O clima em St. James’ Park no último sábado à noite foi estranho. Pesado. Desconfortável. O Newcastle foi derrotado pelo Brentford e esteve longe de ser apenas mais um tropeço em uma temporada irregular. Pela primeira vez em muito tempo, o Newcastle foi vaiado tanto no intervalo quanto no apito final. Um sinal claro de que algo não ia e também, vai bem. Muito pelo contrário: talvez este seja o ponto mais baixo desde a chegada do dinheiro saudita ao clube, quase cinco anos atrás.
A coletiva de Eddie Howe após o jogo teve um tom diferente. Mais contido, mais emocional. Cada palavra parecia escolhida a dedo, como quem sabe que está sendo observado de perto, um sinal forte de até onde a pressão parece ter chegado no Newcastle. O fator casa sempre foi um caso a parte, se apresentavam fortes e dominantes, mas não andam sendo mais. Não soou como um técnico perdido, mas como alguém que sente o peso da responsabilidade e que começa a questionar a si mesmo.
Os números ajudam a explicar o incômodo da torcida. O Newcastle ocupa apenas a 12ª posição da Premier League, vem de três derrotas consecutivas e ainda foi eliminado da Copa da Liga na semana passada. Para um clube que, recentemente, brigava por Champions League e sonhava alto, é um baque considerável. Estar longe do G4 já é um motivo para o alerta apitar.
Esse contexto faz com que o momento atual seja visto, internamente e externamente, como o mais delicado desde a mudança estrutural promovida pela nova gestão. Não é uma crise financeira, nem institucional. É esportiva e isso, no futebol inglês, costuma doer ainda mais.
Eddie Howe: dedicação total, mas muitas perguntas
Desde que chegou aos Magpies, em novembro de 2021, Eddie Howe mergulhou de cabeça no projeto. Corpo, alma, coração. Ninguém dentro do Newcastle pensava em questionar seu comprometimento. Ele transformou o time, elevou o nível competitivo e criou uma conexão rara entre elenco, clube e cidade.
Mas até os melhores treinadores precisam se reinventar. E Howe sabe disso. As dúvidas agora passam por escolhas táticas, gestão do elenco e até metodologia de treinos. O problema? Treinar virou quase um luxo.
O Newcastle simplesmente não consegue treinar. O calendário atual se encontra completamente brutal: seis jogos em 17 dias, partidas a cada três dias, sem respiro. O clube não tem uma semana livre desde a pausa internacional de novembro.
É verdade que Manchester City, Liverpool e Arsenal enfrentam a mesma maratona, a mesma realidade devido aos inúmeros compromissos. A diferença é simples e cruel: esses clubes têm elencos mais profundos e preparados para lidar com esse desgaste. O Newcastle até contratou mais jogadores, mas não consegue manter o grupo no mesmo nível que seus “oponentes”.
E quando o cansaço físico se junta à falta de confiança, o futebol cobra a conta.
O mercado de verão que agora pesa
O verão passado parecia uma chance de ouro para dar um salto definitivo. O Newcastle investiu pesado, gastou cerca de £250 milhões e contratou cinco jogadores de linha. Até agora, apenas Malick Thiaw correspondeu plenamente às expectativas.
Os outros quatro, Yoane Wissa, Nick Woltemade, Jacob Ramsey e Anthony Elanga ainda não foram capazes de justificar o investimento. No melhor cenário, o julgamento segue em aberto. No pior, são peças que hoje não conseguem mudar jogos. O alemão até chegou a dar um bom cartão de visitas, mas se perdeu com o tempo, e já no caso dos outros nomes, é algo muito distante do que foi oferecido na temporada passada.
E quando você joga a cada três dias, não basta que um ou dois reforços funcionem. A maioria precisa entregar. É por isso que os erros, ou apostas do último mercado começam a cobrar um preço alto agora.
Howe ainda tem bagagem no Newcastle
Vale lembrar: o histórico de Eddie Howe no mercado é excelente. Tino Livramento, Lewis Hall, Sandro Tonali, Bruno Guimarães e Dan Burn não só chegaram e renderam, como cresceram juntos. Viraram líderes, símbolos, a espinha dorsal do time, a famosa identidade do grupo.
Esse crédito ainda existe. Internamente, há confiança de que os reforços mais recentes podem render, mas o tempo está ficando curto. O futebol não espera, é necessário que eles voltem a viver um pouco do passado, porque caso não, simplesmente sucumbirão a realidade, e precisarão de mudanças pra ontem.
Nas redes sociais, o tom mudou. A paciência diminuiu, e o respeito com Howe nem sempre é o mesmo. Já nas arquibancadas, a leitura é diferente. O torcedor que vai ao estádio entende o contexto, o desgaste, o histórico. Quer reação, claro, mas também quer dar tempo.
Howe ainda tem o respaldo da diretoria do Newcastle. Total. Mas ele próprio sabe como funciona o jogo: se as derrotas continuarem, a pressão vira realidade, independentemente do passado.
Uma sequência que assusta qualquer um
E como se tudo isso não bastasse, o futuro próximo não ajuda em nada. Pelo contrário:
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Tottenham fora de casa, na terça
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Aston Villa fora, pela copa, no sábado
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Viagem de 5.000 milhas até Baku, pela Champions League
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Na sequência, Manchester City fora de casa
É uma sequência simplesmente implacável. Não há tempo para recuperar, ajustar ou respirar, enquanto isso, o Newcastle precisa mudar.
Proteger a confiança é prioridade
Na coletiva após a derrota para o Brentford, Howe fez questão de assumir a responsabilidade. Um gesto claro para tirar o peso dos jogadores. Ele sabe que, neste momento, a confiança é tão importante quanto o preparo físico.
O Newcastle precisa desesperadamente de um estalo, acordar para realidade, voltar a entregar algo interessante. Um gol salvador, uma grande atuação individual, alguém que chame a responsabilidade. Seja Elanga, Woltemade ou qualquer outro. Alguém precisa acender a faísca.
Porque hoje, o problema não é só perna pesada. É cabeça baixa. E recuperar confiança no meio de uma maratona dessas é, talvez, o maior desafio da carreira de Eddie Howe. A derrota para os Bees no St James Park foi um soco no estômago, ainda mais por terem saído na frente, e também, junto com o fator de parecer que sempre estão interessados em descansar, não continuar atentos, no primeiro vacilo, andam sendo cobrados.
Foto: Getty Images