O MVP MMA deixou claro que seus planos vão muito além de promover eventos pontuais. Depois de estrear com enorme repercussão em maio, a organização fundada por Jake Paul e Nakisa Bidarian anunciou um movimento que pode mudar completamente o cenário das artes marciais mistas: a fusão com a PFL. Na prática, a marca PFL deixará de existir no início de 2027, dando lugar ao MVP MMA, que nasce com a ambição de ocupar, de forma definitiva, o posto de principal concorrente do UFC.
Quando o primeiro evento do MVP MMA foi anunciado, muita gente acreditou que o objetivo era apenas disputar audiência com o UFC. A organização colocou Ronda Rousey e Gina Carano na luta principal, contou com Francis Ngannou no card e ainda promoveu o retorno de Nate Diaz. O elenco estrelado, aliado à transmissão pela Netflix, alimentou especulações de que Jake Paul queria apenas vencer Dana White nos números.
Agora, porém, fica evidente que o projeto sempre foi muito maior.
PFL perde a identidade para MVP MMA e dá lugar a um novo projeto
A PFL passou os últimos anos tentando encontrar um caminho. Antes conhecida como World Series of Fighting (WSOF), a organização mudou de nome, reformulou seu modelo de negócios e, em 2023, comprou o Bellator em uma tentativa de criar uma potência capaz de rivalizar com o UFC.
Na teoria, parecia um plano interessante. Na prática, a integração nunca funcionou como esperado.
Os eventos continuaram sem grande impacto, a identidade da marca ficou cada vez mais confusa e até mesmo um novo rebranding chegou a ser discutido recentemente pelo CEO John Martin. Agora, ironicamente, esse rebranding realmente acontecerá, mas não para fortalecer a PFL e sim para substituí-la completamente.
Martin continuará no comando da empresa, porém como CEO do MVP MMA.
Enquanto a PFL possuía centenas de atletas, mas carecia de direção, o MVP apresentava justamente o cenário oposto: tinha uma visão muito clara do que queria construir, mas ainda não possuía um elenco consolidado no MMA.
A fusão resolve os problemas dos dois lados.
O modelo “fighter first” continua sendo a principal bandeira
Desde sua criação no boxe, a Most Valuable Promotions construiu sua imagem defendendo melhores condições para os atletas. A empresa investiu pesado no crescimento do boxe feminino, assinou acordos importantes de transmissão e reuniu algumas das maiores estrelas da modalidade.
No MMA, essa filosofia também apareceu logo na estreia.
Além de bolsas bastante superiores ao padrão visto em outras organizações, diversos atletas receberam pagamentos considerados históricos para suas carreiras. O brasileiro Philipe Lins, por exemplo, recebeu uma bolsa divulgada de US$ 100 mil para enfrentar Francis Ngannou, valor muito superior ao que costumava ganhar durante sua passagem pelo UFC. Como se não bastasse, ainda recebeu outros US$ 100 mil do próprio Ngannou como forma de reconhecimento após a luta.
O camaronês, por sua vez, faturou uma bolsa na casa dos milhões de dólares.
Essa política de remuneração passa a ser um dos principais atrativos para os cerca de 400 atletas que fazem parte do plantel herdado da PFL.
Segundo Nakisa Bidarian, o objetivo nunca foi apenas administrar mais uma organização de lutas.
A ideia é construir uma empresa capaz de colocar os atletas no centro das decisões, oferecendo melhores oportunidades financeiras e uma estrutura diferente daquela tradicionalmente vista no mercado.
Um primeiro evento que chamou atenção do mundo
Apesar das críticas relacionadas ao casamento de algumas lutas, principalmente pela escolha de Ronda Rousey e Gina Carano como atração principal, o primeiro evento do MVP MMA foi um enorme sucesso em termos de audiência.
A transmissão pela Netflix registrou uma média global próxima de 17 milhões de espectadores, número muito superior ao que Bellator, PFL ou WSOF conseguiram alcançar em seus melhores momentos.
Nem tudo, entretanto, saiu como o planejado.
A rápida vitória de Ronda Rousey, que finalizou Gina Carano em apenas 17 segundos, gerou críticas nas redes sociais e fez muitos fãs questionarem se o duelo realmente fazia sentido do ponto de vista esportivo.
Ainda assim, a repercussão mostrou que existe espaço para um novo grande player no mercado.
O desafio de enfrentar o UFC começa agora
A fusão representa apenas o primeiro passo. O verdadeiro desafio será transformar toda essa atenção em um produto consistente ao longo dos próximos anos.
Ainda existem diversas perguntas sem resposta.
O MVP MMA continuará apostando em nomes veteranos para gerar audiência? Buscará contratar estrelas insatisfeitas com o UFC? Aproveitará influenciadores digitais para ampliar seu alcance? Ou concentrará seus esforços em desenvolver novos talentos utilizando a ampla base de atletas herdada da PFL?
Outro ponto importante será o próximo acordo de transmissão.
A estreia na Netflix mostrou o potencial da marca, mas ainda não há definição sobre como será a distribuição dos eventos a partir de 2027. Esse aspecto pode ser decisivo para consolidar o crescimento da organização.
Além disso, o mercado promete ficar ainda mais movimentado.
Scott Coker, ex-presidente do Bellator, trabalha em sua nova organização, provisoriamente chamada de Strike MMA, que também pretende iniciar suas atividades em 2027. Ou seja, além do UFC e do novo MVP MMA, uma terceira empresa tentará conquistar espaço entre os fãs.
Enquanto isso, o UFC segue atento aos movimentos da concorrência. Nos últimos dias, a organização contratou dois atletas que haviam chamado atenção no evento inaugural do MVP MMA: o peso-pesado Robelis Despaigne e o francês Salahdine Parnasse, que já tem luta marcada contra Dan Hooker na próxima edição do UFC Paris.
A disputa pelos melhores atletas promete se intensificar.
Se durante muitos anos o UFC reinou praticamente sem concorrência relevante, os próximos capítulos indicam um cenário bem diferente. O MVP MMA não parece interessado apenas em vencer uma batalha de audiência ou promover um evento chamativo. A meta é construir uma empresa capaz de competir em todas as frentes, desde a contratação de atletas até os direitos de transmissão e o modelo de negócios.
Ainda é cedo para saber se esse plano dará certo. Mas uma coisa parece inevitável: o mercado do MMA entrará em uma nova fase, com muito mais disputa fora do octógono do que vimos nos últimos anos, na presença de uma MVP MMA sedento pelos holofotes. E, quando existe concorrência de verdade, quem normalmente sai ganhando é o fã.
Foto: Divulgação/MVP