a transformação no comportamento do RB22. No início do ano, o carro era difícil de conduzir e, em determinados momentos, chegava a assustar o próprio piloto. Com as mudanças, passou a apresentar um equilíbrio mais consistente e respostas mais previsíveis. “Aprendemos muito e corrigimos várias das nossas fraquezas. O carro definitivamente ficou muito melhor a partir de Baku. Está muito mais equilibrado em comparação com o começo do ano, quando às vezes era até um pouco assustador de pilotar”, explicou Verstappen.

O holandês também ressaltou a dimensão da evolução alcançada pela equipe ao longo da temporada e espera que o momento positivo continue nas próximas etapas. A sequência de vitórias em Sepang e Singapura mostrou que a Red Bull conseguiu transformar mudanças técnicas em resultados concretos. Mais do que melhorar a velocidade em um setor específico, o pacote parece ter devolvido ao RB22 o equilíbrio necessário para que Verstappen volte a explorar todo o seu potencial na luta pelas primeiras posições.

Foto: (Reprodução/ Fórmula 1)